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quarta-feira, 15 de maio de 2019

A Devoradora de Corações - Epílogo.


Celestes

A Irmã Generosa, pelas mãos de Leonor, acrescentou mais um parágrafo no caderno onde apontava as suas receitas e as suas notas, deitando um olho ao tacho de cobre onde a fruta se tornava numa papa doce e borbulhante, enquanto se recordava da sequência dos acontecimentos dos últimos dias.
O encerrar do convento antigo, entre comoção e saudade, a mudança para o lugar novo, com mais ou menos entusiasmo, independentemente das idades, com a estranha doença da pequena Maria dos Anjos que se arrastou por estes dias e, finalmente, na noite passada, a assustadora e tremenda tempestade e a destruição completa do muro do claustro sul pela subida das águas do ribeiro, de repente tão violentas e incontroláveis, que arrastou com ele o claustro onde se passeavam tranquilamente em dias de sol e de chuva e de todo o edifício onde antes dormiam as irmãs, que inevitavelmente teriam ficado sem vida debaixo dos escombros, em vez de estar a despertar numa manhã de sol luminosa em camas igualmente frescas e lavadas, um pouco mais acima na colina, de onde podiam ver o pinhal mais ao fundo e as clareiras de malmequeres.
Era um pouco mais complicado fazer as coisas, agora, mas seria uma questão de tempo até se habituarem, uma e outra: a Irmã Generosa a ver as suas mãos nas mãos de Leonor, a treinar os gestos antes tão habituais, a partilhar os seus pensamentos, a ter à sua volta a calma sempre presente do olhar de Henrique, a aproximar-se suavemente quando a percebia mais focada e absorta nos seus afazeres na cozinha.
Não podia ter pedido aos céus um presente melhor do que a Irmã Piedade para continuar o seu trabalho na cozinha. A ela deixara o seu caderno de cozinha, e a todas as mestras da cozinha do convento que se seguissem, o que arreliara um pouco a Imaculada, ela vira, lá do tecto da capela, onde velara o próprio velório, mas Imaculada ficara apaziguada ao receber um caderno só das duas, construído com amor durante todos estes anos, sem que ninguém o soubesse, nem a alma mais igual à sua, a sua marca única, as receitas e as ervas, Generosa e Imaculada, como sempre haviam sido uma com a outra, sem segredos, irmãs de hábito e de coração.
A marmelada estaria em breve pronta, a segunda receita na cozinha nova do novo convento, uma receita para apaziguar o espírito e o corpo.
Agora era Leonor quem fechava o caderno e respirava fundo, sentindo o espírito de Generosa a afastar-se e a tornar-se mais ténue, indo, quem sabe, na direcção do horto, desta vez. Leonor sorriu a este pensamento.
Ocorreu-lhe que a anterior cozinheira iria detestar o aspecto impessoal e impecável daquela cozinha acabada de estrear.
Não a limpeza em si; a cozinha de Generosa sempre fora limpa e organizada, mas a esta faltava o toque de uso e personalidade de que ela gostava, as colheres de madeira vindas do seu enxoval, a travessa oferecida pelo próprio rei para servir o manjar real em dia de festa, o tacho de barro com a asa partida que tinha sobrevivido assim quase inteiro a uma brincadeira na ceia de Natal há tantos anos atrás.
Sim, a vida aqui estava renovada, como renascida, assim como o convento.
Leonor precisou destas paredes novas para perceber que há coisas boas que vêm com a mudança, com o fim de outras coisas.
É necessário guardar algumas, mas também é preciso largar a mão de outras e de as deixar voar em direcção ao nosso passado.
Colocou um pouco da sua canja de galinha acabada de fazer numa gamela de barro, com a colher de madeira de nogueira que viera no enxoval de Generosa há muito tempo atrás.
Com o carinho com que sempre o fizera, retirou duas folhas de hortelã do molho fresco que Imaculada lhe trouxera para a ocasião.
Pensou na hortelã, símbolo das coisas passadas, pois Imaculada havia caminhado até ao convento antigo para a ir apanhar, símbolo da sua união, porque todas quiseram dar um pouco de si para a recuperação da sua pequena doente.
Pensou no seu amor perdido e agradeceu ter tido a oportunidade de cozinhar para ele, de cozinhar este prato, simples que era, e o seu preferido, e esse pensamento trazia-lhe um sorriso aos lábios e calor ao coração.
Mas, agora, o seu coração estava virado para as surpresas do futuro, e a sua canja era agora um caldo de vida, com um toque do passado, servido entre rosas e bordados de pássaros a uma criança que também acordara de um violento tormento renascida para a vida num lugar novo, depois de uma noite de tempestade e destruição que teria reclamado a vida de todas se tivessem ficado no convento antigo mais um dia.
Apenas uma delas decidira obstinadamente não acordar no novo convento, apesar de se ter deitado na sua cama nova, na sua cela nova, onde tivera de admitir que gostava bastante da vista da janela, e depois de se ter despedido tranquilamente de todas as companheiras, mas cujo espírito, Leonor sabia, se iria manter junto delas durante uns tempos.
Tinha sido a união de todas elas que as salvara, e o amor que sentiam umas pelas outras não poderia nunca mais ser derrubado.




quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Devoradora de Corações - 6

Aletria Doce

A minha companheira de cela, aqui, é a Irmã Maria da Luz. Luz no nome, escuridão no fundo da alma, eu sei, apesar de ela ter esse segredo guardado bem no fundo do coração.
Ela teve uma vida fora daqui, há muito tempo atrás. Teve um marido, que a estimava, mas que desistiu dela. Teve uma filha, um bebé lindo, as mãos pequeninas, o rosto perfeito, mas que nunca abriu os olhos. Era uma menina e, se tivesse nascido viva, teria por agora a mesma idade que eu. Creio ser esse o motivo que a faz olhar para mim pensativamente. Será que a sua filha teria cabelos castanhos como os seus? Seriam lisos? E os olhos? Seriam risonhos? Teria sido uma rapariga feliz? 
Não foi ela quem mo contou, nem nenhuma das outras irmãs, que ninguém conhece o seu segredo, mas um dos anjos que guarda este convento.
Ele diz-me que não tenha medo, que nos acompanha até ao convento novo, e que vai continuar connosco, e será como se não tivesse havido mudança nenhuma.
Diz-me que quase morro, mas que o amor que esta minha irmã me tem é amor de mãe, porque eu sou a sua filha perdida e ela é a minha mãe perdida, e que é o nosso reencontro que nos salva às duas.
E eu acredito nele, que nunca me mentiu.
Eu tive uma mãe, mas não era mãe, apenas me colocou no mundo.
E tive uma avó, que me dava colo e carinho, mas não foi por muito tempo.
Eu não me lembro, porque era muito pequena, mas guardo a sensação do seu colo.
Foi o anjo que me contou, e eu recordei-me.
Quando era quase um bebé, devia ter uns três anos, gostava de brincar na pequena floresta que me parecia o nosso jardim. Escondia-me entre os arbustos e procurava fadas. Conversava com pássaros e coelhos. Muitas vezes, fugia do quarto onde estava com a ama e vinha procurar os meus amigos.
Num desses passeios, fui dar à capela, onde estava uma caixa grande, com uma pessoa lá dentro deitada, sem se mexer.
Vi o lenço da avó e chamei por ela. Como não me respondeu, cheguei-me mais perto. Estiquei-me, porque era baixa, e consegui tocar-lhe na cara. Era a avó, mas estava tão fria e quieta, quando habitualmente era quente, que tive medo e assustei-me. Chamei por ela, mas não me respondeu, nem sequer se mexeu. Gritei mais alto, puxei-lhe pelo braço, desequilibrei-me, mas a avó não me segurou, antes caiu em cima de mim, soltou-se a fita que tinha na cara e abriu uma boca com uma língua que me meteu medo.
Urinei a roupa que a mamã tinha escolhido e fugi para longe, para tão longe, não para a minha árvore preferida, porque a avó sabia qual era, mas para uma mais distante. Tapei a cara e não quis ver nada, mas quando fechava os olhos só via a boca aberta e a língua de fora, como que a tentar comer-me.
Só me encontraram de noite, ninguém soube o que aconteceu, fiquei doente durante muitos dias, tive febres e pesadelos e chorava e gritava durante o sono, como faço agora mas, um dia, acordei, e não me lembrei de nada.
Foi a partir desse dia que comecei a ver anjos e eles começaram a falar comigo.
Os meus papás ficaram muito aflitos comigo e, um dia, trouxeram-me para este lugar.
Eu gostei, porque era tranquilo, e as minhas febres e prostrações deixaram de ser tão fortes, e passaram a acontecer muito poucas vezes. Já não passava dias de cama, com delírios e suores, e os anjos já não pediam tantas vezes que não comesse as minhas refeições, porque neste lugar, a comida é de Deus e não me pode fazer mal à alma.
Gostei porque encontrei a minha mãe perdida e ela me deu o amor que me salvou, mesmo agora que estou numa cama de olhos fechados e sem se perceber que respiro, eu sei que ela está do meu lado, que me segura e beija as mãos, e que fala junto do meu ouvido as coisas que fazem no convento, que a Irmã Piedade está a fazer uma canja que me vai saber aos céus, que a Irmã Imaculada foi buscar as rosas de que eu gosto ao jardim do convento antigo, que a Irmã Maria do Céu está a bordar uma colcha com pássaros para a minha cama, que a Irmã Áurea pintou de branco a minha cadeira e que lhe desenhou pequenas rosas, que a Irmã Generosa já não está entre nós mas que morreu em paz e sem sofrimento, mas isso já eu sei, porque o anjo me contou.
Gostei porque não sabia o que era o amor de uma mãe, mas agora que sei já não quero deixar este mundo, e o anjo diz-me “dá-me a mão e caminha, que eu levo-te à tua mãe”, e eu dou-lhe a mão e caminho com ele, porque nunca me mentiu, e quando acordo tenho um sorriso nos lábios porque estou nos braços da minha mãe.



segunda-feira, 1 de abril de 2019

A Devoradora de Corações - 4.


Beijinhos de freira

Na véspera de São João, Soror Imaculada construia na sua pequena estufa um singelo altar de ervas do campo, segundo os preceitos das suas leituras pagãs, que não chegavam aos ouvidos da Madre Superiora, é claro. Ou das suas leituras do Evangelho.
Porque a Irmã Imaculada acabava por se confundir com as duas coisas: era, de um lado, o amor ao próximo, do outro, o amor à natureza, depois, era o amor a todas as coisas vivas!… Pois não se havia ela de confundir? Não era tudo, basicamente, amor?
Para ela, que tudo amava, desde a oração à Mãe Divina até às pequeninas flores amarelas do verbasco quando floriam, até às delicadas orelhas de recém nascido que a lembravam sempre da sua sobrinha, o que a confundia era a religião, porque, desde sempre, o amor sempre estivera bem claro.
Talvez fosse da idade, que já não estava a caminhar para nova, ou talvez de privar com tantas plantas travessas, na sua função de boticária.
Bem, a falar a verdade, as plantas não eram travessas.
Ela é que era.
E a Irmã Generosa, sua cúmplice nas marotices, claro; não se haviam mantido companheiras de cela e de vida há tantos anos sem que uma não espicaçasse a traquinice que havia dentro da outra.
Eram humanas, afinal!
E a vida num convento pode tornar-se aborrecida.
Que melhor mistura do que uma cozinheira e de uma boticária, com quase tantos anos de casa, a partilhar quase todos os momentos: missas, confissões, rezas, actividades do dia-a-dia, e até a própria cela?
O resultado, em termos práticos, era, num dia, ter as monjas ensonadas na missa à conta de um azeite com pedaços de valeriana deitado na sopa, no outro dia, a levantarem-se constantemente da fila da confissão, sob o olhar pasmo do Padre Victor, para ir à casinha, fosse por se ter misturado o pó das folhas do sene nas papas de aveia do pequeno-almoço, ou por se ter misturado uns ramos de cavalinha à hortelã para a infusão da merenda, ou noutro andarem saltitantes e alegres que nem faunos da floresta à conta do pó das bagas de guaraná secas misturado na sobremesa do almoço. E muito aflitas para fazer xixi, também. Aos saltinhos.
Na verdade, a travessura que mais as divertia era a do licor com as raspas de pau de cabinda, que deixava as mais jovens afogueadas, com calores insuspeitos e desejos lascivos, já que não o davam às mais velhas, não fosse alguma ser mais fraca do coração e dar-lhe alguma coisinha má, e aí já se metiam em sarilhos!
Ou à Irmã Maria do Céu, que não precisava. Por motivos óbvios.



quinta-feira, 7 de março de 2019

A Devoradora de Corações - 2.


Arroz Doce

Leonor, agora Piedade, nasceu numa família grande e de baixa condição, na cidade do Porto. O bairro onde vira pela primeira vez a luz do dia era escuro e húmido.
Leonor não era bonita nem faladora, nem gostava muito de coser baínhas e rasgões.
Leonor não ia arranjar marido, mesmo que ajudasse a cuidar dos irmãos mais novos com zelo, competência e amor, e que lhes cozinhasse as papas melhor do que qualquer outra pessoa que conhecessem.
Disto tudo já Leonor sabia quando, no dia do seu 8º aniversário, num sombrio 31 de Outubro, a levaram do casebre imundo dos seus pais para a asseada e luxuosa vivenda dos senhores Bastos de Noronha, num bairro elegante e movimentado do Porto.
Leonor quase não falava, porque tal não lhe era necessário, pouco mais do que os essenciais “sim, minha senhora”, ou “com certeza, minha senhora”, a energia era-lhe toda necessária para a perfeita execução do seu único e mais completo dever de obediência e, por isso, não a gastava em coisas superficiais, como palavras faladas.
Aprendera a ler e a escrever, no entanto, imaginando que nunca daí viria proveito ou utilidade, mas algo dentro dela a incitava a isso, e foi com dedicação que aceitou os parcos conhecimentos do seu irmão Pedro, o único dos irmãos a frequentar alguma vez a escola na infância porque, sendo o único rapaz numa família de 12 filhos, e o preferido da mãe, esta insistira em como ele haveria de ser doutor de alguma coisa.
Infelizmente, ao Pedro, só lhe interessava ser doutor de um grupo de coro ou de um filme do cinema, e a aprendizagem da leitura foi-lhe útil apenas para ler os jornais de variedades a que conseguia deitar a mão, em vez dos livros do colégio, o que resultou em acabar na barbearia do Sr. Mateus a varrer o chão e a meter gordura no cabelo, que ia desaparecendo velozmente, porque não percebia nada de fazer barbas e de cortes de cabelo, nem estava interessado, e nem o facto de a Madalena ter conseguido estudar, ter-se tornado jornalista em Paris e de ter casado com um diplomata, ou de a Elsa se ter tornado médica, ou de a das Neves ter um negócio de sucesso com vários restaurantes de comida típica e fados, ou de a Rosa e a de a Maria terem ido à aventura para os Estados Unidos, foi capaz de fazer a mãe achar que o Pedro não era o melhor de todos os filhos que tivera.
Leonor aprendeu a ler e a escrever, mas não lia, não escrevia, e quase não falava.
Leonor fora feita para obedecer e trabalhar, e era isso que ela fazia na casa dos doutores Bastos de Noronha.
Além disso, Leonor não via e não ouvia, o que era muito prático para o seu trabalho e que, apesar de por vezes lhe dar um ar de fantasma nas divisões da casa onde se encontrava, também lhe garantia a confiança total dos senhores.
Nunca quebrara um prato, uma jarra, um copo, nunca tropeçara num tapete, nunca fizera qualquer ruído ao mover-se, nem um rogaçar da farda engomada num cortina de veludo do salão.
E, assim, ao longo dos anos, Leonor foi-se tornando necessária, indispensável, insubstituível e, cada vez mais, silenciosa.
Foi desta forma amena que correram os dez anos seguintes da sua vida quando, no dia do seu 18º aniversário, Maria Benedita, a cozinheira, deu à luz a um pequeno bastardo do menino Henrique e faleceu esvaída em sangue e com o menino enforcado no cordão umbilical no minúsculo e bafiento quarto nas águas furtadas que partilhavam as duas.
Assim o disse à esposa o Doutor Henrique Bastos de Noronha Pai, cirurgião de profissão, que assistiu mãe e filho no parto.
Nesse dia, não havia mais ninguém em casa, além do Sr. Doutor, da Senhora Dona Maria da Conceição Bastos de Noronha e de Leonor, e era necessário, obviamente, fazer o almoço.
“Leonor, sabes cozinhar?”
“Um pouco, minha senhora.”
“Pois agora digo-te que tens de saber. Faz o almoço para o meio-dia em ponto!”
Leonor não sabia se sabia cozinhar, de facto. Além das papas de água e pão e alho e coentros ou hortelã que fazia para as irmãs com o que sobrava do pão duro das vizinhas e das ervas que cresciam nos descampados e nas ruínas do bairro, Leonor nunca tinha experimentado cozinhar.
Mas não lhe eram desconhecidos os cheiros e os sons da cozinha, é claro, onde ia buscar as refeições dos senhores, e o odor das misturas de ingredientes  quando, na mesa da sala decorada com móveis Luis XIV, as pratas dos avós do senhor e as loiças francesas dos seus pais dispostas nas toalhas de linho bordadas do enxoval da senhora, perfumadas pela própria Leonor com água de tomilho quando as lavava a todas uma vez por semana, servia a sopa de cogumelos e trufas com tostinhas de pão de alho e manjericão, o guisado de cabrito tenro, aromatizado com coentros e pimentão doce, as batatas miúdas assadas no ponto num tabuleiro de barro, nem em demasia nem em falta, as farófias com o suave creme de gemas, a canela e um toque de noz moscada polvilhadas por cima.
Não havia muito na cozinha, mas Maria Benedita, que Deus a tivesse na sua glória, pobrezita, não tinha culpa de ter caído nos braços entusiasmados do menino Henrique que nem uma tontinha e de lhe ter gerado um bastardozito, queria lá saber que ele estivesse de casamento marcado com a menina Antónia Toscano, afilhada do Sr. Doutor, era rapariga do campo, e tinha os vasos e os canteiros do pátio da cozinha, nas traseiras da casa, bem aviados de ervas e vegetais, e bacalhau demolhado para o que ela achava que ia ser o almoço desse dia, que ela, nos últimos tempos, com a barriga a evidenciar-se cada vez mais, dera em achar muitas coisas, inclusive que ia ser promovida a senhora da casa, e isto, com umas batatas, cebola, farinha, leite, ovos, açúcar e canela encontrados no fundo da prateleira da despensa, lá deu para Leonor servir aos senhores um simples creme de espargos com pedacinhos de presunto, um irresistível bacalhau no forno com uma cama de cebola dourada por baixo e um cremoso puré de batata pincelado de gemas, igualmente dourado, e umas aromáticas tigeladas que, sabe-se lá por que gesto mágico de Leonor, lhes souberam ao melhor dos banquetes da sua vida de burgueses!
Depois do almoço, a senhora pediu uma infusão de tília na saleta e dispôs-se a interrogar a criada para todo o serviço - fazer as camas, lavar os lençóis, limpar os vidros, encerar o chão de madeira, servir o pequeno-almoço, o almoço, o chá, o jantar, o licor do Sr. Doutor e do menino Henrique, tirar os penicos, limpar os penicos, limpar os vomitados e as marcas de batom das camisas dos senhores, escovar os fatos, os tapetes, os cortinados, os sapatos com igual competência e brio - todos, todos, menos cozinhar, de modo a saber exactamente o que se tinha passado com Leonor sozinha na cozinha durante aquelas duas horas.
“Só fiz o almoço, minha senhora.”
“E quem te ensinou a cozinhar, se vieste para aqui em criança e nunca entraste na cozinha senão para levar e trazer os pratos da mesa? Aquela deslambida da Maria Benedita é que não foi, que era uma rústica!”
“Não sei, minha senhora. Fiz o que pude.”
“Pois se é para ser assim, a partir de hoje, tratas tu da cozinha. Logo vem o Sr. Doutor e a sua mãezinha para o jantar. Se te desembaraçares bem, como o fizeste agora, procuro mais duas criadas de servir e ficas tu com o lugar daquela porca da Maria Benedita!”
Enquanto qualquer outra criada, no seu lugar, se tivesse sentido perfeitamente aterrorizada com a mudança súbita, mais do que de funções, de vida, a Leonor esta novidade não a afectou em nada.
Dirigiu-se à cozinha, agarrou na cesta de vime e, sem espreitar o que havia ou não havia na despensa, dispôs-se a ir até ao mercado, onde só havia entrado uma vez, à procura das maçãs reinetas que tinham apetecido à Maria Benedita há umas semanas atrás.
Antes de sair, ainda deixou uma velinha acesa pela alma da cozinheira, que devia estar perdida desde o dia em que que ela abriu mais dois botões do camiseiro quando foi servir o licor no quarto ao menino Henrique e que lhe deixava o rego dos seios a saltar de fora, e pelo menino que nascera enforcado para a vida, pobre inocentezinho, nem tivera tempo de ser baptizado, e rezou três avé marias para que não andassem a atormentar depois a senhora Dona Conceição, que cada vez que se lhes referia era de formas tais que, de certeza, ia espicaçar os fantasmas a perseguí-la de noite lá por casa.
Foi assim que Leonor passou os 30 anos seguintes.
A não ver o senhor Doutor a passar levemente a mão em que tinha o anel do seu pai pelas pernas das criadas, ou a mão onde tinha a aliança a passear-se confortavelmente pelos decotes das amigas da senhora em dia de chá, sob risinhos falsamente púdicos.
A não ver a senhora a fazer desaparecer o conteúdo das garrafas de licor e a rezar duas novenas ao santo de cada dia; a não ver as criadas que chegavam e que se iam para vidas melhores bem longe dali.
A não ver a senhora mãezinha do Sr. Doutor que estava cada vez mais magra, mais vítrea, mais alheada deste mundo, mais ignorada pela família, mais entranhada em memórias de há muito muito tempo atrás, e em conversas com pessoas que já não eram deste plano, até que um dia se foi de vez, sentada na sua poltrona, na sala de visitas, como se apenas tivesse caído num dos seus sonos de passarinho.
A não ver o menino Henrique cada vez mais pálido e congestionado, cada vez mais dependente do xarope azul que um amigo lhe aconselhara, com cada vez menos apetite, nem para as canjas de galinha com hortelã que gabava a Leonor e que eram a única coisa que aceitava comer em casa, até que, um dia, se foi também, num acesso de tosse e sangue, na poltrona da avó, num dia de finados em que todas acompanharam a senhora ao cemitério para lavar e esfregar a preceito o jazigo da sua família, sem ninguém que o socorresse, nem sequer o Sr. Doutor, seu pai, nesse momento entretido no quarto do sótão com a nova copeira, que ficara em casa com uma dorzita de cabeça, nem sequer Leonor, que o amara desde o primeiro dia em que lhe baixara os olhos aos pés e ele lhe sorrira e fizera uma festa amigável na face corada, o que fez com que a sua mãe ficasse prostrada com o desgosto durante um mês e ganhasse um tique nervoso no olho esquerdo para o resto da vida, e com que Leonor perdesse por completo a fala até ao fim dos seus dias naquela casa.
Foi assim que Leonor passou os 30 anos seguintes, até que, com o último suspiro da senhora se achou sozinha no mundo e decidiu procurar um pouco de paz num lugar onde toda a gente, tal como ela, era silenciosa e não pertencia a lugar nenhum.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A Devoradora de Corações e Outras Histórias de Amor Trágicas.


Prólogo: Marmelada Vermelha.

Soror Generosa mexeu de forma suave o doce e suspirou melancolicamente. Apontou mais umas notas, olhando atentamente para o resultado da sua nova experiência, e começou a colocá-lo nas tigelas de barro com uma velha colher de madeira de nogueira que trouxera no seu enxoval, há muitos e muitos anos atrás.
Isto passara-se há já 70 anos. Soror Generosa olhou as mãos. Contava agora 85 anos de idade. A pele estava um pouco manchada e enrugada, mas podia olhar sem qualquer outra diferença para as mãos esguias e elegantes, mãos de poeta e não de cozinheira, que trazia quando tinha 15 anos e entrara para sempre, ou assim ela o julgara até à manhã de hoje, deixando para trás o nome de Francisca que usara até essa idade, uma parte pequeníssima da sua vida, e um noivo com quatro vezes a sua idade que falecera menos de uma semana antes do casamento, pelo que, apesar da tenra idade, e de o pai a ter enviado para um convento, Francisca, depois Generosa, sempre teve noção de que a vida lhe escolhera melhor o destino e lhe tinha mais amor do que o seu pai.
Mesmo assim, ficou confusa, e um pouco decepcionada, quando a vida, pelas palavras da Madre Superiora, lhe anunciara nessa manhã que, por motivo de constantes cheias e de o seu singelo convento estar em risco de ruir, um senhor abastado e benévolo decidira construir-lhes um novo convento umas dezenas de metros acima, e que estaria pronto já no próximo Outono.
Quisera ela que viesse uma cheia tão grande e tão forte que levasse tudo: a ela e ao convento e às suas dúvidas e aos seus medos, sabia ela lá do quê.
Só sabia era que tinha tido uma vida de paz e tranquilidade durante os últimos 70 anos, e que as novas da Madre Superiora lhe tinham deixado um bichinho de incerteza e desconhecido a roer no peito.


Ambrósia

Desde que me lembro, sempre gostei de comer corações.
Biscoitos em forma de coração que a minha avó comprava na loja da minha aldeia, e que o Sr. António ia buscar de um saco de papel enorme, que trazia para o pé do balcão com a balança que já lá estava desde os tempos do Sr. Agostinho, seu avô, e do Sr. Artur, seu bisavô, numa família onde é tradição os primogénitos terem todos nomes começados por “A”.
Pão doce em forma de coração, que eu ia buscar de manhã bem cedo, a correr pela rua ainda mal o dia havia nascido, para poder comer ainda quente, com a manteiga meio derretida e ainda meio sólida, a alquimia que eu não compreendia a transformar o pão e a manteiga num só.
Ameixas pretas em forma de coração, apanhadas do quintal dos meus avós nos dias quentes de Julho, vermelhas e sumarentas por dentro, quando lhes rompia a casca com os dentes.
Seriam os corações também assim doces e sumarentos, com o sumo a escorrer-me pelo queixo em lágrimas rubras que me deixavam depois a pele peganhenta?
Essa questão perseguiu-me durante muito tempo.
Comecei, primeiro, de leve, só a provar, a mordiscar suavemente, depois com mais entusiasmo e, finalmente, mais confiante, a literalmente devorar os corações com que me cruzava, como o fazia, gulosamente, com as ameixas dos Verões da minha infância.
Alguns eram doces, uns em excesso, ao ponto de enjoarem, outros ácidos, outros ainda amargos. Um trouxe o sabor do desgosto, de uma tristeza imensa, outro o gosto frenético de um amor adolescente, outro o aconchego de um amor tranquilo e caseiro, outro ainda a ânsia de um amor platónico e não correspondido.
Todos, sem excepção, eu devorava avidamente; já não me era possível controlar a minha voracidade. Ou não o queria fazer.
“Mas porquê?” - perguntava-me.
Inevitavelmente, esta pequena semente de dúvida tornou-se algo muito pior; algo que, no início, eu não sabia descrever, mas que acabei por compreender mais tarde o que era realmente: a fome do meu coração.
Por muito que a tentasse saciar, ficava sempre esse vazio cá dentro.
Percebi isso alguns anos depois, ao conhecer o Samuel, não sei se foi o inevitável a meter-me à prova, se o facto de nos cruzarmos o precipitou.
Os sentimentos, aí, confundem-se e, desde o momento exacto em que aconteceu, percebi que algo nele me dava ânsias que eu não sabia que existiam, e muito mais profundas, mais selvagens, do que aquela sensação de fome que o coração sentia antes, como se apenas o coração que ele trazia no peito a pudesse saciar na sua totalidade.
No início, no primeiro instante de todos, fiquei confusa, atordoada, como se o chão me fugisse debaixo dos pés e o ar me abandonasse os pulmões.
Porque tinhas tu de vir balançar o meu mundo tão sólido?
Nesse dia, estava tranquilamente, na sombra do pátio sul do convento, demasiado quente nos Verões, a ler um romance daqueles que acabam muito mal, coisa proibida até aqui, entre estas paredes, sentada irregularmente em cima de uma saca de forragem esquecida, no único canto fresco e, pareceu-me, nesse momento, que um gato cinzento tinha saltado o muro pelo lado derrubado, imagino que vindo de uns pátios não muitos distantes, como acontecera já várias vezes, com passos elásticos e silenciosos, e que o tinha visto, pelo canto do olho, a esgueirar-se para dentro do arbusto de rosmaninho, fixando-me, por um segundo, com os seus olhos de gato curiosos e inquiridores, no preciso momento em que levantei os olhos do meu livro e os lancei na sua direcção.
Mas, depois, percebi que não: outros olhos, igualmente inquiridores, raiados de curiosidade e de algo misterioso, olhos de gato, afinal, me fixavam silenciosamente da outra ponta do pátio, na direcção do meu olhar, arrepiando-me os cabelos do pescoço, uma asfixiante sensação de frio e afogamento numa tarde de calor sufocante.
Tão semelhantes aos do gato que acabara de cruzar o claustro, que julguei tratar-se do mesmo olhar, ou, quem sabe, não tenha existido qualquer gato, naquela tarde.
Afinal, quem diz que os animais nos escolhem porque somos um pouco deles também, não deixa de ter a sua razão, e este gato cinzento já antes se gostava de passear por este lugar, habitualmente só meu, como se fosse o seu legítimo proprietário.
Como o fazem todos os gatos, na verdade, agora que penso nisso.



2.2 - O vento que sopra na floresta e a névoa que a abraça.

O por do sol, visto do cimo da serra, costumava ser sublime, independentemente do estado meteorológico do dia. Ontem, as cores tornavam-no m...