Saturday, July 10, 2010

CAPÍTULO 10 – A BELEZA É O QUE SEDUZ, MAS É A PERSONALIDADE QUE CONQUISTA

- “Disparou…” – foi a singela prédica da doce porém vigorosa herdeira do nosso Reino.

- “Disparou…” – com mais uns quantos impropérios à frente, que este vosso servo se abstém de exibir, sob pena de ir conhecer de mais perto as masmorras do castelo do nosso muy elegante e benfazejo rei D. Gervásio, o Alarve, o que também não seria assim tão desagradável, desde já vos digo, pois Frederico, o Belo Pedaço foi desterrado para as masmorras e este vosso amigo que vos canta e conta e tem de andar com o raio de fato com guizitos sonantes e meias de licra brilhantes bem gostaria de ir espreitar a ver o que lá se anda a passar!, foi a desesperada e quase inaudível deixa de D. Diego, el sarnento.



Aqui no reino d’El Rei D. Gervásio, o Alarve, está tudo a postos para mais um arraial.
O pormenor de ser meados de Janeiro e de nos congelarem os dedinhos dos pés dentro das meias de licra que usamos para os nossos mesteres não é impedimento para tal, tão grande e arrebatador é o entusiasmo de toda a Casa Real, Corte e outros transeuntes do Reino e arredores mais próximos, até porque o cozinheiro Lelo sabe fornecer material de alta qualidade, o que não é muito que se lhe diga, porque os dedos deste vosso servo congelam na mesma.
Ora presta-me a mim, Menestrel do Reino e figura predilecta de Sua Real Alarvidade, bem como de sua única herdeira, que se saiba, é claro, a Senhora Princesa Dona Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto, informar os alegres leitores desta demanda que esta está a modos que parada por motivos alheios aos intervenientes habituais.
Desta feita porque é exigida a sua presença numa celebração anual que se faz por aqui por volta de cinco vezes por ano, que é um Concurso de Misses, mas ao contrário, que é como quem diz, em vez de serem os moços a admirar as graças e as prendas das moças, são mais as moças que vão ajudar a doce e sensata Princesa D. Elvira, a do Remoinho étecétera étecétera e tal, a observar as graças e as prendas de vários mancebos, de modo a poder escolher o seu futuro noivo, coisa que nunca mais acontece, e que já nos começa a agastar a longanimidade, não fosse, de facto, a oportunidade que este vosso amigo têm, ele também, de espreitar as graças e as prendas de vários mancebos e ter direito a muito mais, se as Sortes o permitirem.
Ora desta feita, como é também habitual, os mancebos desfilam com atavios de Corte, com atavios de estar por casa e em ceroulas. Depois exibem os seus dotes culinários, físicos (momento que este vosso amigo aprecia deveras, uma vez que surgem… hum… vários exercícios de musculação que se prestam… hum… interessantes de realizar em casa sem grande dificuldade e sem grandes complicações para amadores…) e, sabe-se lá porquê, os dotes intelectuais, mas já todos estamos mais que habituados às exigências descabidas de sua Suave Rosa Albardeira do Campo em Flor que é a Senhora D. Elvira, a do Remoínho Espetado no Cocuruto!
Felizmente que durante estas ocasiões corre farto e grosso o rio de néctar das pipas do reino, porque são momentos que se estendem e agastam quem observa e já está farto daquilo, acabando por deixar as instalações para ir apanhar ar, ou adormecer pelos cantos, e deixando mais pormenores para observar a quem realmente tem interesse nestes assuntos, que é precisamente, a Senhora Dona Elvira, nossa Real Graça, e eu mesmo, acabando por ficar; às tantas, também a Bela Garça do nosso Reino já farta destas coisas todas e mandar os mancebos às de vilas-diego!
Por haver este ano, por acaso, um tal de Diego, jogral, Castelhano, perdido por aqui, e que veio atrás dos outros todos por achar que também estavam um bocado meio perdidos, como ele, a nossa Doce Senhora acabou por ficar mais tempo na conversa com ele, e lá achou que, apesar de ter alguma dificuldade com mapas, coisa que não abunda no nosso reino e que não faz importância nenhuma, o moço até preenchia os exigentes requisitos da sua extensa lista.

Infelizmente para todos, além D. Diego, apareceram logo a seguir, de forma inexplicável, seus primos D. Forlán, garboso capitão da Armada e que sabe ler, D. Álvaro, seminarista, porém que fica divinalmente em ceroulas, e D. Calixto, cozinheiro de primeira, apesar de trombudo como a árvore mais que centenária dos jardins do Palácio Real e lerdo como a porta de entrada do castelo, que se fecha de rompante na cara das pessoas que vão a entrar.

Logo por aqui se pode verificar que os pratos da balança ficaram equilibrados, e que a luta seria renhida.

Felizmente para todos, e como isto já se estava a estender mais que a conta e a nossa doce herdeira estava com uma destas vontadinhas de se aliviar nas suas divisões privadas, que a nova bebida de malte com espuminha branca no topo do cozinheiro Lelo correu generosa, optou pela técnica de eliminação mais eficaz que os nossos tempos de trevas conhecem: a armadilha para ursos.

O que quer dizer que todo este processo vai durar muito pouco tempo. Montamos secretamente a armadilha de ursos no meio do salão de festas, bem à vista, e esperamos a um canto que alguém passe e morda o isco. Não dura nem 5 minutos.

Como até calhou D. Diego, apesar de todas as suas qualidades, ser algo distraído e não ter reparado num gigantesco emaranhado de cordas e paus escarrapachado no meio do salão de festas, esta pioneira técnica de desempate nem chegou a durar os 5 minutos do costume, ficou tudo resolvido em menos de 1 minuto, e a nossa doce herdeira ganhou, finalmente!!!, um noivo de gabarito. Se bem que um bocado parvo, no entanto.

Ah, pronto, ficou assente que se casariam breve, e que a festa teria lugar no palácio real, e que seria uma grande alegria, especialmente para os seus reais pais, que já achavam que estava na hora de ela lhe sair das saias, para eles se reformarem condignamente e ir passear descansados.


Monday, July 13, 2009

Update.

Acabei de me cruzar na rua com o Cláudio, o gótico.

Deixou crescer o cabelo até ao rabo, até nem tem mau aspecto, está em forma e tudo, mas o olhar aluado dele continua o mesmo...

Há coisas que nunca podem mudar...

Wednesday, June 17, 2009

Caros leitores:

Venho por este meio informar que este blog se encontra de momento em pausa, pelo menos até eu mudar para a barraca nova e desencantar qual o caixote em que meti as notas e apontamentos referentes, precisamente, a esta Demanda.

Um bem-hajam, e até um dia destes.

Breve...

Thursday, February 19, 2009

CAPÍTULO 9 – PORRADA, CHANTAGEM E TORTURA.

Se vossas mercês consideram que este vai ser um episódio de acção, desenganem-se!
Invariavelmente, este vosso amigo Amâncio, o Menestrel, inicia as suas mui valerosas crónicas com as acções de Baldomero, escudeiro do nobre e aventuroso D. Epifânio, cavaleiro de sua grande alarvidade, o Rei D. Gervásio, o Alarve, precisamente.
Ora, desta feita, começamos na mesma, com Baldomero, num ambicioso porém destro posicionamento, se bem que pouco natural, no topo da sua carroça.
Esta sim, virada do avesso por seu próprio condutor, Baldomero, ter iniciado uma manobra de marcha às arrecuas para o lado esquerdo a toda a velocidade enquanto Canabis, a sua mui fiel e legítima mula, o fez para a direita, o que levou a um opíparo capotamento, com eixos em três direcções a eito e um tabuado em cheio contra a fronha de Pepino o Germano, em frente à tenda do Mago Teobaldo, de onde vinha a sair Ramira, filha de Pepe, o taberneiro, o que foi obviamente a causa de todo este aparato rodoviário.
Ela e as galinhas do próprio alquimista real, que circulavam despreocupadamente pela via pública em hora de ponta, que era quase exactamente todos os dias por volta da hora do almoço, quando Baldomero se dirigia inequivocamente às cozinhas do castelo a uma velocidade mais para o alto.
O busílis de toda esta situação reside assim na magnífica posição de homem-estátua de Baldomero exibia, com o intuito de equilibrar a barrica de hidromel de forma a esta não despejar para o cascalho poeirento a generosa ambrósia que carregava nas entranhas.
“Porrada!”, “Chantagem!”, “Tortura!” – gritou enérgico o Mago Teobaldo. “Já aqui ao pé do dono, minhas bichinhas malucas fofinhas do paizico!”, acrescentou, vergonhosamente meloso.
Bem amestradas, e com um QI largamente mais elevado que o de Baldomero, além de uma forte camada de personalidade própria, lá foram, obedientes, não sem antes presentearem Baldomero com uma basta quantidade de bicadas bem apontadas às suas canelas.
Isto fez com que a barrica descambasse ladeira abaixo, com Baldomero a trote atrás dela, atirando em simultâneo um “Então boas tardes, minha menina, que tal vai a vida? Muito sol hoje, já reparou? Acho-a com boas cores!” a Ramira, à passagem pela donzela, o que o obrigou, por momentos, a desviar o olhar do seu percurso, motivo pelo qual não viu o resto das galinhas a saltitar na estrada à frente dele.
Ganza, Chamô e Juana, furiosas, correram para o regaço de seu mui amado tratador, o Mago Teobaldo que, escandalizado com a desfeita, logo hasteou o seu bastão do poder na direcção de Baldomero.
Este não estava, claramente, nos seus dias!
Não bastava, na festa de S. Berardo, alcoolicamente alterado e com a aflição dos sapinhos, ter apanhado a jeito Contusão e ter feito dela um “frango à Castelo Branco”, coisa que mui agastou o Mago Teobaldo, que nunca mais a vida lhe pareceu ter as mesmas cores, e que jurou atormentá-lo na vida após a morte, para agora o afrontar com esta ofensa!
Teobaldo, ao ver Maria Rita ainda de perna virada, sentiu algo a rebentar-lhe dentro da cabeça. Na altura, pensou tratar-se de uma veia, que andava com receios de vir um dia a sofrer de embolia por conta dos bifinhos de cebolada do cozinheiro Lelo, não esperava era que fosse tão cedo, pelo menos para depois do almoço, que hoje era dia de caldeirada, mas depois viu que era mesmo uma poia de Maria Rita que, com o alvoriço mortal de que a sua autora fora vítima, fora projectada três metros em diagonal, qual pontapé à trivela, coisa nunca vista, na direcção da nuca do Adivinho.
Não obstante, Teobaldo atirou o bastão com toda a genica que ainda lhe restava, depois de um momento de tanta tensão e angústia, que acertou em Baldomero mesmo no meio da testa, e por motivos disso e de antes de toda esta cena Baldomero ter aliviado a sede na taberna do Pepe, caiu para o lado e não se mexeu mais até de manhã, razão pela qual este episódio, afinal, ao que contrariamente parecia no início, não é de acção.
A acção foi depois ao almoço, quando Aldonza, prima odalisca de Ramira, dançou em cima da mesa, e vieram uns senhores do reino da ASAE dizer que não senhor, que aquilo ali estava tudo mal, olhem só a comer com as mãos, que javardósia, e os pés peludos descalços em cima da mesa, vamos mas é selar isto tudo e ala daqui que se faz tarde!
E à tardinha foi a sesta!

Wednesday, March 12, 2008

CAPÍTULO 8 - AS BAILARINAS DO SAHARA

A profissão de menestrel, como a deste vosso contador de histórias e de fados, nem sempre é prazerosa.
Muitas vezes, é necessário engolir a dor, a revolta, a angústia, para dar as notícias, para descrever os acontecimentos, para escolher as palavras certas, que custam a sair.
No reino de sua real barrasquice El Rei D. Gervásio, o Alarve, e da sua formosa herdeira, a Princesa D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto, habitualmente, o trabalho deste vosso amigo é facilitado, porque as situações são agradáveis, estúpidas, aventurosas ou, quando muito, tudo junto.
Desta vez, porém, as novas são desgostosas.
A voluptuosa e prendada Ramira, filha única de Pepe, o Galego, o da Taberna, fornecedor inabalável de sangria e hidromel do castelo, foi indecorosamente subtraída dos seus pelos abjectos e sarnentos castelhanos, que organizaram um grandioso campeonato de canastra e montaram acampamento aqui nas imediações do castelo.
Ora isto sucedeu-se porque lhes chegou aos ouvidos atulhados de cera que a bela Ramira era dotada de um bem precioso, ao qual eles ambicionavam aceder, nem que fosse de forma ilícita: Ramira tem mão para o lombo de porco no forno com farinheira e cogumelos!
Ora a Corte ficou para morrer, porque o dia do lombo de porco no forno com farinheira e cogumelos era a sexta-feira, e esta aproximava-se a passos largos e inequivocamente desgovernados!
Logo, derivado d’ El Rei D. Gervásio, o Alarve ter perdido o pio e a compostura com o choque, e de sua agradável filha, a Princesa D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto ter dado em vegan e estar-se a marimbar para esta tragédia, coube à sua aia, a doce porém furibunda D. Matilda, a missão de meter os seus contactos a trabalhar, e tratar de resolver o assunto em conformidade.
Até porque, se ninguém fizesse nada, iria ela própria, e Aldonza, sua amiga, e prima da desventurada vítima, resgatar a donzela encarcerada!
Ora a Senhora Dona Matilda não teve com que se preocupar: logo D. Epifânio e Baldomero se voluntariaram para a nobre tarefa, deixando de lado, por uns dias, a Demanda do Jarro Sagrado que têm a seu cargo.
O primeiro porque, regra geral, é parvo, e acha que pode salvar o mundo, o segundo porque nutre uma paixão assolapada e uma atracção desmesurada pela frágil donzela enjaulada. E pelos seus dotes culinários. E pelos seus longos e cheirosos cabelos de azeviche. E as suas ancas bamboleantes. E os seus pés peludos e de unhas amarelas que saem das suas socas de madeira. Isso sim, é que o leva ao desvario!
Como não podia deixar de ser, D. Alarico também se voluntariou, principalmente motivado pela oportunidade que tinha de lixar o juízo a D. Epifânio, mas também para mostrar o elmo novo que exibia, porque o outro havia entrado em contacto directo e a grande velocidade com o tronco de uma árvore, com D. Alarico dentro, precisamente, e ficara algo amolgado.
E porque irem só 3 marmanjos é coisa um bocado fastidiosa, logo os nossos amigos requisitaram mais uns companheiros para a sua demanda, para fazer um resgate à maneira, o que até nem foi muito complicado, porque como estava toda a gente aflita por ficar sem o lombo de porco no forno com farinheira e cogumelos, logo esta valorosa causa ganhou um considerável número de adeptos, alguns dos quais tiveram de assentar arraiais na retaguarda, como o Mago Teobaldo, que conspirou o plano de resgate infalível, mas que podia continuar descansado com a sua portentosa bufa enfiada no cadeirão em frente à lareira, na sua tenda, enquanto outros de nós tinham de fazer face ao perigo com as vestes idiotas que ele nos arranjou!
Assim, de acordo os planos habilmente congeminados pelo grande cérebro da Idade Média que se considera o Mago Teobaldo – é o que está na placa que ele tem agarrada ao poste central da sua tenda -, planos esses ensaiados até à exaustão – e este vosso amigo que está cheio de bolhas nos pés e cãibras nas pernas bem o pode assegurar -, a trupe que vai resgatar a doce e voluptuosa Ramira está a postos para entrar em acção!
Logo, sem mais demoras, fomos bater à porta dos intragáveis castelhanos, que as abriram com gáudio, porque já estava com a vista e os sentidos ligeiramente turvos do hidromel, que o deles também é de grande qualidade, que foi o que eu ouvi dizer, nem quero insinuar com isto que tenha contactos entre os vergonhosos castelhanos, nem que tenha desfrutado de uma amizade mais intensa e caliente com um tal de Pablito, el Osito, que nem é pessoa dos meus conhecimentos próximos, e derivado também de estarmos todos disfarçados e bem encarnados nas novas personagens que assumimos.
É que o Mago Teobaldo achou que seria boa ideia irmos disfarçados de dançarinas exóticas. Terá sido do uso excessivo que faz do seu pífaro mágico.
A nossa apresentação aos castelhanos foi bastante convincente.
Nós estávamos bem preparados e ensaiados - começámos com uma dança deveras cativante, que os deixou estonteados, e procedemos à nossa apresentação: “As Bailarinas do Sahara”. Foi um nome bem escolhido. Fica no ouvido.
Obviamente, tivemos de alterar, além dos nossos trajes másculos habituais – se bem que meias de licra amarelas e guizinhos… -, as nossas graças: D. Epifânio passou a ser Florbela, Baldomero, a Bebé, D. Alarico respondia pelo nome de Fifi, eu próprio vestia a pele de Mimi, Casimiro o Bufo tornou-se Sissi, Pepino o Lombardo encarnou uma Pipi de longos cabelos loiros, barba e bigode, o Custódio o Parvo baptizou-se de Tucha, como a sua própria mula, e o Frederico o Belo Pedaço – e que faz juz ao seu cognome, posso assegurar! -, transformou-se na Crica.
Acontece que os audazes do reino estavam tão competentes na sua tarefa que os castelhanos logo os convidaram a partilhar do repasto, porventura por um deles ter visto surgir uma certa química entre ele próprio e a nossa Crica, que aparentava sentir-se demasiado bem na sua nova pele e não pareceu importar-se muito com a corte de que estava a ser alvo.
Entretanto, sem darmos por ela, já estávamos todos amigos e conversávamos alegremente enquanto enfardávamos que nem lontras uma lauta refeição de lombo de porco no forno com farinheira e cogumelos preparado pela generosa Ramira!
Infelizmente para nós, ela foi generosa também na dose daquelas ervas que ela habitualmente carrega consigo – gentilmente preparadas pelo Mago Teobaldo – o que foi uma chatice, porque quem comeu do inspirado banquete – ou seja, todos menos Ramira, inexplicavelmente - ficou brutalmente atacado de gases, com alguma soltura, e com os pêlos das orelhas a crescer de forma desmesurada.
Este último efeito foi causado por termos misturado sangria a isto tudo, que a noite estava para o quente.
No entanto, foi graças a esta situação que a corajosa Ramira foi resgatada, pois eis que surge a ousada D.Matilda, a comandar o seu bando de destemidas ninjas – a voluptuosa Aldonza, prima da vítima, as Gémeas do Terror D. Fagilde e D. Urdilde, e a própria herdeira do trono, a Princesa D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto-, armadas com mocas de Rio Maior, que deram uma opípara coça a tudo o que se mexia, e que levaram a cativa, que apesar de indefesa, aproveitou a ocasião para arrear nuns quantos, que lhes estava cá com uma sede!

FIM!!


P.S.: Acreditem ou não, baseado em factos reais…

Friday, November 16, 2007

CAPÍTULO 7 – UM TAL DE SÊLO ULTRA-SECRETO e etc., que não cabe.

CAPÍTULO 7 – UM TAL DE SÊLO ULTRA-SECRETO, DE UM TEMPLO QUE NINGUÉM SABE QUAL É E QUE NÃO SE PODE DIZER ONDE FICA E ISSO, E NEM SEQUER SUSSURRAR O SEU NOME, LOCALIZAÇÃO, QUEM LÁ ANDA E QUEM LÁ VAI, JÁ NEM AQUI ESTOU, CARAÇAS!”

“Oh, suave donzela, que penteias docemente teus longos cabelos da cor do mel à luz venturosa do sol matinal, quão sonhadores são teus olhos, quão sumarentos eu devaneio teus lábios, quão luminosa e quente a tua pele. Por ti, o meu coração bate mais veloz, por ti, enfrento tumultuosos perigos com prazer, os saques que conquisto deixo a teus pés como uma dádiva da devoção que a tua presença me inspira.
Oh, formosa dama, vira os teus olhos de céu para este teu pobre servo, nada mais que um humilde sonhador!”
Seria esta a prédica de D. Epifânio, caso tivesse o dom da palavra.
Mas não tinha.
Para compensar, D. Alarico tinha de sobra, e era ele quem emitia esta expressiva declamação a D. Matilda, que apenas tinha vindo à varanda esticar os ossos, ainda nem se tinha penteado, e nem sequer tinha passado a fronha por água, enquanto D. Epifânio, de joelhos no chão e singelas flores silvestres na mão, ficara sem palavras a olhar embevecido a musa inspiradora da sua coragem.
E foi precisamente por estar cheio de calores e de ideias parvas que D.Matilda atirou com o conteúdo do pote de noite que ela e a sua amiga Aldonza usaram durante essa semana para cima da fogosidade e da imensa trunfa de D. Alarico!
Foi suficiente para o calar, graças aos céus, que nem todos temos os hábitos estupidamente madrugadores desta gente!

Eis senão quando, antes do almoço - mas a que outra hora poderia ser! – surge Custódio, o Parvo montado numa coisa inventada pelo Mago Teobaldo, mas que ele ainda não sabe propriamente para que serve, pelo que dá para ir desenrascando umas coisas aqui e ali, que o instruiu para “castigar os pedais como se não houvesse amanhã” (e para o Custódio não haverá, realmente, se não cumprir as ordens do Mago Teobaldo, que lá se vai o unguento para a sarna, o xarope para os sapinhos e o chá para a psicose!), de modo a entregar o mais rápido possível uma mensagem ao mais bravo cavaleiro d’ El Rei D. Gervásio, o Alarve – D. Epifânio.
Como o Custódio, o Parvo, parece não ter noção do desvairado poder do Mago Teobaldo, vinha em ritmo de passeio dominical, a trautear uma modinha intitulada “Vem devagar, emigrante”, motivo pelo qual foi abalroado pelo Baldomero na sua carroça de dois eixos, que vinha a trote de Canabis pelo cascalho, para dar uma imagem de garanhão e de pessoa que controla bem os seus movimentos à voluptuosa Ramira, a sua paixão mais ou menos secreta, que ia ao castelo visitar a sua prima direita Aldonza, odalisca a tempo inteiro de profissão, que viera passar uns dias com D. Matilda, sua amiga desde há largos anos.
Assim, surge realmente no castelo o Custódio, o Parvo, montado naquela coisa, mas meio de banda e completamente atordoado, em cima da carroça do Baldomero, amparado por dois fardos de palha e uma barrica de sangria, mantimentos de emergência que Baldomero leva sempre, para alguma ocasião em que sejam necessários – para ele e para a sua mui estimada mula Canabis!
Bem, a mensagem lá foi entregue secretamente ao bravo D. Epifânio, mas como ele a leu em voz alta, toda a gente ficou a saber que era para ele ir ter com muita urgência à tenda do Mago Teobaldo, que ele tinha uma tarefa da mais vital importância para ele realizar.
Assim, chegou lá ao mesmo tempo que o seu concorrente D. Alarico, bem como as Gémeas do Terror, que o tinham ido apoiar vigorosamente, bem como ao Pepino, o Lombardo, que tomara banho só há 2 semanas e ainda estava cheiroso, o cozinheiro Lelo, que vinha trazer em segredo ao Mago Teobaldo uma remessa de uma farinha que só se arranjava no reino da Colômbia, o Custódio, o Parvo, a quem tinha acabado a pomada para uma inflamação íntima que o afligia deveras, Argimiro, o de Cheirete a Azedo, e que vinha fazer não sei o quê, e também aqui este vosso amigo, Amâncio, o Menestrel, que vinha ver precisamente isso!
Depois desta gente toda, lá o Mago Teobaldo conseguiu arranjar um tempinho para atender D. Epifânio e D. Alarico, que ele achou que, como se odiavam, bem podiam fazer qualquer coisita em conjunto, a ver se melhoravam estas atitudes estúpidas.
E assim lá foram os dois levar um pacote secreto e selado, com uma mensagem oculta, ao tal lugar que ninguém pode dizer propriamente onde é.
Felizmente, não era muito longe, pelo que os dois agora companheiros de jornada tiveram apenas que partilhar uma refeição que, como era de coelhinho bravo na brasa e estavam os dois com alguma larica, porque já tinham saído do castelo antes do almoço, até correu de feição. Depois de sesta, lá continuaram a subir o monte, que até nem era muito íngreme, e aproveitaram para apanhar algumas flores silvestres para as damas da corte, até porque a sangria parecia ter-lhes batido forte.
Chegados ao templo, tocaram o badalo e a porta abriu-se instantaneamente.
Lá dentro, surge num corredor sinistro, envergando um traje assustadoramente negro e com a cabeça tapada, um monge com um tamanho avassalador, dono de uma voz de trovão maldito, que lhes diz apenas: “Sim?”
D. Alarico perdeu repentinamente o pio, mas D. Epifânio, como reparou que tinha espaço para largar a correr dali a alta velocidade, uma vez que não levara a armadura, atirou o pacote à cara do eremita, gritando, enquanto se punha a milhas: “É um recado do Teobaldo!”
D. Alarico não se fez rogado, e foi-lhe logo no encalço, correndo até mais depressa, porque tinha as pernas mais compridas e motivações mais fortes.
O sombrio monge baixou o capuz e agarrou lentamente o pacote misterioso caído no chão de pedra rude e fria.
Sorriu, dizendo: “Finalmente! A receita das charnicaias!”

Monday, August 13, 2007

CAPÍTULO 6 – A SAGRADA FARTURA


O reino de sua gosmenti… coiso El Rei D. Gervásio, o Alarve, é, em traços gerais, composto por 8 aldeias e um parque de diversões que, desde a festa do Natal até ao Dia de Todos os Santos do ano a seguir não pára com actividades festivas, tertúlias, casamentos, vacadas, baptizados, forrós, arraiais, torneios, fuberais (dependendo do falecido,é claro), serubas, tasquinhas, inaugurações e festas em geral.
O tempo que vai desde o Dia de Todos os Santos até ao Natal é utilizado pelas gentes do reino – excelsa Família Real e restante Corte incluída – para purificar o corpo, a alma, o fígado e, em alguns casos, umas certas nódoas negras.
Ora este "parque de diversões" situa-se, concretamente… nos arrabaldes do castelo…
Precisamente a esta data estamos no início da chamada Festa do Sr. Espírito Santo, que foi um cavaleiro que aí apareceu há uns tempos com uma invenção denominada "dónetes",que se tornou uma lambarice de eleição entre os fervorosos súbditos d’El Rei – neste caso também Família Real e restante Corte incluídas – e achou-se que este seria um motivo válido para se ter, vá… mais um arraial.
O facto de estarmos a meio da Demanda do Jarro Sagrado não foi considerado motivo de peso para a festa ficar sem assistência, pelo que toda a gente quis ir estrear roupagens novas e divertir-se à grande e à normanda na vacada de inauguração!
… nomeadamente Lord Leigh, que tentou meter conversa com a Cornélia, a vaca maluca e meio zarolha do Mago Teobaldo e que, sem se perceber muito bem como, acabou agarrado aos lombos da desgraçada bichinha, que corre agora freneticamente pelos prados, certamente em direcção ao reino mais próximo, famoso essencialmente pela estupenda categoria de bois cobridores e pelos barrascos que nunca dormem.
O que é uma felicidade para os restantes de nós, que já estávamos a ficar um bocado fartinhos das psicoses de Lord Leigh e que gostaríamos de prosseguir calmamente em direcção à próxima barraca de vitualhas , atrás do Baldomero, Mestre nestas artes, numa romaria aos dónetes, aos churros, à sangria, à ginjinha (na barraca do próprio Mago Teobaldo, chamada precisamente "O Alquimista") e, finalmente… a ELA!!
A Sagrada Fartura!!
Há lá mistério maior do que o seu sabor mágico, o seu travo especial, a azia que provoca e que nos faz acordar enjoados que nem perus a altas horas da madrugada!
Ensopadinha em tintol fresco, então… é um desvario para qualquer um, desde a doce D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto, até ao Argimiro, O do Cheirete a Azedo. Mas também, para esse, tudo é um desvario, e não é este vosso amigo Amâncio, o Menestrel, quem vai sujar a língua a falar destes assuntos, que a minha função aqui é exprimir de forma imparcial os acontecimentos que ocorrem no reino de sua empilhância El Rei D. Gervásio, o Alarve, e não lavar a roupa suja só porque o Frederico, o Belo Pedaço preferiu ir dar uma voltinha como Argimiro e mandou aqui este vosso amigo ir emparelhar com um animal que não se pode aqui dizer, que isto supostamente são umas crónicas de qualidade e não o folhetim barato com histórias mais pervertidas que este vosso amigo às vezes escreve mas só por motivos de aumentar o rendimento mensal e nem é por divertimento!
Desta vez, até tivemos muita sorte, que o arraial foi abrilhantado pelo espectáculo do Beltrán,o Bardo, com canção ligeira, malabarismo e várias formas de equilibrismo como seu cavalo Fénis, e pelas habilidades de contorcionismo da Marlene Contorcionista.
Depois de tudo isto, é certo e sabido que vai andar toda a gente mal da tripa durante uns dias, mas o corpo tem de ser forte, aguentar a estocada e preparar-se, que na próxima semana temos já aí as Festas do Sr. Joe Berardo, que foi outro cavaleiro que apareceu não sei onde e que fez não sei o quê que este vosso amigo já não se lembra, que a noite vai longa, mas que é outra desculpa para andarmos na rambóia e a encher o bandulho durante mais uns dias!
Ora adeus que aqui me vou!