terça-feira, 26 de março de 2019

A Devoradora de Corações - 3.


Arroz dos Anjos

Soror Maria dos Anjos, antes Inês de Negrões, era tida no convento como louca, apesar dos seus inocentes 17 anos, e do facto de ser a única filha de pais abastados e de posição, que aí a depositaram com um dote elevadíssimo ao não conseguir vislumbrar um casamento proveitoso no seu futuro, prevendo, pelo contrário, que o seu bom nome junto das pessoas importantes ficasse irremediavelmente manchado, à conta dos evidentes sintomas que a filha exibia de uma qualquer enfermidade desconhecida ou, talvez, de uma negra possessão.
Pois para os seus pais extremosos, muitos tinham sido os anos de sofrimento causados pelas suas alucinações, as suas longas conversas com anjos ou santos ou todos juntos e ao mesmo tempo, até na mesa do jantar com as visitas importantíssimas para os negócios do papá, os jejuns obstinados e prolongados, nomeadamente nos mesmos jantares.
Grande tinha sido a sua angústia com a ignóbil ligação que a filha mantinha com gente de condição inferior, onde é que já se vira, privar com mendigos, tirar comida das despensas e armários da casa para levar a gente estranha, é certo, que habitavam casebres do tamanho das despensas, provavelmente, a ofertar-lhes agasalhos e meias, a passar longas horas naquilo que ela chamava de “conversas de consolo” em vez de conversas interessantes sobre casamentos e prendas e dotes com as filhas da mesma idade dos amigos do papá, a abrigar crianças maltrapilhas em casa, no seu quarto imaculado, com as suas roupas vindas de Paris e de Milão, e de chegar ao ponto de se desfazer dos casacos que trazia vestidos para dar a alguém que visse na rua e que precisasse mais, todas estas tormentas eram uma constante na vida destes desafortunados pais, que não viram mais nenhuma solução do que um convento de clausura num lugar bem distante para a filha, a dedicação e prosperidade nos negócios para o papá e a devoção aos sobrinhos interesseiros para a mamã.


Manjar Real

Para a Irmã Maria do Céu, o convento sabia a gemas de ovos com açúcar e miolo de amêndoas em palitos, estaladiços, com um toque subtil que dava realeza a uma sobremesa.
Claro que ter como ingrediente carne de galinha não deixava de ser estranho, quem sabe exótico, mas era uma peculiaridade única, nem todos os doces se podem gabar disso, e a Irmã Generosa era uma exímia artesã dessa iguaria, para ela, tão sedutora.
Nesse caso, apenas, seria aceite o sacrifício da pobre galinha. Mas era por um bem maior.
Era aceite também a introdução de mais um ingrediente, pó de gengibre, cuidadosamente guardado em segredo por Soror Imaculada, apenas nesta ocasião, uma vez que, aqui, era considerado pecado mortal a alteração de uma receita antiga. Apenas novas criações eram toleradas, mas nunca, nunca, o desrespeito a uma receita já de si perfeita.
Hoje era noite de servir esse doce, que seria comido em colheradas partilhadas de boca a boca, na sua cama, a altas horas da madrugada, por dois corpos exaustos de desejo e de prazer, e Soror Generosa já o tinha mandado entregar à sua cela, com todo o cuidado, por uma monja da sua confiança, a doce, silenciosa e sempre fiável Leonor, agora Piedade.
Há que ver, a Irmã Maria do Céu não estava no convento por vocação. Aliás, quase nenhuma delas estava. Mas este havia sido o esconderijo perfeito para a sua situação de concubina do rei. Quem iria suspeitar? Tinha ali todos os luxos e confortos que teria num palácio, mas sem o desconforto dos olhares e ditos maldosos, e sem as mesquinhices e ciúmes das outras damas que aspiravam à sua posição, já que, naquele lugar, nenhuma das suas companheiras tinha essa aspiração, além de que a defendiam como a uma delas. O que, para ela, era uma mudança agradável: a vantagem do segredo, a tranquilidade do anonimato, e o amor fraternal que as suas irmãs não tiveram para com ela, já que haviam também conspirado contra si.
Este tinha sido um dia de muitas preparações e cuidados: o banho demorado com a água perfumada de alfazema, com todos os prazeres a que se achava de direito tomar, o espalhar pela pele do bálsamo preparado pela Irmã Imaculada, que prolongava esta lenta e doce sensação, o arranjar minucioso dos atavios e dos cabelos, enfeitados com pequenas rosas, pouco mais que botões, a disposição das cortinas e de suaves véus indianos pela sua cela, os incensos a perfumar o ambiente, em conjunto com as delicadas camélias que haviam sido colocadas em consolas e mesinhas de apoio.
Todas estas preparações em honra dele, apenas dele: o seu rei, o seu amo, o seu mestre, o seu escravo, o seu amor mais profundo.
Soror Maria do Céu conhecia o ritual. E conhecia a decepção de não vir ninguém, o eco nos corredores ser de silêncio, e de essa ausência lhe deixar um imenso buraco no peito.
Primeiro, a entrada secreta no convento, pelo lusco fusco, a sua hora preferida, em que não era dia nem noite, em que ela era mulher e santa, mortal e deusa, o som dos passos apressados, ansiosos, pelas pedras escurecidas dos corredores, o bater do seu coração a acompanhar o ruído dos passos, cada vez mais acelerado, depois, silêncio, mas só por dois segundos, a ânsia antes da emoção, o virar da maçaneta da porta da sua cela, um ligeiro guinchar de molas, o pousar de uma pétala de camélia que se desfizera do ramo, um clique suave ao fechar a porta; a seguir, o perfume dele a chegar junto de si, antes mesmo da sua própria presença, aquele aroma único a ervas e a suor e a vento e a liberdade, saberia reconhecer esse aroma em qualquer lugar, uns dedos a aparecer gentilmente por onde as cortinas se uniam, a afastá-las com delicadeza, com carinho, com temor, olhos negros de falcão a espreitar de seguida, e aí também toda ela se arqueava de tensão, todo o seu coração se abria de paixão, as suas pernas se abriam de desejo e humidade, e a sua boca se abria e a voz não era a dela, era a da criatura que a possuía nesse momento e expirava roucamente “vem, vem, meu senhor!”




quinta-feira, 7 de março de 2019

A Devoradora de Corações - 2.


Arroz Doce

Leonor, agora Piedade, nasceu numa família grande e de baixa condição, na cidade do Porto. O bairro onde vira pela primeira vez a luz do dia era escuro e húmido.
Leonor não era bonita nem faladora, nem gostava muito de coser baínhas e rasgões.
Leonor não ia arranjar marido, mesmo que ajudasse a cuidar dos irmãos mais novos com zelo, competência e amor, e que lhes cozinhasse as papas melhor do que qualquer outra pessoa que conhecessem.
Disto tudo já Leonor sabia quando, no dia do seu 8º aniversário, num sombrio 31 de Outubro, a levaram do casebre imundo dos seus pais para a asseada e luxuosa vivenda dos senhores Bastos de Noronha, num bairro elegante e movimentado do Porto.
Leonor quase não falava, porque tal não lhe era necessário, pouco mais do que os essenciais “sim, minha senhora”, ou “com certeza, minha senhora”, a energia era-lhe toda necessária para a perfeita execução do seu único e mais completo dever de obediência e, por isso, não a gastava em coisas superficiais, como palavras faladas.
Aprendera a ler e a escrever, no entanto, imaginando que nunca daí viria proveito ou utilidade, mas algo dentro dela a incitava a isso, e foi com dedicação que aceitou os parcos conhecimentos do seu irmão Pedro, o único dos irmãos a frequentar alguma vez a escola na infância porque, sendo o único rapaz numa família de 12 filhos, e o preferido da mãe, esta insistira em como ele haveria de ser doutor de alguma coisa.
Infelizmente, ao Pedro, só lhe interessava ser doutor de um grupo de coro ou de um filme do cinema, e a aprendizagem da leitura foi-lhe útil apenas para ler os jornais de variedades a que conseguia deitar a mão, em vez dos livros do colégio, o que resultou em acabar na barbearia do Sr. Mateus a varrer o chão e a meter gordura no cabelo, que ia desaparecendo velozmente, porque não percebia nada de fazer barbas e de cortes de cabelo, nem estava interessado, e nem o facto de a Madalena ter conseguido estudar, ter-se tornado jornalista em Paris e de ter casado com um diplomata, ou de a Elsa se ter tornado médica, ou de a das Neves ter um negócio de sucesso com vários restaurantes de comida típica e fados, ou de a Rosa e a de a Maria terem ido à aventura para os Estados Unidos, foi capaz de fazer a mãe achar que o Pedro não era o melhor de todos os filhos que tivera.
Leonor aprendeu a ler e a escrever, mas não lia, não escrevia, e quase não falava.
Leonor fora feita para obedecer e trabalhar, e era isso que ela fazia na casa dos doutores Bastos de Noronha.
Além disso, Leonor não via e não ouvia, o que era muito prático para o seu trabalho e que, apesar de por vezes lhe dar um ar de fantasma nas divisões da casa onde se encontrava, também lhe garantia a confiança total dos senhores.
Nunca quebrara um prato, uma jarra, um copo, nunca tropeçara num tapete, nunca fizera qualquer ruído ao mover-se, nem um rogaçar da farda engomada num cortina de veludo do salão.
E, assim, ao longo dos anos, Leonor foi-se tornando necessária, indispensável, insubstituível e, cada vez mais, silenciosa.
Foi desta forma amena que correram os dez anos seguintes da sua vida quando, no dia do seu 18º aniversário, Maria Benedita, a cozinheira, deu à luz a um pequeno bastardo do menino Henrique e faleceu esvaída em sangue e com o menino enforcado no cordão umbilical no minúsculo e bafiento quarto nas águas furtadas que partilhavam as duas.
Assim o disse à esposa o Doutor Henrique Bastos de Noronha Pai, cirurgião de profissão, que assistiu mãe e filho no parto.
Nesse dia, não havia mais ninguém em casa, além do Sr. Doutor, da Senhora Dona Maria da Conceição Bastos de Noronha e de Leonor, e era necessário, obviamente, fazer o almoço.
“Leonor, sabes cozinhar?”
“Um pouco, minha senhora.”
“Pois agora digo-te que tens de saber. Faz o almoço para o meio-dia em ponto!”
Leonor não sabia se sabia cozinhar, de facto. Além das papas de água e pão e alho e coentros ou hortelã que fazia para as irmãs com o que sobrava do pão duro das vizinhas e das ervas que cresciam nos descampados e nas ruínas do bairro, Leonor nunca tinha experimentado cozinhar.
Mas não lhe eram desconhecidos os cheiros e os sons da cozinha, é claro, onde ia buscar as refeições dos senhores, e o odor das misturas de ingredientes  quando, na mesa da sala decorada com móveis Luis XIV, as pratas dos avós do senhor e as loiças francesas dos seus pais dispostas nas toalhas de linho bordadas do enxoval da senhora, perfumadas pela própria Leonor com água de tomilho quando as lavava a todas uma vez por semana, servia a sopa de cogumelos e trufas com tostinhas de pão de alho e manjericão, o guisado de cabrito tenro, aromatizado com coentros e pimentão doce, as batatas miúdas assadas no ponto num tabuleiro de barro, nem em demasia nem em falta, as farófias com o suave creme de gemas, a canela e um toque de noz moscada polvilhadas por cima.
Não havia muito na cozinha, mas Maria Benedita, que Deus a tivesse na sua glória, pobrezita, não tinha culpa de ter caído nos braços entusiasmados do menino Henrique que nem uma tontinha e de lhe ter gerado um bastardozito, queria lá saber que ele estivesse de casamento marcado com a menina Antónia Toscano, afilhada do Sr. Doutor, era rapariga do campo, e tinha os vasos e os canteiros do pátio da cozinha, nas traseiras da casa, bem aviados de ervas e vegetais, e bacalhau demolhado para o que ela achava que ia ser o almoço desse dia, que ela, nos últimos tempos, com a barriga a evidenciar-se cada vez mais, dera em achar muitas coisas, inclusive que ia ser promovida a senhora da casa, e isto, com umas batatas, cebola, farinha, leite, ovos, açúcar e canela encontrados no fundo da prateleira da despensa, lá deu para Leonor servir aos senhores um simples creme de espargos com pedacinhos de presunto, um irresistível bacalhau no forno com uma cama de cebola dourada por baixo e um cremoso puré de batata pincelado de gemas, igualmente dourado, e umas aromáticas tigeladas que, sabe-se lá por que gesto mágico de Leonor, lhes souberam ao melhor dos banquetes da sua vida de burgueses!
Depois do almoço, a senhora pediu uma infusão de tília na saleta e dispôs-se a interrogar a criada para todo o serviço - fazer as camas, lavar os lençóis, limpar os vidros, encerar o chão de madeira, servir o pequeno-almoço, o almoço, o chá, o jantar, o licor do Sr. Doutor e do menino Henrique, tirar os penicos, limpar os penicos, limpar os vomitados e as marcas de batom das camisas dos senhores, escovar os fatos, os tapetes, os cortinados, os sapatos com igual competência e brio - todos, todos, menos cozinhar, de modo a saber exactamente o que se tinha passado com Leonor sozinha na cozinha durante aquelas duas horas.
“Só fiz o almoço, minha senhora.”
“E quem te ensinou a cozinhar, se vieste para aqui em criança e nunca entraste na cozinha senão para levar e trazer os pratos da mesa? Aquela deslambida da Maria Benedita é que não foi, que era uma rústica!”
“Não sei, minha senhora. Fiz o que pude.”
“Pois se é para ser assim, a partir de hoje, tratas tu da cozinha. Logo vem o Sr. Doutor e a sua mãezinha para o jantar. Se te desembaraçares bem, como o fizeste agora, procuro mais duas criadas de servir e ficas tu com o lugar daquela porca da Maria Benedita!”
Enquanto qualquer outra criada, no seu lugar, se tivesse sentido perfeitamente aterrorizada com a mudança súbita, mais do que de funções, de vida, a Leonor esta novidade não a afectou em nada.
Dirigiu-se à cozinha, agarrou na cesta de vime e, sem espreitar o que havia ou não havia na despensa, dispôs-se a ir até ao mercado, onde só havia entrado uma vez, à procura das maçãs reinetas que tinham apetecido à Maria Benedita há umas semanas atrás.
Antes de sair, ainda deixou uma velinha acesa pela alma da cozinheira, que devia estar perdida desde o dia em que que ela abriu mais dois botões do camiseiro quando foi servir o licor no quarto ao menino Henrique e que lhe deixava o rego dos seios a saltar de fora, e pelo menino que nascera enforcado para a vida, pobre inocentezinho, nem tivera tempo de ser baptizado, e rezou três avé marias para que não andassem a atormentar depois a senhora Dona Conceição, que cada vez que se lhes referia era de formas tais que, de certeza, ia espicaçar os fantasmas a perseguí-la de noite lá por casa.
Foi assim que Leonor passou os 30 anos seguintes.
A não ver o senhor Doutor a passar levemente a mão em que tinha o anel do seu pai pelas pernas das criadas, ou a mão onde tinha a aliança a passear-se confortavelmente pelos decotes das amigas da senhora em dia de chá, sob risinhos falsamente púdicos.
A não ver a senhora a fazer desaparecer o conteúdo das garrafas de licor e a rezar duas novenas ao santo de cada dia; a não ver as criadas que chegavam e que se iam para vidas melhores bem longe dali.
A não ver a senhora mãezinha do Sr. Doutor que estava cada vez mais magra, mais vítrea, mais alheada deste mundo, mais ignorada pela família, mais entranhada em memórias de há muito muito tempo atrás, e em conversas com pessoas que já não eram deste plano, até que um dia se foi de vez, sentada na sua poltrona, na sala de visitas, como se apenas tivesse caído num dos seus sonos de passarinho.
A não ver o menino Henrique cada vez mais pálido e congestionado, cada vez mais dependente do xarope azul que um amigo lhe aconselhara, com cada vez menos apetite, nem para as canjas de galinha com hortelã que gabava a Leonor e que eram a única coisa que aceitava comer em casa, até que, um dia, se foi também, num acesso de tosse e sangue, na poltrona da avó, num dia de finados em que todas acompanharam a senhora ao cemitério para lavar e esfregar a preceito o jazigo da sua família, sem ninguém que o socorresse, nem sequer o Sr. Doutor, seu pai, nesse momento entretido no quarto do sótão com a nova copeira, que ficara em casa com uma dorzita de cabeça, nem sequer Leonor, que o amara desde o primeiro dia em que lhe baixara os olhos aos pés e ele lhe sorrira e fizera uma festa amigável na face corada, o que fez com que a sua mãe ficasse prostrada com o desgosto durante um mês e ganhasse um tique nervoso no olho esquerdo para o resto da vida, e com que Leonor perdesse por completo a fala até ao fim dos seus dias naquela casa.
Foi assim que Leonor passou os 30 anos seguintes, até que, com o último suspiro da senhora se achou sozinha no mundo e decidiu procurar um pouco de paz num lugar onde toda a gente, tal como ela, era silenciosa e não pertencia a lugar nenhum.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A Devoradora de Corações e Outras Histórias de Amor Trágicas.


Prólogo: Marmelada Vermelha.

Soror Generosa mexeu de forma suave o doce e suspirou melancolicamente. Apontou mais umas notas, olhando atentamente para o resultado da sua nova experiência, e começou a colocá-lo nas tigelas de barro com uma velha colher de madeira de nogueira que trouxera no seu enxoval, há muitos e muitos anos atrás.
Isto passara-se há já 70 anos. Soror Generosa olhou as mãos. Contava agora 85 anos de idade. A pele estava um pouco manchada e enrugada, mas podia olhar sem qualquer outra diferença para as mãos esguias e elegantes, mãos de poeta e não de cozinheira, que trazia quando tinha 15 anos e entrara para sempre, ou assim ela o julgara até à manhã de hoje, deixando para trás o nome de Francisca que usara até essa idade, uma parte pequeníssima da sua vida, e um noivo com quatro vezes a sua idade que falecera menos de uma semana antes do casamento, pelo que, apesar da tenra idade, e de o pai a ter enviado para um convento, Francisca, depois Generosa, sempre teve noção de que a vida lhe escolhera melhor o destino e lhe tinha mais amor do que o seu pai.
Mesmo assim, ficou confusa, e um pouco decepcionada, quando a vida, pelas palavras da Madre Superiora, lhe anunciara nessa manhã que, por motivo de constantes cheias e de o seu singelo convento estar em risco de ruir, um senhor abastado e benévolo decidira construir-lhes um novo convento umas dezenas de metros acima, e que estaria pronto já no próximo Outono.
Quisera ela que viesse uma cheia tão grande e tão forte que levasse tudo: a ela e ao convento e às suas dúvidas e aos seus medos, sabia ela lá do quê.
Só sabia era que tinha tido uma vida de paz e tranquilidade durante os últimos 70 anos, e que as novas da Madre Superiora lhe tinham deixado um bichinho de incerteza e desconhecido a roer no peito.


Ambrósia

Desde que me lembro, sempre gostei de comer corações.
Biscoitos em forma de coração que a minha avó comprava na loja da minha aldeia, e que o Sr. António ia buscar de um saco de papel enorme, que trazia para o pé do balcão com a balança que já lá estava desde os tempos do Sr. Agostinho, seu avô, e do Sr. Artur, seu bisavô, numa família onde é tradição os primogénitos terem todos nomes começados por “A”.
Pão doce em forma de coração, que eu ia buscar de manhã bem cedo, a correr pela rua ainda mal o dia havia nascido, para poder comer ainda quente, com a manteiga meio derretida e ainda meio sólida, a alquimia que eu não compreendia a transformar o pão e a manteiga num só.
Ameixas pretas em forma de coração, apanhadas do quintal dos meus avós nos dias quentes de Julho, vermelhas e sumarentas por dentro, quando lhes rompia a casca com os dentes.
Seriam os corações também assim doces e sumarentos, com o sumo a escorrer-me pelo queixo em lágrimas rubras que me deixavam depois a pele peganhenta?
Essa questão perseguiu-me durante muito tempo.
Comecei, primeiro, de leve, só a provar, a mordiscar suavemente, depois com mais entusiasmo e, finalmente, mais confiante, a literalmente devorar os corações com que me cruzava, como o fazia, gulosamente, com as ameixas dos Verões da minha infância.
Alguns eram doces, uns em excesso, ao ponto de enjoarem, outros ácidos, outros ainda amargos. Um trouxe o sabor do desgosto, de uma tristeza imensa, outro o gosto frenético de um amor adolescente, outro o aconchego de um amor tranquilo e caseiro, outro ainda a ânsia de um amor platónico e não correspondido.
Todos, sem excepção, eu devorava avidamente; já não me era possível controlar a minha voracidade. Ou não o queria fazer.
“Mas porquê?” - perguntava-me.
Inevitavelmente, esta pequena semente de dúvida tornou-se algo muito pior; algo que, no início, eu não sabia descrever, mas que acabei por compreender mais tarde o que era realmente: a fome do meu coração.
Por muito que a tentasse saciar, ficava sempre esse vazio cá dentro.
Percebi isso alguns anos depois, ao conhecer o Samuel, não sei se foi o inevitável a meter-me à prova, se o facto de nos cruzarmos o precipitou.
Os sentimentos, aí, confundem-se e, desde o momento exacto em que aconteceu, percebi que algo nele me dava ânsias que eu não sabia que existiam, e muito mais profundas, mais selvagens, do que aquela sensação de fome que o coração sentia antes, como se apenas o coração que ele trazia no peito a pudesse saciar na sua totalidade.
No início, no primeiro instante de todos, fiquei confusa, atordoada, como se o chão me fugisse debaixo dos pés e o ar me abandonasse os pulmões.
Porque tinhas tu de vir balançar o meu mundo tão sólido?
Nesse dia, estava tranquilamente, na sombra do pátio sul do convento, demasiado quente nos Verões, a ler um romance daqueles que acabam muito mal, coisa proibida até aqui, entre estas paredes, sentada irregularmente em cima de uma saca de forragem esquecida, no único canto fresco e, pareceu-me, nesse momento, que um gato cinzento tinha saltado o muro pelo lado derrubado, imagino que vindo de uns pátios não muitos distantes, como acontecera já várias vezes, com passos elásticos e silenciosos, e que o tinha visto, pelo canto do olho, a esgueirar-se para dentro do arbusto de rosmaninho, fixando-me, por um segundo, com os seus olhos de gato curiosos e inquiridores, no preciso momento em que levantei os olhos do meu livro e os lancei na sua direcção.
Mas, depois, percebi que não: outros olhos, igualmente inquiridores, raiados de curiosidade e de algo misterioso, olhos de gato, afinal, me fixavam silenciosamente da outra ponta do pátio, na direcção do meu olhar, arrepiando-me os cabelos do pescoço, uma asfixiante sensação de frio e afogamento numa tarde de calor sufocante.
Tão semelhantes aos do gato que acabara de cruzar o claustro, que julguei tratar-se do mesmo olhar, ou, quem sabe, não tenha existido qualquer gato, naquela tarde.
Afinal, quem diz que os animais nos escolhem porque somos um pouco deles também, não deixa de ter a sua razão, e este gato cinzento já antes se gostava de passear por este lugar, habitualmente só meu, como se fosse o seu legítimo proprietário.
Como o fazem todos os gatos, na verdade, agora que penso nisso.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

THE PROMISE – CHAPTER 1 – FORSAKEN

SOME SCHIZOFRENIC NOTES FROM THIS AUTHOR:

Ok, so I got the “names’ thing” evil sickness. I collect, scan, search the web, look up for meanings of names.


Some may say I am a freak.

I agree.

Here are some explanations: 

Nevertheless, some notes on this topic might pop up once in a while.

For this chapter, though, just this one:

. Dewin means “wizard” in Gaelic. I chose this for Sevvie’s middle name because it sums what he is: wise, dark, focused, methodical, devoted to study, hard-working, going beyond the expectations, a little obsessed…

My English not very good – me not native of Great Britain – but me think me not be very very dunderhead! Working really hard on improving it, though. My new hobby is reading the dictionary. Thanks, Robin, for opening the door! Thanks, Mr Dani Filth for the kick on the vocabulary!



CHAPTER 1 – FORSAKEN


Severus Dewin Snape took the little burden on his arms, not knowing properly what to do with it, and not being exactly aware of how he decided to put himself in that specific position, against all things he thought before on that subject.

Well, there was nothing to complain about it, now: he deliberately got himself in that place – as a person – he thought bitterly as it was coming to his mind, with a slight hint of regret – who, happily, gives a step towards an unknown abyss.


The house was a wreck.

It had been pouring non-stop, the skies had been dark all day long and the murky clouds brought the night earlier than usual. Winter would be coming soon.

-“An adequate day for this event.” – Severus thought, feeling his heart still pressured with the gloom of what was ahead of him.

Dumbledore was already waiting for him, but he didn’t come near. He gave Severus some time to himself. His chest seemed as if it was sinking down in a frozen pool of despair and panic, and a cold chill from nowhere ran up his back since… he couldn’t really tell, now. Perhaps since he last talked to Lily and she left him with that gloomy feeling it would be the last time he would ever set his eyes on her breath-taking smile. Severus mentally thanked Dumbledore for that moment, because it suddenly looked as if that a knot kept his throat form working.

He had never been there before.

This had been the home of the Potter family, a family to which he could never have belonged: James Potter, the man he had always hated, the man that had always hated him, and Lily… The only person he ever loved, and he once naively thought was loved by.

But he wasn’t, after all. She chose James.

And he tried to hate her for that.

It was also his flaw, anyway. A sigh slipped into the night without he plan it, and a forlorn tear was stubbornly finding its way out, falling through his cheek mixed together with the cold rain.

If there was something particular about him, apart from the dim look and stern personality, it was his solid nature.

Severus Snape was a man one could count with. If he made a pact, he would follow it, if he believed in something, it would be forever, if he made a promise, he would keep it.

Men make mistakes. He had had few; heavy, but few, and he faced them without fear.

And he was there that wintry night to keep a promise he had made many years ago.

He stepped towards Dumbledore, with wet eyes and steadiness in his face.

The aged wizard nodded his head, understanding.

-“Are you up to this task?” – Dumbledore asked, knowing it was useless to make him change his mind.

-“I am.” – Severus answered with vehemence, though his voice could be barely heard. – “That is what I am here for.”


As the day rose and light came out, the deep clouds started to leave the sky, as if knowing their purpose now was to give hope to the desperate ones.

The future didn’t seem so dark and scary now, though the past was so.

Severus peeped in the pile of cloth on his arms, protected from the few drops of rain that was still falling over them, and finally looked at… it.

Damn! Just like James!! The same rebel expression on his face, that uncontrollable black hair!

The little thing looked back at him, quiet, curious, not making a sound, and giggled.

He couldn’t help it!

An almost imperceptible smirk twitched the corner of his mouth.

He was human, for Christ’s sake! He was not a child-eating monster!

And it had HER green eyes!

It could not be that difficult to bear.



-“Dad?”

Severus woke up from his daydream at the sound of the boy’s voice.

The same green eyes were piercingly looking at his own grim ones, the messy hair incapable of hiding the lighting bolt shaped scar that marked his forehead since he could remember.

-“Dad? Am I going to Hogwarts with you, or I’ll take the Hogwarts Express with the Weasleys?” – the boy asked, at last.

-“The train, of course, Harry! You shouldn’t miss that fun for anything!” – the wizard near the window sneered, as he turned back inside.


Harry James Potter knew instantly his adoptive father was up to something!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Odisseia do Tacho 2006 - Capítulo 5.


CAPÍTULO 5 – O INSTINTO É UMA COISA FATAL.

“Com quem estou a falar?”
A voz no outro lado da linha e o timbre levemente ácido não deixavam margem para dúvida. Apesar de nunca se identificar e de fazer perguntas como se fosse um interrogador/torturador da Pide, já toda a gente na Cadriceira conseguia saber que era a D. Adélia quando ela telefonava – até Natasha, a escultural partenaire/assistente ucraniana do Júlio Cangalheiro, que só falava meia dúzia de palavras em Português, ainda por cima consagradas à sua área de trabalho.
Odete Maria apontou calmamente a encomenda de um chicote novo, 2 pares de algemas com penugem rosa choque da marca Floribella Hardcore e uma lingerie especial modelo Pamela Anderson com almofadões no soutien – medida “seios extremamente flácidos”, que tinha chegado na remessa nova, enquanto deitava o olho ao António Luís, que viera saber do paradeiro do Bruno do talho, mas que ficara, um bocado contra a sua vontade, para um cházito e uma sessão de tortura amarrado a uma cadeira com uma corda daquelas grossas e dolorosas que se usam nas traineiras.
Há já alguns dias que a D. Adélia andava sossegada – ela, que quando não andava a gastar litros de água oxigenada na banheira para aloirar mais o cabelo e intoxicar o organismo, se entretinha a rondar tudo o que mexia e que conseguisse agarrar, enquanto se fingia distraída a regar o jardim ou a dar o comer aos pintos.
Coincidentemente, pensou Odete Maria, fazendo rapidamente as contas de cabeça, desde a mesma altura em que se dera pela falta do Bruno...
Ora aí estava um caso que poderia interessar a sua irmã, a mulher que tudo vê... menos o seu pseudo-namorado amarrado a uma cadeira num quarto estreito lá de casa pela sua própria irmã...
Deixando o António Luís a pensar na vida enquanto ia perdendo a sensibilidade das mãos e dos pés, Odete Maria acelerava o passo em direcção à Sociedade Recreativa.
Encontra a Maria Odete a braços com um pequeno problema de cariz profissional – Giséla Sóráia chorava inconsolavelmente o seu arrasador destino, depois da leitura dos búzios – o Índio George nunca será dela, apesar de ela o tentar convencer, por todos os meios, a voltar para o lado certo, mesmo depois de quase o ter convertido para aí umas 4... não... 5 vezes nessa noite – aquela empoleirada no lavatório também conta...
Nem foi preciso Maria Odete arranjar uma desculpa esfarrapada para meter a chorosa e ranhosa Giséla Sóráia a andar – logo ali passava um helicóptero das Forças Armadas, conduzido pela singela Joaninha das Autópsias, que andava a tirar o curso de piloto e que durante uma aula de treino passou – por acaso, é claro – ao quintal da D. Adélia, onde conseguiu avistar a figura trémula do Bruno completamente anestesiado e subjugado, e que conseguiu socorrê-lo, montando ela própria uma arriscada porém eficaz missão de resgate.
O caso estava resolvido!!
Apesar de pensar que tinha sido raptado por seres de outro planeta como julgava – principalmente naquela parte em que se sentiu subjugado pela sonda anal - o Bruno do talho, objecto dos afectos, da atenção e das psicoses da D. Adélia que, bem vistas as coisas, ainda chegava a ser prima do serial killer da Cadriceira famoso nos Anos 70 e que andava com vontade de petiscar carninha fresca, havia sido vítima de uma cabala montada pela própria D. Adélia e por um misterioso homem contratado por ela...
... Conhecido como o “Perigoso e Assustador Pensionista do Andarilho”...
...um homem que a D. Adélia conhecera muito bem no seu obscuro passado e que era um profissional nos anos 50, mas que agora não passa de um... assustador pensionista... num andarilho... mas ele também ainda não se convenceu disso...
Ficou toda a gente pasma com esta aventura do Bruno do Talho, ainda meio atordoado, enquanto iam degustando um churrasco ao ar livre no pinhal ao pé da sociedade Recreativa, e molhando o bico num tal de vinho frizante gaseificado, que começava a deixar as pessoas assim mais levezinhas, porque estava calor e aquilo até escorregava bem...
Entretanto, Maria Odete, já cheia de pedalada e de sangria, começa a cantar um fado do Alfredo Marceneiro numa versão composta e interpretada por ela quando pensou que ia ao Festival da Canção de 92, o que faz com que o R.J., o Fanhoso, emocionado, caía do banco e entale as partes nas cuecas fio dental adquiridas na loja da Odete Maria, facto que ele logo ali revelou, adjectivando as ditas cuecas com uma data de nomes menos próprios...
Lançando ao R.J. o Fanhoso um olhar furibundo, Odete Maria saca da chinela holandesa de madeira que tinha no pé e lança-se a ele, ofendida na sua virtude. A irmã não se fica atrás, e aproveita para meter o pé no nariz do Índio George, que tem quase 2 metros de altura, enquanto a Joaninha se descontrai e dá com pote da água na tromba do Bruno, roída de ciúmes de pensar que ele se andava a meter com a D. Adélia, e Xavi Fuentes preparava-se já para arremessar o cutelo que trazia para o que desse e viesse à Maria Odete, que já não a podia ouvir, quando o Pato Jeremias, ajeitando com a asa o seu risco branco no meio da cabeça, informa:
“A radiografia da cabeça do Santo do Painel do Infante não apresenta sinais de qualquer modificação na execução pictural da sua fisionomia. O modo como se revela uma modificação desse tipo, através da documentação radiográfica, é aliás bem evidente no caso do personagem que, no mesmo painel, se situa entre o Santo e a figurão do chapeirão.”
Na posição mortalmente estática e silenciosamente avassaladora em que ficaram os nossos personagens, apenas o Bruno consegue exclamar:
“Raios partam os patos!! Sabem tudo! O instinto é uma coisa fatal!”E voltou toda a gente à sua vida normal.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Francisca, a herdeira da bipolaridade.

O exemplo mais vibrante do efeito de bipolaridade causado por este trabalho.

Tem dias em que é a companheira mais enérgica e bem humorada do call center, chegando a raiar a fofinheza.

Noutros dias, como ela própria diz, tem o coração negro: dá tacadas e raspanetes a toda a gente, mesmo que só peças licença para passar, é sarcastica até aos fundilhos (como os calções da Pitazita) e ai de quem se meta à sua frente.

Tem fobia aos ratos, mas não foi por consideração a ela que fizeram a limpeza ao edifício (não, não foi desratização, foi mesmo passar vassoura e esfregona!) no dia em que encontraram um mini ratinho na copa do primeiro andar.

Foi porque depois fechavam a chafarrica toda!

sábado, 30 de maio de 2015

Ah... quase férias!

O Cromagnon ganhou 4 dias de folga seguidos, quando o normal é apenas de um ou, vá, dois dias.

Isto inclui um fim de semana, o que é bom, e a segunda-feira, o que é melhor ainda porque, ali, habitualmente, a segunda-feira é o dia do Demo, uma vez que toda a gente gosta de tratar das suas mariquices todas e de telefonar para os sítios na segunda-feira.

De manhã!

O Cromagnon acha, e apregoa aos sete ventos, mesmo lá para o fundo do espaço, que tal benesse se deve à sua excelente prestação como operador.

Ou a ir ser despachado em breve porque é um bocado baldas, por protestar de tudo e mais alguma coisa, por levantar a voz aos colegas e aos segurados, por vezes, até ser mal educado, por quase se ter ferrado à porradinha com uns quantos colegas, no local de trabalho, com os segurados da outra linha e em frente a supervisores e por, basicamente, ser chato como a potassa.

Uma delas.

3.1 - Uma viagem até ao desconhecido.

Fala João. Acordei de madrugada com o uivar de um lobo. A tempestade parece ter acalmado durante a noite, mas o silêncio era ainda mais assu...