- “Disparou…” – com mais uns quantos impropérios à frente, que este vosso servo se abstém de exibir, sob pena de ir conhecer de mais perto as masmorras do castelo do nosso muy elegante e benfazejo rei D. Gervásio, o Alarve, o que também não seria assim tão desagradável, desde já vos digo, pois Frederico, o Belo Pedaço foi desterrado para as masmorras e este vosso amigo que vos canta e conta e tem de andar com o raio de fato com guizitos sonantes e meias de licra brilhantes bem gostaria de ir espreitar a ver o que lá se anda a passar!, foi a desesperada e quase inaudível deixa de D. Diego, el sarnento.
Aqui no reino d’El Rei D. Gervásio, o Alarve, está tudo a postos para mais um arraial.
O pormenor de ser meados de Janeiro e de nos congelarem os dedinhos dos pés dentro das meias de licra que usamos para os nossos mesteres não é impedimento para tal, tão grande e arrebatador é o entusiasmo de toda a Casa Real, Corte e outros transeuntes do Reino e arredores mais próximos, até porque o cozinheiro Lelo sabe fornecer material de alta qualidade, o que não é muito que se lhe diga, porque os dedos deste vosso servo congelam na mesma.
Ora presta-me a mim, Menestrel do Reino e figura predilecta de Sua Real Alarvidade, bem como de sua única herdeira, que se saiba, é claro, a Senhora Princesa Dona Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto, informar os alegres leitores desta demanda que esta está a modos que parada por motivos alheios aos intervenientes habituais.
Desta feita porque é exigida a sua presença numa celebração anual que se faz por aqui por volta de cinco vezes por ano, que é um Concurso de Misses, mas ao contrário, que é como quem diz, em vez de serem os moços a admirar as graças e as prendas das moças, são mais as moças que vão ajudar a doce e sensata Princesa D. Elvira, a do Remoinho étecétera étecétera e tal, a observar as graças e as prendas de vários mancebos, de modo a poder escolher o seu futuro noivo, coisa que nunca mais acontece, e que já nos começa a agastar a longanimidade, não fosse, de facto, a oportunidade que este vosso amigo têm, ele também, de espreitar as graças e as prendas de vários mancebos e ter direito a muito mais, se as Sortes o permitirem.
Ora desta feita, como é também habitual, os mancebos desfilam com atavios de Corte, com atavios de estar por casa e em ceroulas. Depois exibem os seus dotes culinários, físicos (momento que este vosso amigo aprecia deveras, uma vez que surgem… hum… vários exercícios de musculação que se prestam… hum… interessantes de realizar em casa sem grande dificuldade e sem grandes complicações para amadores…) e, sabe-se lá porquê, os dotes intelectuais, mas já todos estamos mais que habituados às exigências descabidas de sua Suave Rosa Albardeira do Campo em Flor que é a Senhora D. Elvira, a do Remoínho Espetado no Cocuruto!
Felizmente que durante estas ocasiões corre farto e grosso o rio de néctar das pipas do reino, porque são momentos que se estendem e agastam quem observa e já está farto daquilo, acabando por deixar as instalações para ir apanhar ar, ou adormecer pelos cantos, e deixando mais pormenores para observar a quem realmente tem interesse nestes assuntos, que é precisamente, a Senhora Dona Elvira, nossa Real Graça, e eu mesmo, acabando por ficar; às tantas, também a Bela Garça do nosso Reino já farta destas coisas todas e mandar os mancebos às de vilas-diego!
Por haver este ano, por acaso, um tal de Diego, jogral, Castelhano, perdido por aqui, e que veio atrás dos outros todos por achar que também estavam um bocado meio perdidos, como ele, a nossa Doce Senhora acabou por ficar mais tempo na conversa com ele, e lá achou que, apesar de ter alguma dificuldade com mapas, coisa que não abunda no nosso reino e que não faz importância nenhuma, o moço até preenchia os exigentes requisitos da sua extensa lista.
Infelizmente para todos, além D. Diego, apareceram logo a seguir, de forma inexplicável, seus primos D. Forlán, garboso capitão da Armada e que sabe ler, D. Álvaro, seminarista, porém que fica divinalmente em ceroulas, e D. Calixto, cozinheiro de primeira, apesar de trombudo como a árvore mais que centenária dos jardins do Palácio Real e lerdo como a porta de entrada do castelo, que se fecha de rompante na cara das pessoas que vão a entrar.
Logo por aqui se pode verificar que os pratos da balança ficaram equilibrados, e que a luta seria renhida.
Felizmente para todos, e como isto já se estava a estender mais que a conta e a nossa doce herdeira estava com uma destas vontadinhas de se aliviar nas suas divisões privadas, que a nova bebida de malte com espuminha branca no topo do cozinheiro Lelo correu generosa, optou pela técnica de eliminação mais eficaz que os nossos tempos de trevas conhecem: a armadilha para ursos.
O que quer dizer que todo este processo vai durar muito pouco tempo. Montamos secretamente a armadilha de ursos no meio do salão de festas, bem à vista, e esperamos a um canto que alguém passe e morda o isco. Não dura nem 5 minutos.
Como até calhou D. Diego, apesar de todas as suas qualidades, ser algo distraído e não ter reparado num gigantesco emaranhado de cordas e paus escarrapachado no meio do salão de festas, esta pioneira técnica de desempate nem chegou a durar os 5 minutos do costume, ficou tudo resolvido em menos de 1 minuto, e a nossa doce herdeira ganhou, finalmente!!!, um noivo de gabarito. Se bem que um bocado parvo, no entanto.
Ah, pronto, ficou assente que se casariam breve, e que a festa teria lugar no palácio real, e que seria uma grande alegria, especialmente para os seus reais pais, que já achavam que estava na hora de ela lhe sair das saias, para eles se reformarem condignamente e ir passear descansados.