O despertador começou a tocar, baixinho, uma música da sua adolescência, dos Pearl Jam. Era uma estação de clássicos, e esta já estava na lista das músicas vintage. Fantástico… Esta não era a sua cama, nem o seu quarto, e nunca ia meter umas cortinas daquela cor aborrecida, pensou Madalena, enquanto olhava para o gato laranja deitado em cima da sua barriga que a observava como se ela fosse uma peça habitual da casa. Saíra do trabalho no dia anterior aborrecida com a chefe e pronta a mandar tudo pelos ares, mas a engolir o sapo porque precisava do ordenado. Passou pelo supermercado, quase automaticamente, para apanhar os ovos que estavam em falta, e também pão e, quem sabe, umas massas frescas para fazer ao jantar. Simples, com mozzarella, pancetta, folhas frescas de manjericão, como faziam naqueles restaurantes pequenos perdidos no meio da Toscana. Porque é que estavam com promoção dos produtos italianos? Que nervos! Em casa, sentada no banco da cozinha, a olhar para as imagens nas etiquetas dos produtos, decidiu-se. Não, não se decidiu coisa nenhuma. Na verdade, nem teve consciência de meter na mala meia dúzia de peças de roupa, os documentos, os três primeiros livros da pilha em cima da mesa de cabeceira (ou outros vão ter de ficar para depois, pediu desculpa mentalmente), fechou bem as janelas, olhou em volta, calçou-se e saiu porta fora. Meio minuto antes de desligar o telemóvel, sentada no avião com direcção a Génova, enviou uma mensagem à Patrícia a mandá-la fazer o relatório sozinha, mas com palavras menos simpáticas. Acordou na manhã seguinte no airbnb onde ficara, e saiu para ir tomar o seu primeiro pequeno-almoço verdadeiramente italiano. Com uma bota de cada cor, reparou quando as calçou, mas que se lixe, estava numa aventura!
Porque a fanfiction existe. E a vida real também é um estalo do caraças quando temos várias pessoas a morar na nossa cabeça!
domingo, 14 de abril de 2024
domingo, 7 de abril de 2024
Infinito.
Uma, duas, três, quatro, cinco…
Contava oito pedras do lugar onde estava, em círculo, rodeadas por um denso manto de árvores, e mais duas pedras no centro.
Como um vulto e um altar.
Estavam marcadas com símbolos. Espirais e sóis e figuras humanas e animais velozes.
Tão fundo na floresta que não se conseguia vislumbrar um trilho para sair dali.
Ouvia o marulhar do vento nas árvores, o borbulhar de água não muito distante, e o silêncio.
Estariam sozinhos no mundo?
Não se conseguia mexer, não conseguia falar, pelos deuses, mal se lembrava sequer do que acontecera na noite passada e de como chegara ali.
Que lugar era aquele?
Olhou os seus braços, sentindo-os rígidos, e as pernas estavam a deixar de obedecer às suas ordens.
Tentou gritar e nenhum som saía da sua garganta.
Porque não, se ainda ontem ria e cantava e tinha a voz mais solta do que o costume, ao beber aquela bebida quente e doce que estava a ser passada por todos em redor da fogueira?
As labaredas subiram e chegaram aos céus, as vozes cantaram e calaram-se, o ritmo do tambor tornou-se mais intenso e mais rápido. Ou seria o bater do seu coração?
O que é que fizera depois? Dançara. De forma louca, mas centrada, como se o seu corpo soubesse os movimentos da dança sem que tivesse de lho dizer.
O ritmo entrara-lhe nos ouvidos, na voz, no sangue, na alma.
E o que é que dissera?
As palavras vinham-lhe agora à memória,
queira ser pedra
queira ser tempo
queira ser eternidade,
as palavras soltas no vento
Tentou gritar, mas a voz não saiu.
Tentou soltar-se, mas o seu corpo não reagiu.
Agora, não passava de uma pedra erguida entre as outras do círculo.
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domingo, 31 de março de 2024
Horizonte
Oiço o guincho de um miúdo e um rosnar brincalhão de um cão. A seguir um pop!
Os guinchos tornam-se mais altos.
Já sei o que aconteceu.
O cão abochanhou a bola e deu cabo dela.
O puto ficou sem bola e está ali numa chinfrineira irritante.
Bem feita, raios partam a bola.
Não é verdade.
Não é isto que sinto.
Estou só zangado.
Zangado com tudo.
Com a gritaria do miúdo, com o cão a correr e aos saltos, com o sol, com o vento, com a paisagem tranquila, maldita!, com a vida, com a morte.
Com o que me resta da vida.
Vou morrer.
Soube-o ontem.
Não de repente, não de surpresa, mas tenho os dias contados.
Sou tão novo, tenho tanto para viver.
E já vivi tanto, já curti tanto a vida.
Devo ter gasto a dose toda, por isso é que foi encurtada.
Agarrei na mala e corri em direcção a um lugar especial, que me faz sentido, uma praia tranquila no Alentejo. Durmo sempre bem no Alentejo, sempre o disse.
Olho o céu e vejo um falcão a planar, a disfrutar do vento e da paisagem. Árvores que se estendem pelo horizonte. O rio e a barragem. As planícies, mais além.
Abro os braços, fecho os olhos e sorrio. Consigo ver o que ele vê.
Que bela vida que tive! Amigos, os melhores. São eles que me irão levar à última morada. Os melhores de todos.
A minha alma gémea, a minha amada, tão pouco tempo que tive com ela. Tão intenso, que me marcou a alma.
Posso durar meses. Ou anos.
O miúdo passa a correr, com o cão. Perdeu uma bola, mas ganhou um amigo. Guincha o miúdo e salta o cão.
Sorrio.
Já ganhei o dia.
Desafio Semana 13/2024
sexta-feira, 29 de março de 2024
Desafios
Andei entretida com um desafio de escrita interessante, em que nos davam uma instrução e um limite de palavras por semana para escrever um pequeno conto.
Era a única escrita que me permitia fazer nestes meses iniciais de 2024, para me dedicar a sério ao segundo semestre.
O objectivo era colocar a escrita em pausa até ao Verão, já que o ano anterior e o primeiro semestre foram bastante desafiantes em termos de "meter o Rossio na Rua da Betesga", i.e. multitasking.
Assim, a ideia inicial era meter a escrita a um canto, pelo menos até terminar as aulas, com excepção deste desafio e de dois concursos em que tropecei.
O desafio terminou, mas o bichinho não se quis meter na gruta para hibernar, o que quer dizer que vou andar entretida com um projecto semelhante, mas aqui no blog.
Afinal, não deve custar assim tanto encaixar um conto por semana, não é?...
segunda-feira, 15 de julho de 2019
O Crime na noite de Solstício de Verão - Capítulo 3.
sexta-feira, 5 de julho de 2019
O Crime na noite de Solstício de Verão - Capítulo 2.
sábado, 29 de junho de 2019
O Crime na noite de Solstício de Verão - Capítulo 1.
3.1 - Uma viagem até ao desconhecido.
Fala João. Acordei de madrugada com o uivar de um lobo. A tempestade parece ter acalmado durante a noite, mas o silêncio era ainda mais assu...
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O por do sol, visto do cimo da serra, costumava ser sublime, independentemente do estado meteorológico do dia. Ontem, as cores tornavam-no m...
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O mar estava revolto, apesar dos últimos dias terem sido tranquilos. O céu, que ainda ontem exibia um nítido tom de azul, estava hoje sombri...
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O dia amanheceu finalmente solarengo e ameno, depois de umas longas semanas de vento frio e de chuva. O sol brilhava suave por entre as fo...






