segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Crime na noite de Solstício de Verão - Capítulo 3.

Afinal, não tinha sido a cobra, como diziam por todo o lado na aldeia, reflectiu em voz alta o Inspector Sebastião Lobo, olhando sem ver o pato de borracha que mantinha no cimo do ecrã do seu computador e que o devia ajudar a concentrar-se em momentos de crise.
Muitas vezes, o pato ignorava-o, mas hoje dizia-lhe com o olhar que não, ele não tinha razão, o caso não era assim tão simples, e ele estava a querer resolvê-lo sem querer resolver tudo o que estava pendente.
Espera, não é o pato, Sebastião! Essas coisas não existem. Como não existem velhas que andam pela aldeia a revelar aos sete ventos informações no segredo da polícia judiciária, que é como quem diz, numa voz rouca e sinistra, meio sibilada. Como é que o raio da velha consegue saber estas coisas? Não sei. Mais um mistério para o infalível Inspector Lobo, conhecido na área pelo seu faro e profissionalismo impecáveis!
O que existe é pesquisa, investigação e coordenação dos factos, e isso era o que ele ia fazer.
O relógio do fundo da sala indicava que era a hora oficial de saída, e era essa a deixa de que o Inspector precisava.
Não para ir para casa beber uma Sagres de litro pela garrafa enquanto disfrutava de um charuto cubano - sim, chegado às suas mãos de forma ilegal - e de um relaxante banho de imersão com bolhinhas azuis, alfazema e sais do Mar Morto - também chegados às suas mãos de forma ilegal. Não para ir para o bar do Tópê aviar shots de absinto e de b52’s enquanto observava atentamente o ambiente e se entretinha a espiolhar a vida dos clientes somente através da observação e interpretação dos dados.
Não para ir até ao Mucha, o café-livraria, escutar ao longe as conversas acerca de ervas, poesia e arte das suas proprietárias Beta, Guida e Mila, enquanto amassava o lombo do gato Raven e colocava os pensamentos em dia com o arengar sem nexo do Sr. Vitorino, que conseguia fazer, no entanto, com que tudo encaixasse.
O que realmente fazia alinhar os pontos perdidos na sua cabeça eram as duas horas de corrida que fazia, religiosamente, todos os dias, uma hora de manhã, antes de um banho de água fria, como quando estava nos serviços da elite secreta da Força Aérea, e outra à tarde, depois do horário de expediente, momento esse que fazia realmente render o que pesquisara durante o dia.
Hoje preparava-se para ter resultados no final dessa hora, o que queria dizer ter o caso, de uma simplicidade surpreendente, resolvido! 
Equipou-se com a sua t-shirt justa e os seus calções diminutos ali mesmo no seu cubículo e saiu para a estrada nacional, pronto para regressar com este caso resolvido.
Ponto 1: Não tinha sido a cobra. Não, não é assim que vou colocar no relatório. A senhora dona Ana Conda, perdão, Conde, não tinha nada a ver com esta história, a não ser o estar a viver em união de facto com a vítima. E o ter ido à casa dele na manhã seguinte ao incidente, do qual ela não tinha conhecimento, é claro, com dois senhores musculados, buscar alguns dos seus pertences, seus dela, e alguns da vítima. Perfeitamente lógico. Na hora do crime estaria, com estes mesmos dois senhores, suas testemunhas, no único cinema da cidade a ver o Goldeneye, que era o que estava realmente em cartaz, apesar de não terem mais nenhuma testemunha, e de nem a senhora nem os seus amigos terem guardado os bilhetes.
Aguardavam as perícias aos lixos da zona, mas era um pormenor difícil de se provar.
Ponto 2: Independentemente de a senhora ou de qualquer outra pessoa estar envolvida ou não, o facto era que o Dr. Melo se encontrava num local fora do seu habitual, a hora também fora do seu habitual, pois às sextas-feiras, a noite da ocorrência, o Dr. Melo tinha o hábito enraizado de jantar a pouco saudável opção de duas bifanas no pão, bem aviadas de mostarda, e respectivas minis Super Bock a acompanhar, no bar do Tópê, que foi precisamente quem deu o alerta, por notar a falta do seu habitué; isso e uns miúdos quaisquer a descer a colina a correr e aos gritos, mais para o lado da meia-noite, não se podia esquecer de apontar esses como suspeitos, meliantes juvenis, todos eles, muito provavelmente. Ou testemunhas essenciais. Também valia a pena apontar essa hipótese.
Ponto 3: O Tópê anda a arrastar a asa à Beta do Mucha, e ela anda também embeiçada por ele, só eles dois é que não vêm, porque o Inspector Lobo, com os seus apurados super-instintos, já juntou os pontos e esclareceu este mistério. Só faltam os envolvidos dar-se conta disso, mas talvez se possa criar uma situação para que isso aconteça, com a ajuda do Sr. Vitorino, com quem o Inspector partilha cálicezinhos de ginginha e biscoitos de aveia aos Sábados ao anoitecer no dito Mucha, uma vez que já não são rapazes dados à noitada. E o filho dos Ingleses está completamente fascinado pela Mila e não vem cá só pelo bolo de morangos com chantilly. Só eu é que vejo, enfim...
Ponto 2 outra vez, o 3 foi porque passei ao pé de uma janela com um gato preto a espiolhar a rua, muito semelhante ao do Mucha. O Dr. Melo estava em local e hora não habitual na sua rotina, tinha uma pequena bala alojada no abdómen, não mortífera, desde sexta-feira, hora provável 23 ou meia-noite, e foi encontrado na manhã seguinte a boiar, preso a uma rocha e junto à falésia da Porta do Moínho.
Foram encontrados vestígios desta ocorrência no local indicado, bem como dos jovens meliantes, vão ter muito que explicar, os pequenos criminosos!, e um pedaço de unha vermelho ainda sem data e sem dono.
Poderá ser acidente, suicídio ou, enfim, homicídio.
No entanto, a hipótese de acidente será pouco provável, pois o que aconteceu não estava dentro dos hábitos da vítima, não ocorreu dentro do percurso que ele habitualmente fazia, ou seja, teve de sair do que era o seu típico, pelo que o Inspector colocou essa opção de lado.
A hipótese de suicídio não tinha qualquer outra evidência a fortalecê-la, como uma carta escrita por si, ou uma situação de depressão continuada, ou dívidas súbitas.
Já o homicídio, precisava de suspeitos, pessoas com o meio, o motivo e a oportunidade, e aí já havia mais matéria para cogitações.
Mesmo que não tivesse sido a forma de executar o crime, havia já a confirmação de que existira uma arma. Mas onde? Se o Dr. Melo se tivesse atingido a si próprio, a arma estaria no cimo da falésia. Ou poderia ter caído com ele? Era necessário aguardar algum resultado das buscas.
E porque foi ele para aquele lugar e àquelas horas? Foi por vontade própria? Viu alguma coisa que lhe despertou a curiosidade e testemunhou o que não devia, sendo castigado por isso? Tinha um encontro combinado ali? Se assim fosse, como, e com quem?
Era neste ponto em que o Inspector se encontrava quando, no final da sua hora de corrida na beira da estrada, desceu até à rua principal dos Casais de Santa Helena para rematar com um chá gelado caseiro e, quem sabe, um quadrado de brownie ou uma fatia da tarte de maçã na Mila, no Mucha.
Quis o destino, porém que, assim que aí entrasse, trocasse olhares com o Sr. Vitorino, e percebesse que o cérebro de ambos estava na mesma frequência, o homem da lei e o homem social: já que não se conseguia ainda saber a verdade, haveria então motivo para alguém limpar o sebo ao Dr. Melo? E, se sim, quem e porquê?
A expressão séria do Sr. Vitorino deu ao faro do Inspector Sebastião Lobo uma certeza: ele e o Sr. Vitorino seriam parceiros na busca e partilha de tudo o que pudesse levar à descoberta do que realmente acontecera naquela noite!



sexta-feira, 5 de julho de 2019

O Crime na noite de Solstício de Verão - Capítulo 2.

A Santa tudo sabia, tudo adivinhava. Era a crença mais vincada do povo dos Casais a que a Santa dera o nome, há 500 anos atrás, quando um frade atrevido que andava a tentar espreitar os seios das sereias atrás das rochas, na ilha, a encontrara num nicho meio enterrado na areia, na maré baixa. Frei Tomé esqueceu as sereias, e nunca descobriu que eram mulheres verdadeiras e não sereias, de tão cativado ficou da figura que encontrou, uma estatueta pequena e descorada, com lapas agarradas ao manto azul, mais duas na bochecha, e outra no nariz, não pela beleza da imagem, mas precisamente por constatar que era a Santa mais feia que alguma vez vira, Deus nosso senhor o perdoasse!, com o ar mais enfadado que era possível dar a uma senhora, ainda mais Santa, a criatura que a fizera devia estar nesse momento a arder nas fornalhas do Inferno, ou inspirara-se na imagem da mãe de Frei Tomé, que realmente conseguia apreceber-se das semelhanças.
Agachando-se na rocha e esgravatando com as mãos, conseguiu retirar a imagem com alguma facilidade, recordando subitamente os manuscritos que lera no Convento acerca de uma Santa Helena, que se perdera no mar com a subida da maré, com o desgosto das obras dos Homens e que, de acordo com a lenda, as águas baixariam e a Santa voltaria para os abençoar quando os achasse merecedores disso, manifestando a vontande de que se deveria erigir uma pequena capela nesse lugar, em sua homenagem.
Frei Tomé estava atordoado com toda a iluminação com que fora tocado nessa noite e, ganhando forças sobrenaturais, levantou a Santa aos céus, rezando uma prece inspirada pelo momento, que terá afastado as sereias pagãs para todo o sempre, porque se tornaram lenda e nunca mais delas se ouviu falar naquela praia!
Ignorando as explicações lógicas para o que andava um frade a fazer a altas horas da noite atrás das rochas da praia, na pequena ilha que já nesses dias tinha o nome de Ninho das Gaivotas, na maré baixa, que era a única forma de lá se chegar na época, e acreditado na inspiração das visões dos santos e dos anjos, entretanto um pouco mais enfeitadas pelo entusiamado frade, figura habitualmente sossegada, que se entretinha no Convento, essencialmente, com cálculos de subidas e descidas de marés e teorias de que ou a ilha se estava a levantar ou o nível das águas estava a baixar, o que fazia com que tivesse mais por companhia os seus cadernos e menos os seus companheiros, as gentes das casas à beira-mar alegraram-se com a chegada de Santa e logo ali erigiram a primeira pedra da capela e se nomearam habitantes dos Casais de Santa Helena, pasmados, como Frei Tomé, com o ar amuado da imagem bendita.
Com o tempo, a capela foi construída para abrigar a Santa, os altares enfeitaram-se de flores simples oferecidas com sinceridade por almas humildes, e um agricultor agradeceu à Santa as boas colheitas e os filhos saudáveis com a oferta de um sino, que é o que ainda hoje toca na aldeia, enquanto os descendentes do lavrador a continuam a povoar a terra aqui e ali, sempre saudáveis, se calhar não tanto por influência da Santa, mas por não terem o hábito de casar com primos direitos.
O pequeno nicho onde foi encontrada, na beira da ilha, foi enfeitado de seixos e de conchas, e é onde ainda hoje se deixam os agradecimentos mais íntimos e sinceros, apesar de conter apenas velas e flores simples.
A praia ganhou o seu nome, embora essa referência venha apenas nos guias turísticos e na lista telefónica, porque para os locais e conhecedores ganhou a carinhosa designação de “Praia da Amuada”, em homenagem à sua pouca graça característica, com a qual as pessoas não se importam, porque sabem que tem um coração grande e que dá muitas graças, e porque toda a gente tem uma tia com uma cara daquelas E ainda com bigode!
Ezio, o Grego, gostava da história da Santa, que contava aos visitantes do seu restaurante à beira da Praia da Amuada.
Enfim, uma história bem diferente da sua, que se encontrava apenas a contemplar um horizonte tão desconhecido, tão distinto do da ilha onde nascera e vivera até ser homem mas que nunca lhe preenchera o vazio da alma como este o fazia e, misteriosamente, a imagem da sua Adelaide surgiu das águas qual ninfa que ele nunca havia visto no seu mar.
Se a imagem de deusa do Olimpo cativou este singelo grego com feições de águia, a sua voz de Amália Rodrigues de garagem, a sua doçura de carácter e uma honesta admiração pelos seus cozinhados diferentes e exóticos ao seu paladar fizeram com que se sentisse em casa e chamasse de lar aos Casais de Santa Helena, abrindo um restaurante de comida típica grega, que era o que sabia fazer melhor, isso e escutar as pessoas, o Il Grieco, com o poster do Parthénon numa das paredes e imagens de pratos convidativos com nomes apelativos como Taramosalata, Suvlakia, Baklavas ou Karidópita, e partilhando a existência nestes últimos 30 anos com uma cadelinha minúscula de nome Andorinha.
Na verdade, a Andorinha não durava há 30 anos, nenhum canídeo o consegue fazer, mas a adoração que o Sr. Ezio e a D. Adelaide tiveram pela sua primeira Andorinha, fazem com que a substituam por uma mini-cadela semelhante cada vez que a sua antecessora desencarna. E dão o mesmo nome. É algo confuso para as pessoas normais compreenderem, mas eles são felizes assim, como foram as 8 Andorinhas que privaram com eles.
O Sr. Ezio, desta vez acompanhado apenas da Andorinha, admirava a manhã fresca e as maravilhosas cores de um dia de Verão sobre a ilha e a linha do mar, das quais nunca se cansava.
Mais abaixo, uma das meninas do café-livraria caminhava num passo tranquilo, com o seu caderno de desenhos debaixo do braço, como ele a admirar a formosura da paisagem com a sua sensibilidade artística e a escolher com que cores da sua paleta de aguarelas iria pintar aquela imagem, e sob que plano.
Passava agora junto ao velho nicho da Santa, onde parou para acender uma vela que se apagara numa outra que estava acesa, para que a Santa visse as graças pedidas e os agradecimentos do povo que a adorava.
Porque a Santa tudo sabia, a Santa tudo adivinhava.
Assim o dizia o Padre Cândido, que vinha celebrar a missa semanal na capela.
Assim o dizia a velha Lúcia, que já era velha quando Ezio chegara, de caracóis negros, em vez dos cinzentos que lhe cobriam agora a cabeça, velha e sábia, que falava como as sibilas da sua aldeia, as do pequeno templo no cume do monte, não mais que um minúsculo casebre com uma fonte dentro cuja frescura lhes sabia aos céus comparada com exterior quente e abafado, as mulheres que viviam nas grutas e queimavam folhas de louro e de salva para adivinhar o futuro, o passado e o presente.
Ezio pensava se alguma vez ela tinha sido nova, mas sabia que sim, havia uma mesinha na sua casa com fotografias de uma jovem morena de cabelos longos e grossos e formas de sereia como as que o Frade antigo descrevera, rodeada de jovens com olhares admiradores, mais atrás, e depois só de um jovem, o que tinha o olhar mais sério e fixo, numa foto em que ela era uma noiva de branco, e depois outras, com um bebé roliço, e depois uma menina com os mesmos olhos, o mesmo sorriso e o mesmo cabelo farto, que ele sabia ser a sua filha Isabela.
Sim, ela tinha sido nova, e muito bela, e muito amada também, ainda o era, a filha e os netos estimavam-na amorosamente, ele via, mas acreditava que a sabedoria de sibila já a trazia de outras vidas, achava ele, que tinha essa crença, e se a velhota dissera que tinha sido aquela mulher dos gritos, e a Santa também, quem era este Inspector Sebastião Lobo para dizer que não, que o Doutor Melo tinha tirado a sua vida, ou que tinha sofrido um acidente, que tinham encontrado uma bala, mas de um tamanho insignificante e num lugar onde não causara danos mortais, parecia tratar-se apenas do descuido da própria pessoa a manusear a arma, porque a senhora, chorosa, lhe tinha dito que não, que nessa noite tinha ido ao cinema com uns amigos, até tinha ali o bilhete enfiado na enorme mala de marca, e nunca tinha visto pistola nenhuma, que ideia, nem sabia nada disso, e estava o caso arrumado.
Aborrecido por os seus pensamentos terem fugido para esse assunto desagradável, Ezio levantou-se repentinamente, assustando a pequena Andorinha, que soltou um latido de protesto perante tal desrespeito, e avançou até ao mar, para molhar os pés na água salgada, que diziam na terra dele, e aqui também, que a água salgada limpava o espírito, e ele queria era limpar os pés, os pensamentos e que este Inspector Lobo fosse às de Vila Diogo, que tinha vindo para aqui para criar a desarmonia entre irmãos e deixar fugir a passarola grande! Acalma-te, Ezio, acalma-te, olha que depois treme-te a mão para o Pastitsio!



sábado, 29 de junho de 2019

O Crime na noite de Solstício de Verão - Capítulo 1.


D. Aldegundes sabia que algo estranho se passava. Chamem-lhe sabedoria, instinto, experiência de vida, sinais do Universo, mensagens do Anjo da Guarda ou de algum antepassado do Além, o que seja.
Percebeu isso ainda antes de acordar quando estava naquele sono da madrugada, já não tão profundo, mas um pouco antes do despertar, o que nos revela segredos ocultos e destinos incertos, como tinha visto no outro dia no programa do Sr. Goucha, que homem tão sábio, tão masculino, com aquele fato, que bigode tão excitante, que calores que lhe davam ao peito, só de pensar nele já ficava com palpitações, pobre do seu Abílio, Deus o tenha, se soubesse!
Enfim, esse sonho trouxe uma recordação, uma noite de Solstício há muitos anos atrás, ainda era ela uma menina de 17 anos, que ela não era velha mas, enfim, os cabelos brancos… com a permanente da moda, claro!, as fogueiras acesas na beira da praia, junto à azenha, numa noite de lua cheia, limpa, mas a que uma suave brisa trazia a ameaça da tempestade para a madrugada, e lá estavam eles, tão inocentes, tão descontraídos, tão felizes, mesmo antes da tempestade desabar sobre eles, como a que acontecera nessa madrugada e que destruíra parte do moínho do moleiro: o Vitorino, calado e pensativo, como toda a vida o fora, até ao dia 12 de Abril de 1976, quando passou a ser a pessoa mais colorida e palradora da terra, a Isabela, filha da Lúcia, com um vestido que parecia uma camisa de noite, os cabelos soltos e o ar do outro mundo que elas costumavam ter, o Eduardo (agora Dr. Melo, mas antes apenas um rapaz sorridente confiante de que ia conquistar o mundo), ele e a Mina, abraçados, a trocar segredos de futuro, o Cândido e a Prudência, que só tinham olhos um para o outro, ela e o António, o seu namorico da altura, filho do Esteves da antiga barbearia.
No dia seguinte, tudo iria mudar para alguns deles: o Eduardo ia para a casa dos tios em Braga, para conhecer a rapariga com quem o queriam casar, e que foi a esposa dele durante toda uma vida, 40 anos sempre tão amigos, para depois ele a despachar por uma galdéria oxigenada de 30 anos com umas mamas do tamanho de melancias, Jasus! Nossa Senhora! pobre Luisinha, tão bem posta, aceitou sem se queixar, bem vistas as coisas, ficava com a casinha dela, e tinha o dinheirinho dela, os meninos já todos encaminhados na vida, sempre era menos uma preocupação e camisas para passar, agora aproveitava para dar uns passeios, de onde é que ela lhe tinha mandado o postal? ah, da Polinésia, pois, coitadinha, realmente, e a Mina apareceu com uma menina uns tempos depois, coisa mais linda, também, coitada, o rapaz foi lá para a França e caiu de um andaime antes da menina nascer, e ela ficou assim, sempre viúva, era só ver o amor daquela mãe por aquela filha e vice-versa, e o Cândido foi para o Seminário, um rapaz que era a loucura das meninas da terra, tão jeitoso, tão bem falante, uns beijos que as deixavam com a cabeça a andar à roda, enfim, ela era nova, o que é que se pode fazer, e a Prudência ficou tão desconsolada, nunca mais arranjou rapaz, dizia que, se a única vez em que ia estar no altar fosse para o ver do outro lado, e não ao lado dela, isso era coisa para a qual ela não tinha forças, mas isso só elas duas sabiam, que a Prudência, mais forte que um touro, se aguentara à afronta como se não fosse nada com ela, se ele queria ver Deus num livro e não nos braços de uma mulher, era lá com ele, e bem parvo era, e dos beijos atrás da azenha nas Festas de Santa Helena, nunca a Prudência soube e assim era melhor, e na manhã seguinte aparecera o Abílio, que era primo do António, que vinha para aprender o ofício na barbearia, um bigodinho a despontar, ela sempre tinha sido muito fraca com os bigodes, e nunca mais o António lhe passou pela cabeça, mas ele não se ficou pelos ajustes e casou logo com outra prima e tiveram uns meninos que por acaso até eram parecidos com o vizinho deles, só a Doce Inês é que lhe fazia o coração mole, ficara com a barbearia do pai e fizera daquilo uma coisa bonita, um cabeleireiro cheio de cores e brilhos, e nisto o fogo levanta-se, atrás do Eduardo, e ela olha para aí, ele olha-a nos olhos, sorri e diz “não te esqueças de mim”, e depois voltou a imagem do Sr. Goucha e a D. Aldegundes perdeu-se no sonho outra vez.
Depois, o resto da manhã ficou estranha.
O estore do quarto ficou preso, a torrada ficou presa na torradeira, o salto da sandália ficou preso num buraco da calçada, até a máquina do café da livraria não dava nada a ninguém porque tinha qualquer coisa presa, e a chave da sua lojinha de revistas, romances Harlequím, toalhas, chapéus, baldes e pázinhas e todos os acessórios para a praia, ficou presa, teve de lhe dar dois puxões e outros tantos palavrões e lá despencou.
Foi então que ouviu as sirenes atrás de si e percebeu o que o Destino lhe estava a dizer: algo estranho se passava.
Curiosamente, em vez de correr atrás das sirenes, D. Aldegundes respirou fundo, sorriu, rodou a segunda volta da chave com toda a facilidade e entrou na sua banca, com a segurança de quem não precisava de correr atrás das novidades: elas vinham ter com ela.
Porque aqui, nos Casais de Santa Helena, uma pacata aldeia à beira do mar, com a sua respectiva ilha, com uma capela de 500 anos com uma santa encontrada na maré vazia, meia dúzia de lojas, uma dúzia e meia de casas ocupadas durante todo o ano e muitas mais dúzias durante o Verão, só há um lugar onde tudo vem parar, como a corrente que trouxe a Santa à terra, de onde saem todas as novidades, todas as alterações de vida ou de estatuto, o “Diabo” em primeira mão, e é a loja da D. Aldegundes, aqui nascida e criada, que conhece toda a gente e toda a gente a conhece e aqui vem, mesmo que sejam os miúdos  no Verão, para comprar Super Gorilas e levar dois balões no bolso.
Tranquilamente, D. Aldegundes prendeu a porta, acendeu a luz, abriu as cortinas, ajeitou os totolotos, sentou-se e esperou, com a revista Genoveva nas mãos, que podia estar à espera, mas não era uma pessoa ociosa e aproveitava estas ocasiões para se encher de conhecimentos através da sua leitura assídua.
Não teve de esperar muito tempo.
Antes de se terminar de ouvir o som das sirenes ao fundo, para os lados da Porta do Moínho, já ela tinha a casa cheia. Era só um bando de adolescentes, uma meia dúzia, não, deixa ver, e o pequenito da Lúcia, são sete, não se sabe como, mas cabe aqui um número improvável de pessoas, mesmo assim, e este adivinhava-se já um dia promissor, ainda só eram 9 horas e já estava a casa cheia, todos a falar ao mesmo tempo, era um a dizer que tinham acordado a maldição do Moleiro à meia-noite, outro a dizer que a bisavó andava já nas ruas a dar bengaladas nas canelas dos incautos e a grunhir “Foi ela, foi a cobra!”, um ainda jurava que tinha visto um demónio na labareda da fogueira, isto não estava a entrar bem na cabeça da D. Aldegundes, porque águelas horas fazia-os a todos em casa já no terceiro sono, não compreendia esta juventude de agora, e com aquela comoção, mais gente se sentiu atraída para a pequena loja de onde nasciam todas as cascatas de informação naquela terra.
Entra então alvoroçada a Doce Inês, com a notícia fresca, ainda a escaldar, como o pão acabado de sair do forno: “Foi alguém que se atirou da Porta do Moleiro!”; logo a seguir, viu-se a cabeça invulgarmente loira da Mariska, do alto dos seus 1,93 cms, a destacar-se das restantes cabeças dentro da loja, “Foi o Dr. Melo, caiu lá de cima!” afirmou, com o seu sotaque de leste ainda evidente. Como ela já tinha acesso a essa informação, era em si um mistério, mas talvez fosse facilmente explicado pelo comprimento das suas pernas e pelo seu apurado treino militar.
“Ou foi empurrado…” ouviu-se num murmúrio, sem se perceber muito bem se nascera do chão, se viera da porta ou se era o reflexo do pensamento das pessoas que se iam juntando: o Grego e a esposa, a Dona Adelaide, do restaurante mais abaixo, a Menina Mei e a Gelzi do Grande Bazar, que se juntavam agora à sua colega Mariska, todas de braço dado, encolhidas umas contra as outras, quais harpias a adivinhar desgraça, a Dona Prudência e o Sr. Vitorino, a Guida do café da livraria com o gato a espreitar desinteressado no colo dela, e a Mina da Frutaria, o inglês, que vinha dar uma caminhada com o seu filho mais novo, a rapariga gótica da loja de artesanato, até o Tópê do bar, habitualmente a hibernar a estas horas, depois da rambóia da noite anterior.
D. Aldegundes fixou-os em silêncio, observando-os com o seu olhar atento e perspicaz.
A audiência olhava para ela, à espera de uma resposta, de uma instrução, de uma solução.
Era sabido por toda a aldeia que o Dr. Melo não se dava com a esposa, andava por aí com ela a gritar em plena rua por tudo e por nada, e ele com a calma de quem já aceitou que não pode mudar o destino.
O que andaria ele a fazer por aqueles lados e áquela hora? Ou tinha ideias nefastas em mente, e tinha feito o que já tanta gente desesperada tinha feito, ou tinha sido apanhado em alguma armadilha, mas lá por se dar mal com a rapariga, não queria dizer que ela tinha cabeça para o atirar dali abaixo, havia de ser qualquer coisa mais complicada.
A primeira mulher, não, que estava no estrangeiro e sempre fora um anjo, um doce de menina mas, enfim, os desejos de vingança calham a qualquer um. Seria algum paciente ou familiar insatisfeiro? Ou alguma negociata de que nada se sabia?
Às vezes, as vidas das pessoas parecem tão simples, então aqui na aldeia, que a descoberta da existência de uma vida dupla e oculta causa a maior das surpresas.
Era nisto que a D. Aldegundes pensava quando conseguiu ainda encaixar-se na loja o Padre Cândido a correr e aos saltos, que coisa tão rara, a gritar “Foi a Anaconda, prenderam a mulher, já estava a vasculhar a casa dele com dois capangas! Prenderam agora a Ana Conda! A Santa adivinhou!”
O seu nome não era esse, era Ana Sónia Conde, e apelidava-se sempre pelo segundo nome, embora as pessoas tivessem a tendência para o uso do primeiro e, eventualmente, ao descobrirem um pouco mais a sua personalidade, para usar o nome porque se tornara conhecida, Ana Conda…
Nisto, o Padre dá mais um salto, uiva, e compreende-se finalmente o porquê deste comportamento absurdo: atrás dele estava Lúcia, uma velhinha enigmática e raquítica, vestida de preto, o lenço também preto a cobrir-lhe o cabelo completamente alvo preso numa trança enrolada num puxo, mulher de grandes mistérios, bisavó do Tópê e do Bruno, que diz na sua voz rouca de oráculo “Foi ela, foi a cobra!”.



quinta-feira, 20 de junho de 2019

O Crime na noite de Solstício de Verão.

Prólogo.

A noite era perfeita. A lua cheia brilhava num céu limpo, o aroma das ervas silvestres apanhadas recentemente nos campos era mais intenso com a noite, depois de um dia de calor pesado. O cheiro das fogueiras do solstício subia pela brisa quente que se levantara ao pôr-do-sol, arrastando pesadas nuvens ao longe, numa ameaça de tempestade para as horas densas da madrugada.
Uma noite perfeita para mistérios, bruxaria improvisada e aparições fantasmagóricas, assim o pensava um grupo de adolescentes que se dirigia, de forma meio séria, meio de brincadeira e com umas pitadas da irreverência típica, ao cimo da falésia, sob a inspiradora lua cheia, perto da meia-noite, para chamar do além o espírito do moleiro, na sua noite, para fazer justiça aos vivos ou, pelo menos, para ver se os rituais do livro de feitiços da tia-avó da Teresinha e avó do Bruno resultavam.
Apenas alguns corajosos se aventuraram: a Teresinha, a Mónica, a Marta, o Miguel, o Filipe, o Bruno, colegas do liceu, na cidade, e a Patrícia, irmã mais nova do Filipe. Sete, o número mágico requerido. Havia velas, coroas com flores da época, bolos de mel, pentagramas, capas escuras, unhas pintadas de preto, um isqueiro e um maço de tabaco roubados ao pai e, sabe-se lá porquê, um livro do Paulo Coelho numa mala de pano a tiracolo com padrão de gatinhos.
Dizia a lenda que, na noite de Lua Cheia do Solstício de Verão, à meia-noite, o moleiro havia saído do seu moínho e caído na falésia poucos metros à frente. O corpo nunca fora encontrado, preso nas rochas lá em baixo, ou arrastado pela corrente para o fundo. A alma, dizia-se, estava perdida, à procura do corpo que não vira desaparecer e que, em noites destas, se evocada da forma certa por alguém intrépido o suficiente para sair da aldeia, subir a colina até à ruína da Porta do Moinho à beira da falésia, aparecia a revelar mistérios e a desafiar a coragem do atrevido.
A lenda não dizia que havia de ser com as ervas mágicas do livro, nem com as velas das cores do Solstício acesas num pentagrama desenhado na areia sobre o qual um grupo de adolescentes formava um círculo, de mãos dadas, a trocar olhares de uma maturidade pouco habitual e com algumas risadinhas pelo meio, mas o livro dizia, e era por aí que eles se guiavam.
A brisa levantou um pouco mais, e depois com mais intensidade, de forma repentina, alvoroçou as capas e os cabelos e apagou todas as velas excepto uma, a do centro, como que arrastando as chamas para a balaustrada de pedra à beira da falésia.
Da Casa da Bruxa, no outro lado da estrada, ouviu-se o gemido do vento a passar nas telhas, como se o buraco não tivesse sido arranjado há mais de cinco anos, e um silvo súbito atrás deles quebrou a vibração do vento, sobressaltando os jovens.
Da direcção da falésia, um vulto negro e alto gemia e cambaleava à luz da lua cheia.
Fosse verdade ou não, ninguém quis saber se o espírito do moleiro havia sido libertado para vir fazer justiça pelas suas mãos sedentas, e bastou um olhar trocado entre os amigos para decidir que a opção mais acertada seria correr pela colina abaixo a toda a velocidade, em direcção a porto seguro, uma risada medonha a soar atrás deles enquanto corriam pelas suas vidas e pelas suas almas.
A chuva forte que caiu na madrugada limpou quase todos os vestígios do ritual, e deixou a descoberto o corpo do Dr. Melo lá em baixo, preso entre duas rochas, as pernas a mover-se com a ondulação, o olhar espantado de quem não esperava receber a morte nos braços nessa noite.

“Liberdade”, uma voz dizia baixinho para o vento, ao bater a meia-noite na capelinha lá em baixo na aldeia, no momento em que a decisão que tomara se tornava na única opção.
“Finalmente liberdade!”, sussurrava ao mar enquanto via a decepção no olhar em frente a si e o corpo a cambalear com a surpresa e a dor da pequena bala no abdómen, suficientemente perto da falésia para se desequilibrar e cair no abismo da escuridão.
“Será mesmo a liberdade?”, uma semente de dúvida instalou-se no fundo da mente de quem empunhava a arma diminuta com um silenciador encaixado; talvez a bala tenha sido desnecessária, uma queda acidental ou duvidosa não iria gerar questões.
Um sorriso acalmou o coração. As questões que a bala iria despertar eram perfeitas para o plano resultar.
A gargalhada presa na garganta pela tensão do momento libertou-se na brisa que corria mais rápida, voando atrás dos calcanhares dos jovens, um dos quais corajoso o suficiente para virar a cabeça e olhar o espírito desafiador dono de uma risada que lhe soava familiar.



quarta-feira, 15 de maio de 2019

A Devoradora de Corações - Epílogo.


Celestes

A Irmã Generosa, pelas mãos de Leonor, acrescentou mais um parágrafo no caderno onde apontava as suas receitas e as suas notas, deitando um olho ao tacho de cobre onde a fruta se tornava numa papa doce e borbulhante, enquanto se recordava da sequência dos acontecimentos dos últimos dias.
O encerrar do convento antigo, entre comoção e saudade, a mudança para o lugar novo, com mais ou menos entusiasmo, independentemente das idades, com a estranha doença da pequena Maria dos Anjos que se arrastou por estes dias e, finalmente, na noite passada, a assustadora e tremenda tempestade e a destruição completa do muro do claustro sul pela subida das águas do ribeiro, de repente tão violentas e incontroláveis, que arrastou com ele o claustro onde se passeavam tranquilamente em dias de sol e de chuva e de todo o edifício onde antes dormiam as irmãs, que inevitavelmente teriam ficado sem vida debaixo dos escombros, em vez de estar a despertar numa manhã de sol luminosa em camas igualmente frescas e lavadas, um pouco mais acima na colina, de onde podiam ver o pinhal mais ao fundo e as clareiras de malmequeres.
Era um pouco mais complicado fazer as coisas, agora, mas seria uma questão de tempo até se habituarem, uma e outra: a Irmã Generosa a ver as suas mãos nas mãos de Leonor, a treinar os gestos antes tão habituais, a partilhar os seus pensamentos, a ter à sua volta a calma sempre presente do olhar de Henrique, a aproximar-se suavemente quando a percebia mais focada e absorta nos seus afazeres na cozinha.
Não podia ter pedido aos céus um presente melhor do que a Irmã Piedade para continuar o seu trabalho na cozinha. A ela deixara o seu caderno de cozinha, e a todas as mestras da cozinha do convento que se seguissem, o que arreliara um pouco a Imaculada, ela vira, lá do tecto da capela, onde velara o próprio velório, mas Imaculada ficara apaziguada ao receber um caderno só das duas, construído com amor durante todos estes anos, sem que ninguém o soubesse, nem a alma mais igual à sua, a sua marca única, as receitas e as ervas, Generosa e Imaculada, como sempre haviam sido uma com a outra, sem segredos, irmãs de hábito e de coração.
A marmelada estaria em breve pronta, a segunda receita na cozinha nova do novo convento, uma receita para apaziguar o espírito e o corpo.
Agora era Leonor quem fechava o caderno e respirava fundo, sentindo o espírito de Generosa a afastar-se e a tornar-se mais ténue, indo, quem sabe, na direcção do horto, desta vez. Leonor sorriu a este pensamento.
Ocorreu-lhe que a anterior cozinheira iria detestar o aspecto impessoal e impecável daquela cozinha acabada de estrear.
Não a limpeza em si; a cozinha de Generosa sempre fora limpa e organizada, mas a esta faltava o toque de uso e personalidade de que ela gostava, as colheres de madeira vindas do seu enxoval, a travessa oferecida pelo próprio rei para servir o manjar real em dia de festa, o tacho de barro com a asa partida que tinha sobrevivido assim quase inteiro a uma brincadeira na ceia de Natal há tantos anos atrás.
Sim, a vida aqui estava renovada, como renascida, assim como o convento.
Leonor precisou destas paredes novas para perceber que há coisas boas que vêm com a mudança, com o fim de outras coisas.
É necessário guardar algumas, mas também é preciso largar a mão de outras e de as deixar voar em direcção ao nosso passado.
Colocou um pouco da sua canja de galinha acabada de fazer numa gamela de barro, com a colher de madeira de nogueira que viera no enxoval de Generosa há muito tempo atrás.
Com o carinho com que sempre o fizera, retirou duas folhas de hortelã do molho fresco que Imaculada lhe trouxera para a ocasião.
Pensou na hortelã, símbolo das coisas passadas, pois Imaculada havia caminhado até ao convento antigo para a ir apanhar, símbolo da sua união, porque todas quiseram dar um pouco de si para a recuperação da sua pequena doente.
Pensou no seu amor perdido e agradeceu ter tido a oportunidade de cozinhar para ele, de cozinhar este prato, simples que era, e o seu preferido, e esse pensamento trazia-lhe um sorriso aos lábios e calor ao coração.
Mas, agora, o seu coração estava virado para as surpresas do futuro, e a sua canja era agora um caldo de vida, com um toque do passado, servido entre rosas e bordados de pássaros a uma criança que também acordara de um violento tormento renascida para a vida num lugar novo, depois de uma noite de tempestade e destruição que teria reclamado a vida de todas se tivessem ficado no convento antigo mais um dia.
Apenas uma delas decidira obstinadamente não acordar no novo convento, apesar de se ter deitado na sua cama nova, na sua cela nova, onde tivera de admitir que gostava bastante da vista da janela, e depois de se ter despedido tranquilamente de todas as companheiras, mas cujo espírito, Leonor sabia, se iria manter junto delas durante uns tempos.
Tinha sido a união de todas elas que as salvara, e o amor que sentiam umas pelas outras não poderia nunca mais ser derrubado.




quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Devoradora de Corações - 6

Aletria Doce

A minha companheira de cela, aqui, é a Irmã Maria da Luz. Luz no nome, escuridão no fundo da alma, eu sei, apesar de ela ter esse segredo guardado bem no fundo do coração.
Ela teve uma vida fora daqui, há muito tempo atrás. Teve um marido, que a estimava, mas que desistiu dela. Teve uma filha, um bebé lindo, as mãos pequeninas, o rosto perfeito, mas que nunca abriu os olhos. Era uma menina e, se tivesse nascido viva, teria por agora a mesma idade que eu. Creio ser esse o motivo que a faz olhar para mim pensativamente. Será que a sua filha teria cabelos castanhos como os seus? Seriam lisos? E os olhos? Seriam risonhos? Teria sido uma rapariga feliz? 
Não foi ela quem mo contou, nem nenhuma das outras irmãs, que ninguém conhece o seu segredo, mas um dos anjos que guarda este convento.
Ele diz-me que não tenha medo, que nos acompanha até ao convento novo, e que vai continuar connosco, e será como se não tivesse havido mudança nenhuma.
Diz-me que quase morro, mas que o amor que esta minha irmã me tem é amor de mãe, porque eu sou a sua filha perdida e ela é a minha mãe perdida, e que é o nosso reencontro que nos salva às duas.
E eu acredito nele, que nunca me mentiu.
Eu tive uma mãe, mas não era mãe, apenas me colocou no mundo.
E tive uma avó, que me dava colo e carinho, mas não foi por muito tempo.
Eu não me lembro, porque era muito pequena, mas guardo a sensação do seu colo.
Foi o anjo que me contou, e eu recordei-me.
Quando era quase um bebé, devia ter uns três anos, gostava de brincar na pequena floresta que me parecia o nosso jardim. Escondia-me entre os arbustos e procurava fadas. Conversava com pássaros e coelhos. Muitas vezes, fugia do quarto onde estava com a ama e vinha procurar os meus amigos.
Num desses passeios, fui dar à capela, onde estava uma caixa grande, com uma pessoa lá dentro deitada, sem se mexer.
Vi o lenço da avó e chamei por ela. Como não me respondeu, cheguei-me mais perto. Estiquei-me, porque era baixa, e consegui tocar-lhe na cara. Era a avó, mas estava tão fria e quieta, quando habitualmente era quente, que tive medo e assustei-me. Chamei por ela, mas não me respondeu, nem sequer se mexeu. Gritei mais alto, puxei-lhe pelo braço, desequilibrei-me, mas a avó não me segurou, antes caiu em cima de mim, soltou-se a fita que tinha na cara e abriu uma boca com uma língua que me meteu medo.
Urinei a roupa que a mamã tinha escolhido e fugi para longe, para tão longe, não para a minha árvore preferida, porque a avó sabia qual era, mas para uma mais distante. Tapei a cara e não quis ver nada, mas quando fechava os olhos só via a boca aberta e a língua de fora, como que a tentar comer-me.
Só me encontraram de noite, ninguém soube o que aconteceu, fiquei doente durante muitos dias, tive febres e pesadelos e chorava e gritava durante o sono, como faço agora mas, um dia, acordei, e não me lembrei de nada.
Foi a partir desse dia que comecei a ver anjos e eles começaram a falar comigo.
Os meus papás ficaram muito aflitos comigo e, um dia, trouxeram-me para este lugar.
Eu gostei, porque era tranquilo, e as minhas febres e prostrações deixaram de ser tão fortes, e passaram a acontecer muito poucas vezes. Já não passava dias de cama, com delírios e suores, e os anjos já não pediam tantas vezes que não comesse as minhas refeições, porque neste lugar, a comida é de Deus e não me pode fazer mal à alma.
Gostei porque encontrei a minha mãe perdida e ela me deu o amor que me salvou, mesmo agora que estou numa cama de olhos fechados e sem se perceber que respiro, eu sei que ela está do meu lado, que me segura e beija as mãos, e que fala junto do meu ouvido as coisas que fazem no convento, que a Irmã Piedade está a fazer uma canja que me vai saber aos céus, que a Irmã Imaculada foi buscar as rosas de que eu gosto ao jardim do convento antigo, que a Irmã Maria do Céu está a bordar uma colcha com pássaros para a minha cama, que a Irmã Áurea pintou de branco a minha cadeira e que lhe desenhou pequenas rosas, que a Irmã Generosa já não está entre nós mas que morreu em paz e sem sofrimento, mas isso já eu sei, porque o anjo me contou.
Gostei porque não sabia o que era o amor de uma mãe, mas agora que sei já não quero deixar este mundo, e o anjo diz-me “dá-me a mão e caminha, que eu levo-te à tua mãe”, e eu dou-lhe a mão e caminho com ele, porque nunca me mentiu, e quando acordo tenho um sorriso nos lábios porque estou nos braços da minha mãe.



terça-feira, 23 de abril de 2019

A Devoradora de Corações - 5.


Bocas de dama.


Uma hipótese seria fugir do convento. Era tão fácil, para mim, que já fugi tantas vezes.
Dos lugares, das pessoas, das decisões.
Sim, seria fácil demais, e não é isso que quero agora.
Bastaria um olhar, e Samuel teria coragem de atravessar o que restava do muro meio destruído.
Qualquer aproximação maior que esta era perigosa, e isso já eu o sabia.
Muitos anos de corações despedaçados ensinaram-me que não há melhor companheiro para uma pessoa como eu do que a solidão.
Houve uma altura, por breves momentos, em que julguei que fosse possível buscar companhia, um parceiro, um cúmplice, mas a culpa era algo que exigia demasiada energia, e acabei por desistir da ideia.
Finalmente, encontrei o lugar perfeito, e julgava-me, quem sabe, salva dos meus próprios demónios; mas não, penso que isso não seja possível, pois até aqui, neste sítio que escolhi, neste refúgio para o alvoroço do meu coração, eles me perseguem e encontram, e continuo a esforçar-me por olhar nos olhos e ver as almas das pessoas, mas o que vejo, única e apenas, são os seus corações palpitantes de dramas e de anseios, e a minha cada vez mais descontrolada voracidade.
Percebam que eu não estou aqui por vocação. Quase nenhuma de nós está, na verdade, com pecados mais pesados, ou mais leves, estamos aqui devido à nossa singela condição de mulher.
Algumas como que encarceradas em vida, com desejos, vontades e opiniões que não se encaixam na sociedade onde vivemos e que são tidos como escandalosos, mas a maioria de nós refugiadas dessas lutas onde nunca a vitória é nossa, resguardadas dos homens, dos medos, dos pecados.
Da vida.
Mas, desta vez, só desta vez, decido não fugir.
A pequenina está doente e, tenho de o admitir, toca-me ao coração. A mim, que não o tenho. Não posso abandonar as minhas irmãs, nem por causa de um par de olhos que promete saciar toda a fome que trago neste buraco do peito.
        Não o quero. 
Deixo-me antes devorar pelo meu coração, em vez que procurar devorar outros.
Por uma vez, há que admitir a derrota.
E é tão libertadora!