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quarta-feira, 30 de julho de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 13 – Afinal este botão servia para quê?

 

O dia amanheceu finalmente solarengo e ameno, depois de umas longas semanas de vento frio e de chuva.
O sol brilhava suave por entre as folhas novas dos plátanos, os pardais e as andorinhas andavam num alegre rodopio, e até o Pato Jeremias resolvera sair da sua concha para vir apanhar um bocadinho de calor, esticar as asas e, quem sabe, petiscar as tostas com doce de morango do costume.
O calendário marcava o 13.
Sim, era um dia perfeito!

A propósito, este é o último capítulo.
Assim, os assíduos leitores deste blog terão pelo menos algum interesse ou, quem sabe, uma certa curiosidade ou, no mínimo, uma ligeira comichão para saber como isto “acaba”.
Não um “acabar” definitivo, como o das novelas da TVI, em que só no último capítulo se descobre quem matou o António, e tem de vir a cassete lá não sei de onde de helicóptero, e com mais aparato policial que o próprio Primeiro-Ministro.
Este é um “acabar” daqueles que pode ter continuação.
Se conseguir vender esta ideia à TVI, posso começar a ponderar a hipótese de deixar de gastar 2 € em Euromilhões cada vez que há jackpot e me lembro de ir registar o boletim.

Ora qual novela da TVI, a “Odisseia do Tacho” tem alguns finais previsíveis – como terminar toda a gente na Festa da Caldeirada da Maria Odete a comer e à porrada – e outros… que nem por isso…
Pronto, para ser simpática, também começa com uma festa!
Como não poderia deixar de ser, o casamento do Xavi Fuentes, já esquecido da Joaninha, com a Maira Casimiro, filha do Xico, o Psicopata, e afilhada da Ti Faustina, o que quer dizer que… sim, a velha senhora lá está no altar, com o traje duro e melancólico das viúvas portuguesas, sentada no seu banco de três pernas, a dar com a sua fiel bengala nas canelas do Espanhol…
Há uma diferença, porém. A Ti Faustina aderiu à moda da maquilhagem… mas não foi ainda essa a razão para a fazer tirar o buço do queixo…
Como se não bastasse esta tormenta, já o pobre Espanhol vai bem enfeitado… com o olho direito negro – ok, estou a ser branda… o olho está completamente fechado, de tão inchado… - 3 arranhadelas no lado esquerdo do pescoço, e um ligeiro coxear. As marcas do Amor…
Ao olhar com mais atenção para os convidados que limpam as lágrimas à chegada da noiva, podemos ver quem ficou com quem, que é o que se quer saber num final.
Também temos uma preferência pela forma trágica como se lixa o mau da fita, mas aqui não temos desses gajos, pelo que ficamos mesmo pelos casaizitos…
A Joaninha fica com a Marilice Esteticista.
A Marilice Esteticista é a prima do Espanhol, que veio para a ocasião, e que se reencontrou com o seu grande amor – sim, a Joaninha.
Abrem o Cabeleireiro Marilice, onde a Marilice vai colocar em prática as técnicas ancestrais de arrancar os pêlos do buço com cera quente, que aprendeu no Oriente profundo, num cabeleireiro ali para os lados de Sacavém. A Joaninha fica radiante, uma vez que não esqueceu o Bruno e ele até achou giro alinhar na rambóia.
Ao lado delas, temos o R.J., o Fanhoso, que lá se acabou por ajeitar com o Índio George, e descobriu que há mais da vida para desfrutar.
Mais atrás, o António Luís e a Débora – ele percebeu finalmente que a Débora, afinal, até é uma moça jeitosa para se levar para casa: sabe cozinhar, lavar as escadas, desentupir a pia, e ainda fazer uns biscates no carro e abrir frascos, coisa que, às vezes, lhe dava cabo da paciência, porque ele era um bocado fraco de braços, só era pena o seu buço anormalmente desenvolvido…
O Valentim, por vezes, também se junta a eles e, nos dias bons, também a Maria Odete, que revela ali mesmo que se tornou vidente depois de ver um porco numa motorizada, num ano em que foi à concentração de Faro.
O Ricardão da Oficina não veio ao casamento. Agarrou na garrafa de hélio, na ambulância e arrancou direito ao Alentejo perdido para tentar encontrar ovnis.
O Júlio Cangalheiro lá apareceu, vindo directamente do aeroporto, com as suas assistentes Jaciara, Márilin e Ivenka, mas desta vez lixou-se, porque teve de as partilhar com o Guarda Arnaldo (sempre debaixo dos olhos dos seus adorados pais, o Guarda Januário e a Sra. D. Maria dos Prazeres), e com o seu primo Marco dos Correios. Outros que não se vêm aqui são o Cláudio, o Gótico, a Giséla Sóraia, a Odete Maria e o Óscar, o Padeiro, que estão enfiados no confessionário a jogar Mikado. É que a Giséla lá descobriu um encanto qualquer no Cláudio, e a Odete Maria descobriu um extracto da conta bancária do Padeiro…
Depois do terno “Sim” dado pelos noivos, passa-se ao “Vamos lá mas é para a festa!” habitual.
O Valentim insiste em que se faça uma corrida de bicicletas, pelo que quem tem bicicleta lá se junta.
O Bruno ganha a corrida, porque ia de lambreta, e o Valentim, de acordo com a noiva, que percebe disso, “está livre de perigo, mas fora da corrida após colisão com a árvore”.

FIM

Mais ou menos…


segunda-feira, 21 de julho de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 12 – QUEM NASCE PARA LAGARTIXA, PODE REALMENTE METER UM CROCODILO NOS EIXOS

Ao longe, no ambiente aconchegante da cozinha centenária da casa, um rádio a pilhas em cima do balcão captava numa estação mais clássica e pacata um êxito do Tony de Matos.
Com um sorriso saudoso, olhando as violetas no canteiro, a Ti Faustina recordava os dias em que… bem, não era tão velha e perra, e em que os bicos de papagaio não a obrigavam a dizer mais palavrões do que o seu afilhado Xico, o psicopata da Cadriceira, nos dias bons. Nos dias maus, ele preferia arranjar maneira de enterrar alguma coisa no seu terreno…
Num breve momento de distracção, e também devido a não ver a ponta de um corno à frente do nariz, acaba por acertar com uma basta quantidade de água do regador no Tareco, que estava no degrau do quintal a apanhar um pouco de sol nestes dias frios.
Tareco não se faz rogado e recolhe às proximidades da lareira da cozinha, onde a Ti Faustina assa dois chouriços para o seu lanche, ainda do stock da Mulher dos Chouriços, de quem enviuvou o Homem do Talho há uns meses atrás.
Bem… faz-se só um pouco rogado, porque se ouriçou todo, lançou um par de bufos relativamente expressivos e largou a correr para dentro da cozinha com as unhas de fora.
A Ti Faustina tinha muito em que pensar hoje. Ia ter uma visita! A sua afilhada Maira Casimiro, filha única do seu afilhado Xico, que trabalhava no Vaticano, e que há longos anos não vinha à terra.
A Ti Faustina ainda se recordava da pequenita Maira, que ajudara a criar, de olhinhos perspicazes, compleição concentrada e língua entre os dentes enquanto fazia uma autópsia caseira a uma ratazana que trouxera do celeiro, apesar de já saber que a causa da morte tinha sido uma pedrada certeira lançada pela própria Maira… E quantas vezes não tinha contribuído com bisturis e gazuas para a sua cândida colecção de materiais de experiências… Ah, muito sossegada era aquela pequena, e silenciosa: nunca lhe dera muito trabalho.
Estava a Ti Faustina sentada no degrau, ao sol, embrenhada nas suas cogitações de pessoa muito muito idosa, quando se recorda o Tareco de fazer das suas – e lá passa ele a correr esbaforido, todo eriçado e com o pêlo a arder, vindo da cozinha, onde estivera à beira do borralho a tentar acabar a sua sesta.
“Raios partam mais’ó gato, já chamuscou o pêlo outra vez!” – pensa – “É bom que não me tenhas ido aos chouriços, senão faço de ti uma farinheira!” – grita para o quintal a Ti Faustina, levantando-se e dirigindo-se com vagar para dentro, apoiada pela bengala que já tinha sido da sua avó, Ti Balbina, enquanto a Fernanda Maria acaba o seu fado no rádio, e uma ambulância passa a alta velocidade ao portão.
Ao chegar à porta fechada da sua própria oficina, o Ricardão suspira, conformado. Sai da ambulância, que conduz em part-time, porque assim tem uma desculpa viável para meter uma abaixo e acelerar no vermelho, ou fazer as rotundas em sentido contrário, e agarra na garrafa de oxigénio, dirigindo-se à vítima de mais uma fatalidade, caída lá dentro: o António Luís...
Aproveitando o turno de serviço do Ricardão, o António Luís agarrara na Famel Zundapp do Guarda Januário, sem saber que esta estava alterada, e que tinha sido apetrechada com um escape de rendimento Marshall, e entretém-se a fazer ratters e a acelerar às voltas dentro da oficina, com a porta fechada por causa do barulho(???)...
Eventualmente, caiu para o lado, completamente intoxicado, daí o Ricardão estar agora a ministrar-lhe vigorosas doses de... oxigénio?...
Oh não, saindo à pressa, o Ricardão trocou a garrafa de oxigénio da ambulância... pela garrafa de hélio de encher os balões para o arraial!
Estava o caso mal parado, não fosse a miraculosa coincidência de ir a passar naquela altura à porta uma figura ríspida e direita como se tivesse engolido um pau de vassoura, de óculos de sol e vestida de negro, a austeridade e a rigidez em forma humana, que se apresentou com o seu cartão – “Maira Casimiro – Advogada do Diabo” – e que deu uma valente biqueirada na canela do António Luís, dizendo: “Este está curado. Vê lá se deixas as alucinações!”, ao que o António Luís singelamente respondeu:”Aaaaaaaiiii!”
Passada a tormenta, e já recomposto do trauma sofrido, logo quis António Luís apresentar a sua nova amiga aos restantes frequentadores da Sociedade Recreativa, aproveitando para ir visitar a sua musa Maria Odete, que hoje estava em dia de alheiras no forno com batatinhas a murro e que, se estivesse de bom humor, era capaz de lhe dobrar a dose de rancho, em vez da espinha, como era mais habitual.
Ora não era só o António Luís que estava a par da ementa do dia na Sociedade Recreativa, pelo que, quando lá chegou, já o Espanhol tinha aviado duas travessas daquilo, e estava, com as bochechas, o nariz e a testa completamente lambuzados, o botão das calças aberto e uma toalha de mesa com ilustrações de melancias ao pescoço a fazer de guardanapo, a limpar o resto do azeite com grandes bocados de pão caseiro, directamente da travessa já vazia.
Para piorar, lançou um monumental arroto à entrada de António Luís e de Maira Casimiro em cena....
Pois têm os assíduos leitores deste blog de ver que isto não são preparos para se apresentar a uma senhora. Não é maneira, sequer, de deixar uma boa impressão.
Mas como para estes lados, tudo corre em sentido contrário...
...foi precisamente isso que aconteceu...
Maira, perplexa e completamente apanhada de surpresa, tira lentamente os óculos para poder observar aquela pérola da natureza, enquanto o seu queixo se descai levemente, não conseguindo, no entanto, ocultar um subtil sorriso de agrado que se soubera desenhar nos seus lábios carnudos.
Xavi Fuentes limitara-se a ficar estático, não conseguindo retirar o olhar daquela beleza exótica que lhe aparecera de repente na vida. Lembrou-se então das palavras da vidente Maria Odete, há umas semanas atrás: “O Amor surgirá em breve!” (com eco...)
Bem, ainda era cedo para se pensar nessas coisas, mas lá que a cachopa era jeitosa...
Pensando isto, sorriu, limpou os beiços à toalha, arrancando-a masculamente do pescoço e, achando que não estava em condições de perder tempo, logo ali arrebanhou Maira e a beijou.
Ela deve ter pensado mais ou menos a mesma coisa, porque não fugiu. Também, comparada com o Espanhol, não tinha propriamente tamanho para isso.
Quem não se ficou pelos azeites foi uma das testemunhas deste encontro romântico e afectuoso de duas almas que se procuravam ardentemente: a Giséla Sóráia, que andava de olho na presa, isto é, no Espanhol, há já alguns dias, e num eufórico e saudável processo de galação.
Para além de ficar verdadeiramente chocada, uma vez que foi trocada, afinal, por uma amostra de gente – uma coisa baixinha, quase sem carnes, mais parecida com uma tábua de passar a ferro, mas que teve o condão de deixar o espanhol a ver tudo a andar à roda e com um sorriso parvo na cara.
“Bem, o melhor mesmo era lançar o anzol a outro peixe”, pensa, olhando pelo cantinho do olho para o Cláudio, o gótico, que estava lá no fundo a tentar descobrir com uma faca a razão pela qual a sua torrada não saia da torradeira ligada.
“Este caramelo aqui é de estouro!”, pensou Giséla.
No meio disto tudo, quem ficou a ganhar foi a Odete Maria, nomeadamente através da sua sex-shop “Paraseuparaíso”, que acabou de inaugurar a secção “mariquices para pessoas niquentas e os seus bichos de estimação parvos com'o c***”
É que a misteriosa Maira era detentora de uma ligeira perversão sado-maso... e isso precisa de alguns instrumentos específicos...Assim, ao assumir o seu súbito e assolapado romance, a Maira e o espanhol conseguem juntar o útil ao agradável: ela gosta de dar, ele gosta de levar... o casal perfeito!!





domingo, 27 de abril de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 11 – CAMPANHA DE LIBERTAÇÃO – SEXTA-FEIRA, A QUEIMA DO MAL

“Maldição, bruxedo, inveja, mau olhado, feitiçaria, praga e amarração!”
“Consultório Espiritual, Terapia on line e papéis de parede com imagens da terra santa”

Era esta a mensagem no cartaz pregado de forma bastante incoerente à porta da Sociedade Recreativa da Cadriceira nessa manhã, quando Maria Odete chegou da praça carregada com os sacos para as perdizes na caçarola que planeara para o almoço desse dia.
Ora aí estava um serão animado e colorido, para variar do animado e colorido das novelas da TVI que duravam até altas horas da madrugada, e que ela seguia fervorosamente, qual maratona de psicopatas tresloucados e vingativos.
Ao seu lado passava agora o Valentim, ainda a queimar os últimos cartuchos da noite da passagem de ano, há 8 dias atrás...
Por ter este ano ficado responsável da distribuição das prendas de Natal, por ter trocado os nomes das caixas e por as ter entregue um bocadito mais tarde – a 2 de Janeiro... – o Valentim (com a ajuda do Bruno, do Cláudio e do sempre impecável apesar de totalmente ébrio guarda Arnaldo – que apanharam uma tosga a beber copinhos de bagaço para afastar o frio) ficou demasiado entusiasmado com esta época, e começou a vê-la com novas cores, e também um bocadinho a piscar... apesar da sua preferida ainda ser o Carnaval... e os feriados todos, de um modo geral...
Por isso, anda agora a exibir umas verdadeiramente brilhantes meias de licra douradas e uns sapatos com salto agulha de 12 cm que eram para a D. Adélia, e uma t-shirt a dizer “Rudolph loves me” que se destinava à sua irmã Joaninha, “com o carinho do seu admirador secreto que se assina, Bruno”.
E mais nada!
Maria Odete, alterada, tira da sua mala o frasquinho dos sais e tenta recompor-se, mas o Valentim não lhe dá hipóteses disso, pois ao ver esta época com outras cores, reparou nas mesmo muito exíguas mini saias que a Maria Odete habitualmente usa e, ajeitando os seus caracóis no reflexo do vidro, manda todo o seu charme, assim como quem não quer a coisa...
“Já levei muita moça para a cama graças a este cabelo!” – e acha por bem acrescentar – “Elas ficavam malucas!!”
O Valentim usa aquele penteado desde meados dos anos 80, à imagem da capa do álbum de estreia de Marco Paulo, e tem sido o seu ponto forte nos engates desde essa altura.
O facto de ter o mesmo tipo de caracóis é que tem lixado a vida ao seu irmão Cláudio, cuja tendência é para o estilo gótico, que se torna... algo incompatível...
Eis que logo surge o António Luís que, topando já a jogada do seu hipotético rival (sem desconfiar dos encontros escaldantes da sua amada com o Padre Tom Cruise à hora da confissão, que a cada dia que passa se torna mais pia e frequentadora do templo sagrado...) vem armado com a sua arma infalível para derrotar tipo... rivais... – o Bruno do talho...
A ideia do nosso amigo era mesmo a de irem todos para o pinhal fazer um churrasco e assar uns chouriços da produção da Ti Faustina, que ficou como negócio da Mulher dos Chouriços, de quem o Homem do Talho enviuvou há pouco tempo, precisamente por lhe ter acertado com a faca de matar os porcos nos pontos vitais por várias vezes, de forma não intencional, é claro, coisa que ele teve alguma dificuldade em explicar ao Sr. Juiz, razão pela qual se encontra agora a cumprir pena por homicídio qualificado e teve de ceder o próspero negócio da agora não tão alegre família à Ti Faustina e à sua sócia e braço direito Ti Custódia.
O precioso e exclusivo segredo da confecção dos chouriços foi com a Mulher dos Chouriços para o Além, por ter sido apanhada meio desprevenida e não se ter lembrado ainda de apontar a receita.
O que safou o Valentim da tormenta de ser arrastado para um bacanal gastronómico foi o ter ficado a olhar hipnotizado e de boca aberta para o apelativo cartaz, o mesmo se passando com os outros.
Isto aconteceu porque se deram conta, de imediato, que aquilo era capaz de ser uma forma de divertimento bastante agradável, e ficaram com uma súbita e incontrolável vontade de ir para lá a correr.
E foi isso o que aconteceu!
O Bruno, sempre acompanhado da sua lambreta, deu boleia à Maria Odete e às perdizes, mas depois achou por bem voltar atrás e encaixar também lá o Valentim, que manifestava algumas dificuldades de locomoção apetrechado com os sapatos de salto agulha de 12 cm e que até nem se importou de ir com os calcanhares meio a arrastar pelo cascalho.
Chegados a uma barraca colorida plantada no meio do parque, não tiveram dificuldade em se sentir ambientados, até porque os habitantes da Cadriceira em peso estavam todos por lá… sim, até o Padre – agarrado a duas jovens militantes.
A festa até foi animada – entraram em diversas actividades, havia bebidas à descrição, animadoras jeitosas de roupas reduzidas, em suma, divertiram-se imenso... e estão a pensar em repetir...
Mas, provavelmente, os gajos da I...D vão riscar a Cadriceira do mapa deles, na certeza de que nunca vão ser capazes de salvar almas ali – apesar de o pastor Nilton de Azevedo ter ponderado ficar por lá e abrir uma filial, verdadeiramente impressionado com os apêndices mamários da Giséla Sóráia e com o seu reduzido decote...


PS – Eu gostava de ser assim brutalmente criativa, mas devo confessar que, desta vez, a IURD passou-me à frente... Isto para explicar que o parágrafo inicial é uma transcrição do site dos senhores... ;)





sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 10 – COM QUANTAS FITAS SE FAZ UM CAMPO DA BOLA

Domingo à tarde no campo da bola da Cadriceira, que se situa mesmo ao lado da Sociedade Recreativa. De terra batida, com umas fitas de “Crime scene – do not cross”, desviadas de algum lado pelo guarda Arnaldo, de forma pouco legal, à volta, para limitar o espaço de acção do público, o campo da bola da Cadriceira era palco, além dos jogos de futebol, de garraiadas, largadas de vacas bravas, arraiais, bebedeiras, strips gratuitos interpretados pelo Valentim depois de passar por um qualquer lugar que vendesse álcool, ou depois de comer meia dúzia de Mon Cherries (sim, porque ao Valentim bastava pouco para o levar à loucura), enrolanços da Giséla Sóraia, engates do Índio George e outras coisas afins...

Hoje à tarde, porém, procedia-se àquilo para que era suposto servir o campo – a um jogo de futebol. Desta feita, opunham-se o SCUC – Sport Clube União da Cadriceira – e o FCO – Futebol Clube da Ordasqueira.
A multidão rodeava já a empoeirada cena de acção – uns debaixo das árvores, outros com guarda-sóis, outros com uma garrafita para acalmar o pó na garganta, os jogadores aqueciam, o árbitro saía detrás da roulote onde estivera com a Giséla Sóraia, sacudindo o pó da batina e ajeitando o colarinho... Notava-se de forma flagrante a falta da D. Adélia (de lua de mel com o Adérito, nas Maldivas, no mesmo hotel que o Tom Cruise e a Katie Holmes, que casada não é morta...).
O alinhamento da equipa da casa era, como habitualmente, o Óscar, o Padeiro, o Índio George na retaguarda (pois…), o Bruno do Talho, o guarda Arnaldo, R.J., o Fanhoso, o Valentim, ponta de lança, Mister, apara-relva, Director Desportivo, Director da SAD, Tesoureiro do clube e técnico de higiene dos balneários, o António Luís, exímio com o pé esquerdo, mas uma nódoa com o direito, razão pela qual nunca lhe era passado o esférico, o Cláudio, o gótico, irmão da Joaninha e do Valentim, o Xavi Fuentes, que exerce também a função de corrector de apostas e de caloteiro em geral, o Abílio da roulote das bifanas (com mesa de mistura, bola de espelhos e show de Miss T-shirt molhada), o rei da noites da Cadriceira, primo da Giséla Sóraia, que na hora do jogo assegura o funcionamento do negócio, aviando couratos e minis aos embasbacados que se babam para as bifanas e para o seu decote, e, por falta de pessoal válido, o guarda Januário, pai do guarda Arnaldo e agente da ordem na reforma, a assegurar a defesa das traves da equipa. Regra geral, acompanhado de uma Kalashnikov do mercado negro e de uma bazuca aperfeiçoada por ele próprio…
Já a equipa vinda da Ordasqueira na Vanette caquéctica da Sociedade Filarmónica, era composta por: Argolas, Gaspar, Petarda, Frufru, Pirolito, Franquelim, Zé Manel, Boi, Ginjas, Faneca e Maria Otília na baliza, derivado de na aldeia não existir mais nenhum homem com capacidade de se aguentar nas duas pernas sem o apoio de uma bengala, andarilho ou açaime.
...e o Padre era o árbitro, pois quem mais imparcial do que o representante de Deus na Terra…
… apesar de estar distraído como decote da Giséla Sóraia e com a mini-saia da Débora (que, apesar de até há bem pouco tempo ter sido gajo, tinha uns presuntos como deve ser) e de ter deixado escapar mais faltas neste jogo do que o Olegário Benquerança para aí na primeira parte do Benfica-Porto…
Mas, infelizmente, como isto nem sempre corre de acordo com o previsto...
...o Valentim lembrou-se de levar a vaca brava da garraiada… e como isso aconteceu depois de passar pela roulote dos coiratos do Abílio e de ter bebido umas 2 minis fresquinhas e um shot verde-alface a deitar fumo, acabou por, demasiado entusiasmado como quase golo que marcou, se enrolar na corda com que a trazia presa e, agarrado à bichinha, que acelerou para fora dali, arrancou a pele ao ser arrastado pelos costados pela areia do campo da bola fora…
...Nada de fora do normal, naquelas paragens...
No final, o resultado do jogo ficou por… com o quase golo do Valentim…zero a zero, e como acabou assim a modos que antes do previsto devido ao incidente do Valentim com a vaca, como de resto já era habitual em todos os ajuntamentos que se realizam na Cadriceira, debandou tudo para a roulote do Abílio, onde a sua prima Giséla Sóraia se entretia agora a fazer equilibrismo com os pratos e os seus avantajados apêndices mamários como vira fazer num circo chinês, na televisão, depois de ter comido um Calipo de limão adoptando as poses da Alexandra Lencastre na Caras da semana passada enquanto, ao mesmo tempo, assava bifanas, teclados e entremeada.…o que levara o Padre Tóm Cruije ao desvario, e que o fizera mandar o António Luís para a rua com um vermelho directo aos 34 minutos da primeira parte, apesar de este já não tocar na bola desde que tinha 12 anos de idade…



(Semana 7 de 2025)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 9 – E FORMOSA VAI A NOIVA...


Desde bem cedo na madrugada se ouve da casa de Maria Odete o martelar furioso dos dardos na grossa porta de madeira.
Maria Odete tem como vício, desde há longos anos, para descomprimir os nervos, atirar dardos venenosos a um poster de tamanho real da Dina que ela tem na porta da arrecadação. Desde o Festival da Canção de 92, em que Maria Odete participou, e que foi ganho pela Dina com aquela do “Peguei trinquei e meti-te na cesta...”, que Maria Odete nutre e acarinha um ódio visceral à cantora, não podendo sequer ouvir falar no seu nome sem ter um súbito e arrasador ataque de urticária...
Quando isto acontece, algo não vai bem na vida de Maria Odete...
... e era este, precisamente, o caso. Maria Odete tivera, tarde nessa noite, uma coisa que se poderia designar por um marcante “encontro imediato em 8º grau”, com o novo padre, nas traseiras da loja de Odete Maria, sua companheira de placenta, quando foi lá espreitar para ver se dava conta do paradeiro do António Luís, que há uns dias não lhe punha a vista em cima.
Ora, aqui, parece-me que vamos ter de fazer uma retrospectiva...
Maria Odete e Odete Maria não nasceram na Cadriceira. Não passaram a infância a trepar as árvores nos cabeços nem a roubar laranjas no pomar do Xico, o psicopata da Cadriceira, e nem uma adolescência parada no tempo.
Não. Estas nossas amigas surgiram de forma misteriosa na Cadriceira, há alguns anos, vindas de uma aldeia semelhante em Viseu onde faziam mais ou menos a mesma coisa e, devido ao seu carácter essencialmente rústico, depressa se integraram no frufru do dia a dia.
No entanto, nunca nada se soube da sua vida anterior. Até hoje. Maria Odete não poderá esconder mais o que a perturba no seu afinal obscuro passado – um romance com o jovem e sedutor padre da aldeia que a viu nascer.
Mas também, se todas as moçoilas tivessem abandonado a sua vida depois de andar às cambalhotas com o padre, hoje Corvos à Nogueira estaria às moscas...
Isto porque António Cruz, conhecido como Tom Cruz (lê-se Tóme Cruije), além do tórrido romance que teve com a bela e fogosa Maria Odete, manteve, ao mesmo tempo, outros... – com a sua irmã gémea Odete Maria, com a prima Alzira, com a Arminda da peixaria, com a Hipólita Frígida da contabilidade, que depois desta aventura passou a usar lentes de contacto, a optar por mini-saias, decotes até aos fundilhos e por tons vermelhos em geral...
Ora devem-se agora perguntar, curiosos, os assíduos leitores desta “Odisseia do Tacho”: “Mas o que raio tem isto a ver com a história?”
Pois bem, o Padre Frederico, que presidira já ao velório da D. Adélia, desaparecera/fugira/eclipsara-se misteriosamente... de novo..., pelo que foi necessário solicitar outro emissário do Senhor, de um modo geral, para as ovelhas da Cadriceira não se deixarem tresmalhar e, de um modo mais específico, para realizar uma cerimónia finalmente à beira de se concretizar – o casamento da D. Adélia... aos 72 anos, depois de ter ficado noiva mais de 20 vezes...
O feliz noivo, a horas de conseguir este feito ainda inatingido, era o pensionista do andarilho. Também conhecido por Adérito, e famoso pelas suas malhas aos ferrinhos, nas actuações do Rancho Folclórico da Sociedade Recreativa da Cadriceira.


“O que eu mais gosto do Xico
É que ele já não é vivo”

A cerimónia tem início com uma marcha nupcial composta pela própria noiva, em homenagem ao seu primo Xico, o serial killer da Cadriceira nos anos 70, que faleceu há muitos anos atrás, pensa-se, com um ataque de lombrigas. É que ele foi para o hospital distrital e nunca regressou... Acabou por se tornar numa Lenda Urbana...
Baseada num poema calorosamente estimado por ela, é entoada à capella pelos acólitos Messias e Bráulio, que acompanham a cerimónia, com a parceria do Bruno do talho ao órgão.
Mas como nem tudo são rosas... o noivo tinha a seu lado a Ti Faustina, a minutos de se tornar a sua sogra...
Ti Faustina, uma peculiar idosa de 90 anos, mãe da D. Adélia. Uma velhota mirrada que nem uma noz e enrugada que nem uma passa, que assiste ao casório sentada num velho banco de 3 pés, mesmo ao lado do noivo, para o poder açoitar vigorosamente com a sua bengala de madeira de carvalho à vontade, ao som de expressões lúcidas tipo: “Vê lá se atinas, seu moinante!”, ou “Olha lá o que fazes, seu vadio, que eu estou a espreitar-te!”.
A típica viúva portuguesa – pequena, de aspecto frágil, sempre trajada de negro, com o seu inseparável lenço na cabeça, o seu xaile nas costas, também negros, e da sua mortífera bengala.
Completamente desdentada, com buço até ao queixo e uns olhos pequeninos, alterna o seu tempo entre as actividades da igreja com as outras beatas, e o carpir a viuvez no cemitério, com as outras beatas...
Acompanhada da sua irmã e braço direito desde há 93 anos, a Ti Custódia (fisicamente muito parecida, a esta altura do campeonato...), a Ti Faustina gere um ramo de negócios obscuros, tendo como sequazes o Xavi Fuentes e o Don Corleone, e metendo à pala de um nome fictício – Floribella Hardcore – vários produtos de grande procura na loja da Odete Maria, “Paraseuparaíso”, que agora, além de sex-shop, abriu a secção de congelados e de produtos esotéricos.
Bem lá correu tudo de acordo com o previsto... excepto a festa... porque o novo padre voltou a cair em tentação... e desenvolveu um escaldante romance novamente com Maria Odete... e também com a Odete Maria, com a Débora, com a Giséla Sóraia...




(Semana 6 de 2025)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 8 – “NÃO VÁS AO MAR, TÓINO...”

Hoje, mais uma vez, é dia de arraial na Cadriceira!
Todos os últimos fins-de-semana de Setembro, mais coisa menos coisa, dependendo de como correram as coisas na procissão e do número de habitantes da aldeia ainda com capacidade de andar, desde há 22 anos para cá (ou seja, começou como uma celebração algo tardia do 25 se Abril de 1974...), procede-se ao chamado “Carnaval de Fim da Colheitas”, que se celebra... precisamente... depois de acabar a apanha das peras, das maçãs e da vindima nas pequenas hortas dos habitantes da aldeia.
A preparação desta festa, que começa com o desfile planeado e interpretado pelos habitantes, e que é seguido da actuação do Rancho Folclórico da Sociedade Recreativa da Cadriceira e por um arraial festivo no parque de merendas junto da mesma, é mantida por todos no mais completo segredo, uma vez que toda a gente quer surpreender o seu vizinho.
Por vezes, as festas são tão vistosas, que aparecem até nos jornais das cidades e vilas em redor. ...regra geral, por causa do desastroso aparato do fogo de artifício nas mãos do R.J., o Fanhoso atestado de sangria, pelas serubas algo ilegais do Índio George, ou pelo elevado número de pessoas que vai passar uns dias ao hospital mais próximo, depois da participação nas diversas modalidades da festa.
Na véspera do Carnaval, o ambiente geral é de grande tensão – Maria Odete previra a queda de um muro em Berlim e a do Fidel Castro ao mesmo tempo que despejara metade do frasco de gindungo angolano na caldeirada, o que coloriu alegremente a vida das pessoas que foram almoçar à Sociedade Recreativa nesse dia, enquanto a sua irmã gémea, Odete Maria, carregou demasiado uma pequena máquina de eléctrodos para uso doméstico e acabou por ter de mandar um guarda Arnaldo de tutu algo aflito e afogueado para Centro de Saúde de urgência.
Toda a gente sentia os nervos à flor da pele...

Já refeito do susto, mas ainda não totalmente convencido, o Bruno do talho apura a voz no dueto com a D. Adélia, que não se cansa de lançar olhares ardentes e insinuantes ao pensionista do andarilho, o exímio tocador de ferrinhos no rancho. Por via das dúvidas, o Bruno trouxe a faca do entrecosto, que esconde entre as folhas com as letras das músicas do ensaio dessa tarde...

Às 6h em ponto arranca o desfile de máscaras e disfarces, que até correu de feição, o que se deveu ao facto de ser a primeira parte da celebração e de ainda estar toda a gente algo nervosa. A partir do meio do desfile – ou seja, à passagem pelo edifício da Sociedade Recreativa – é que as coisas começaram a desviar-se do seu centro, e as pessoas a encaminhar-se decididamente ao lugar habitual... onde começou logo ali, sem qualquer cerimónia, a parte final da festa misturada com o arraial e a actuação do Rancho...
Entretanto, chegou o Valentim, irmão da Joaninha das Autópsias e do Cláudio, o Gótico, viciado em vacadas, que saiu do hospital, onde foi passar a noite (com o relatório clínico de coma alcoólico e de duas costelas partidas), ainda meio bambo, depois de lá ter ido parar por ter ido para a largada na festa da Ordasqueira com uma grande tosga e de ter levado uma marrada de uma bezerra, e que está a pensar em ir outra vez, depois de meter para dentro uns dois ou três bagaços, para ver se ainda apanha a parte das vacas bravas...
Mas a festa até estava agradável e o Valentim lá foi vestir a primeira coisa que lhe passou pelas mãos – que foi um disfarce de mulher fácil, com o seu sempre presente telemóvel pendurado ao pescoço... - e depois de andar a tarde toda a beber uns shots experimentais do Índio George, acabou por se fazer ao António Luís que, provavelmente por lhe ter feito companhia nos shots, não se apercebeu da cabeleira longa de caracóis louros meio caída para trás, de uma mama obviamente mais abaixo que a outra, da barba de 4 dias... e nem do bocado de caldo verde ainda pendente do seu basto bigode à moda do Chalana.
Já o incorruptível guarda Januário andava a fazer a ronda – sim, que ele nunca perdera o hábito – armado com a sua caçadeira de dois canos alterada e com os seus poderosos cartuchos de fabrico artesanal – que há alterações que ele gostaria de incluir na profissão mas que não o deixaram, pelo que ele aproveita a reforma para as fazer – e já com um nível de imperial demasiado elevado no sangue para o que seria desejável – porque há hábitos que se criam... – quando dá com o Cláudio agarrado a uma bilha de Petromax, com um saco de plástico numa montagem que lhe provoca umas risadas parvas a ele e ao espanhol, enquanto o cão Piruças se mantém hirto e com uma firmeza de tropa ao pé do seu dono, já com os chinelos de Fonseca nos dentes, e o Ricardão da oficina a ensinar a Giséla Sóráia a apanhar moscas com os pauzinhos chineses...
E a noite acaba com todos a comer uma travessa gigantesca de peixe frito feita pela Maria Odete, que está inspirada e até de bom humor, pelo que, uma vez que não tem vontade de matar ninguém, até lhes faz este mimo, e sem ninguém se encanitar com o vizinho do lado, o que traz alguma variedade às festas da terra.



(Semana 5 de 2025)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 7 – SEXTA FEIRA 13

Uma escuridão profunda e húmida – era tudo o que a vista do Bruno alcançava naquele momento.
Ainda meio atordoado por causa da dose excessiva de sangria e Brandymel da noite anterior e por ter tropeçado em sabe-se lá o quê, ao Bruno do Talho parecia-lhe ainda ouvir a voz de soprano do Cláudio, o gótico, a ecoar estridentemente no seu cérebro.
Talvez fosse melhor voltar a adormecer...

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O amanhecer surgiu, límpido e luminoso, pelo quintal da Maria dos Prazeres dentro. Enquanto a pensionista apanhava, distraída, uns figos gordos e venenosamente doces para o pequeno-almoço, não reparou no seu marido, o guarda Januário, que corria porta fora com um televisor a arder refugiado nos seus braços...
... e nem no espanhol encostado ao pessegueiro com uma garrafa de 1920 vazia nas mãos e uma de Macieira entre as pernas, nem no Cláudio adormecido encostado à Floribella, a cabra que gostava que lhe dessem alfarroba à boca, que isto as sobrinhas é que lhe escolheram o nome para a bichinha, nem no R.J., o Fanhoso caído de cara entre as alfaces, nem no António Luís enrolado no canteiro dos tomateiros... e nem numa das botas do Bruno caída junto ao poço aberto...

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Eram já 4 da tarde quando o guarda Arnaldo saiu debaixo do tanque, onde se refugiara, para a sua mãe não dar com ele. É que seria demasiado humilhante para a sua condição de agente da autoridade ser apanhado bêbado e levar uma sova em frente dos amigos... isto se o pai não se apercebesse...
Se o guarda Januário adivinhasse que o seu perfeito e incorruptível filho único andava para aí a gastar a juventude em bebedeiras, era bem capaz de lhe arranjar uma nova casa... no cemitério...
Sim, porque o guarda Januário, que já não era agente da ordem coisa nenhuma, era um reformado que se entretia com a horta e com o seu macabro hobby.
O guarda Januário, viajado em muitas missões de risco e com uma folha de serviços brilhante e inspiradora, era tarado por armas e afins.
O sótão da casa estava atafulhado de coisas assustadoras como carabinas experimentais, bazucas duvidosas trazidas por amigos ainda mais duvidosos, lança-chamas, magnuns (e não são os gelados, garanto-vos!!), e uma autêntica fábrica de produção de cartuchos caseiros!
A preocupação desviante com a segurança inspirou-o até a encher todas as janelas da casa com grades de prisão de alta segurança. Daí o seu problema com a televisão. Que coisa melhor para uma televisão que faz curto-circuito e entra em chamas, do que uma janela aberta mesmo ali à mão??
Foi então que deu conta da bota ao pé do poço... e previu o pior!!
...sim, era o que ele pensava – o Bruno tinha caído ao velho poço, baixo, não mais que a altura da Maria Vieira, e com meio palmo de água, nos dias de hoje, quiçá numa tentativa de se esquivar da D. Adélia, ignorando o seu escaldante e geriático romance com o pensionista do andarilho.
O guarda Arnaldo, sabendo que não era possível descalçar aquela bota sozinho (passe a expressão...), chamou por socorro, e logo ali foi atendido – por quem ainda estava caído pelos cantos do jardim, pelo Índio George e pelo Ricardão da oficina que saíram esgazeados de dentro da barraca das ferragens a segurar as calças com uma mão e com o outro braço no ar,… e pelo guarda Januário, que alvitrou logo: “Vamos fazer uma investigação!”... que não foi muito longa, pois percebeu-se logo onde estava o Bruno.
A questão agora era como o fazer sair... pois, porque ele ferrou pé e não havia quem o convencesse a espreitar cá para fora...
Choveram sugestões de todo o lado, que foram prontamente postas em prática – menos a ideia do vingativo espanhol, que queria fazê-lo sair com fumo, acendendo uma fogueira no carrinho de mão e atirando tudo para dentro do poço, certamente ainda não esquecido da atenção da Joaninha, que tinha de partilhar com a vítima.
Com isto tudo já eram quase 9 da noite e ninguém metia nada para o estômago desde a noite anterior, excepto o guarda Januário, que tinha ficado com soltura o dia todo por causa de uns figos que comera ao pequeno-almoço e, a esta altura do campeonato, já temos lá em baixo, além do Bruno, o R.J., o guarda Arnaldo, o Xavi Fuentes, o Ricardão, o Índio George, o António Luís, o guarda Januário, duas cordas, um escadote de madeira, uma caçadeira de dois canos, um estojo de primeiros socorros e a Débora vestida de enfermeira de mini-saia, enquanto a D. Maria dos Prazeres está calmamente sentada no alpendre a ler o “Código de Avintes” com o gato Gatilho aos pés.
E, desta vez, quem salva a situação, é a Giséla Sóráia, que lembra que podem chamar os Bombeiros.
E foram todos jantar chocos fritos à casa da Maria Odete!!





Semana 4 de 2025

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Odisseia do Tacho 2006 - CAPÍTULO 6 – QUEM MORA AO LADO

Aviso à navegação que ainda aqui anda perdida em 2025:

Andava para aqui em arrumações e percebi que a Odisseia do Tacho, que tinha estreado no blog em 2006 (a primeira blog-novela, mas não a última, porque fiz mais outras…) e que ficou arrumada em 2009, quando o desliguei (requiescat in pace), ainda não estava na sua totalidade aqui, no blog ressuscitado.

Assim, para variar um bocado destas destas ideias doidas que me passam pela cabeça no meio do Inverno, vou meter aqui os restantes episódios (em suaves prestações), sem edições, acrescentos, alterações ou actualizações à época em que vivemos, uma coisa que podemos considerar “vintage”, ou “isto agora era tudo censurado” (muito, mas mesmo muito provavelmente), ou “nesta altura eu não tinha filhos, e muito menos juízo” (espera, também ainda não tenho juízo).

Nesta altura, também tinham muito mais tempo para escrever, porque levava com umas quantas horas de CP do Cartaxo (essa metrópole alcoólica) para Lisboa (basicamente turistas e imperiais) e vice-versa, mais um mini-autocarro cheio de pensionistas animadas e à beira da morte e cheias de enfermidades ao mesmo tempo, de Santa Apolónia para a Graça e vice-versa, e agora, valha-nos Deus, ando com o caderno cheio de post-its amarelos lá do trabalho e escrevo enquanto estou à espera que acabe a aula de natação ou um evento qualquer da agitada vida social dos meus filhos (muito mais borbulhante que a minha).

Por isso, considerem-se avisados, e divirtam-se!

Afinal, talvez tenham de levar com histórias mais desorientadas da caixa dos parafusos do que o habitual, mas é o que temos.



CAPÍTULO 6 – QUEM MORA AO LADO


Noite de Lua Cheia na Cadriceira.
Ao longe, ouve-se o uivo solitário de um cão vadio.
O edifício da Sociedade Recreativa flutua na escuridão...
...sim, depois de varrerem uma tachada de pipis feita pela mão habilidosa do Índio George (...pois...), acompanhada de pão caseiro quente a sair do forno e umas imperiais frescas à maneira, a malta pesada da Cadriceira aproveitou este momento de calmaria para ver o filme “I’ll see you in my dreams”, trazido pelo Cláudio, o gótico, irmão da Joaninha das Autópsias, um rapaz magricela, que usa aquelas calças pretas esterlicadas, vive de noite e pensa que é vampiro. A sua carapinha acentuadamente MarcoPauliana é que não é da mesma opinião, infelizmente...
Ora estava já toda a gente assim meio acagaçada e atenta ao mínimo ruído ou movimento, que se tornavam mais evidentes com os singelos cálices de Vinho do Porto que já tinham entrado nos organismos, quando o Índio George aproveita para ir com o Ricardão da oficina, que come tudo o que mexe, é uma fatalidade, enroscar-se carinhosamente para o wc de serviço.
Eis senão quando vêm os dois a correr lá de dentro, esbaforidos e de calças na mão, perseguidos por uma criatura negra de olhos brilhantes a alta velocidade e a grunhir de forma furiosa... era Eusébio, o suíno Triturador-Aspirador, que fugiu de forma misteriosa da sua barraca no quintal dos pais do guarda Arnaldo, onde estava a ser vigorosamente engordado para uma valente patuscada, e que provoca um monumental cagaço em quem estava na sombria sala da Sociedade Recreativa...
Completamente transtornado, a fugir do edifício pela porta principal a correr à frente da D. Adélia como se tivesse o Encapuçado da Gadanha atrás dele de patins em linha, o Bruno do Talho vomita mesmo em cima dos pés do Júlio Cangalheiro, que ia a entrar acompanhado da Tatiana, da Irina e da Neide Elizete.
O Xavi Fuentes, que mora perto e que já vê tudo a andar à roda, opta por se dirigir a casa na posição “de gatas pela calçada abaixo”.
O guarda Arnaldo, sempre composto, não revela o mínimo indício de estar na fase mais próxima do coma alcoólico.
O pensionista do andarilho ainda andou agarrado ao Índio George, porque entretanto já tinha perdido o andarilho. Quem o arrecadou foi o Ricardão, porque acha que aquilo ainda pode dar jeito para o arranjo do SLK da D. Adélia, que ele lá tem na oficina com a buzina enguiçada.
Bem, para dizer a verdade, o resto do pessoal ficou a recuperar forças encostado ao balcão, ou a um dos pinheiros em redor da Sociedade Recreativa, enquanto o Eusébio se enroscou finalmente para uma soneca ao pé das grades de Sagres, escuro como uma sombra, e perfeitamente camuflado naquele canto.
Já cá fora, o R.J., o Fanhoso, com o fresco da noite, tem a brilhante ideia de ir cantar uma serenata à janela da Odete Maria, e logo ali foi acompanhado pelo Cláudio, o Índio George, o António Luís, o guarda Arnaldo, o pensionista do andarilho, o espanhol, o Bruno, todos atestados de imperial, amêndoa amarga, brandymel e sabe-se lá mais o quê, que acharam esta a melhor ideia desde os soutiens com almofadinhas.
Ao som de “Uptown Girl” em tons algo desordenados, a D. Adélia acerca-se à varanda, deslumbrada, convencida que, desta vez, o Bruno é seu... porque os nossos amigos se enganaram e, em vez de ir para a frente da casa da musa do R.J., branca com cortinas azuis e vasos de sardinheiras coloridas na varanda, dirigem-se resolutos para a casa da D. Adélia, um mamarracho com azulejos de casa de banho verde fundo de garrafão, típicos dos anos 60, do lado oposto da rua...
Farto de tanta emoção contrariada e de tanta energia gasta em equívocos – e ajudado por uns quantos graus de Brandymel no sangue, o pensionista, mandando a busca do andarilho às de vila-diogo, encurrala a D. Adélia (agora numa perseguição ainda mais cerrada ao Bruno do Talho) naquela viela ao pé do centro de Saúde, e beija-a o mais loucamente que lhe permite a sua dentadura solta!
E acaba-se o assunto por aqui!! Irra!!




(Semana 3 de 2025)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Odisseia do Tacho 2006 - Capítulo 5.


CAPÍTULO 5 – O INSTINTO É UMA COISA FATAL.

“Com quem estou a falar?”
A voz no outro lado da linha e o timbre levemente ácido não deixavam margem para dúvida. Apesar de nunca se identificar e de fazer perguntas como se fosse um interrogador/torturador da Pide, já toda a gente na Cadriceira conseguia saber que era a D. Adélia quando ela telefonava – até Natasha, a escultural partenaire/assistente ucraniana do Júlio Cangalheiro, que só falava meia dúzia de palavras em Português, ainda por cima consagradas à sua área de trabalho.
Odete Maria apontou calmamente a encomenda de um chicote novo, 2 pares de algemas com penugem rosa choque da marca Floribella Hardcore e uma lingerie especial modelo Pamela Anderson com almofadões no soutien – medida “seios extremamente flácidos”, que tinha chegado na remessa nova, enquanto deitava o olho ao António Luís, que viera saber do paradeiro do Bruno do talho, mas que ficara, um bocado contra a sua vontade, para um cházito e uma sessão de tortura amarrado a uma cadeira com uma corda daquelas grossas e dolorosas que se usam nas traineiras.
Há já alguns dias que a D. Adélia andava sossegada – ela, que quando não andava a gastar litros de água oxigenada na banheira para aloirar mais o cabelo e intoxicar o organismo, se entretinha a rondar tudo o que mexia e que conseguisse agarrar, enquanto se fingia distraída a regar o jardim ou a dar o comer aos pintos.
Coincidentemente, pensou Odete Maria, fazendo rapidamente as contas de cabeça, desde a mesma altura em que se dera pela falta do Bruno...
Ora aí estava um caso que poderia interessar a sua irmã, a mulher que tudo vê... menos o seu pseudo-namorado amarrado a uma cadeira num quarto estreito lá de casa pela sua própria irmã...
Deixando o António Luís a pensar na vida enquanto ia perdendo a sensibilidade das mãos e dos pés, Odete Maria acelerava o passo em direcção à Sociedade Recreativa.
Encontra a Maria Odete a braços com um pequeno problema de cariz profissional – Giséla Sóráia chorava inconsolavelmente o seu arrasador destino, depois da leitura dos búzios – o Índio George nunca será dela, apesar de ela o tentar convencer, por todos os meios, a voltar para o lado certo, mesmo depois de quase o ter convertido para aí umas 4... não... 5 vezes nessa noite – aquela empoleirada no lavatório também conta...
Nem foi preciso Maria Odete arranjar uma desculpa esfarrapada para meter a chorosa e ranhosa Giséla Sóráia a andar – logo ali passava um helicóptero das Forças Armadas, conduzido pela singela Joaninha das Autópsias, que andava a tirar o curso de piloto e que durante uma aula de treino passou – por acaso, é claro – ao quintal da D. Adélia, onde conseguiu avistar a figura trémula do Bruno completamente anestesiado e subjugado, e que conseguiu socorrê-lo, montando ela própria uma arriscada porém eficaz missão de resgate.
O caso estava resolvido!!
Apesar de pensar que tinha sido raptado por seres de outro planeta como julgava – principalmente naquela parte em que se sentiu subjugado pela sonda anal - o Bruno do talho, objecto dos afectos, da atenção e das psicoses da D. Adélia que, bem vistas as coisas, ainda chegava a ser prima do serial killer da Cadriceira famoso nos Anos 70 e que andava com vontade de petiscar carninha fresca, havia sido vítima de uma cabala montada pela própria D. Adélia e por um misterioso homem contratado por ela...
... Conhecido como o “Perigoso e Assustador Pensionista do Andarilho”...
...um homem que a D. Adélia conhecera muito bem no seu obscuro passado e que era um profissional nos anos 50, mas que agora não passa de um... assustador pensionista... num andarilho... mas ele também ainda não se convenceu disso...
Ficou toda a gente pasma com esta aventura do Bruno do Talho, ainda meio atordoado, enquanto iam degustando um churrasco ao ar livre no pinhal ao pé da sociedade Recreativa, e molhando o bico num tal de vinho frizante gaseificado, que começava a deixar as pessoas assim mais levezinhas, porque estava calor e aquilo até escorregava bem...
Entretanto, Maria Odete, já cheia de pedalada e de sangria, começa a cantar um fado do Alfredo Marceneiro numa versão composta e interpretada por ela quando pensou que ia ao Festival da Canção de 92, o que faz com que o R.J., o Fanhoso, emocionado, caía do banco e entale as partes nas cuecas fio dental adquiridas na loja da Odete Maria, facto que ele logo ali revelou, adjectivando as ditas cuecas com uma data de nomes menos próprios...
Lançando ao R.J. o Fanhoso um olhar furibundo, Odete Maria saca da chinela holandesa de madeira que tinha no pé e lança-se a ele, ofendida na sua virtude. A irmã não se fica atrás, e aproveita para meter o pé no nariz do Índio George, que tem quase 2 metros de altura, enquanto a Joaninha se descontrai e dá com pote da água na tromba do Bruno, roída de ciúmes de pensar que ele se andava a meter com a D. Adélia, e Xavi Fuentes preparava-se já para arremessar o cutelo que trazia para o que desse e viesse à Maria Odete, que já não a podia ouvir, quando o Pato Jeremias, ajeitando com a asa o seu risco branco no meio da cabeça, informa:
“A radiografia da cabeça do Santo do Painel do Infante não apresenta sinais de qualquer modificação na execução pictural da sua fisionomia. O modo como se revela uma modificação desse tipo, através da documentação radiográfica, é aliás bem evidente no caso do personagem que, no mesmo painel, se situa entre o Santo e a figurão do chapeirão.”
Na posição mortalmente estática e silenciosamente avassaladora em que ficaram os nossos personagens, apenas o Bruno consegue exclamar:
“Raios partam os patos!! Sabem tudo! O instinto é uma coisa fatal!”E voltou toda a gente à sua vida normal.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Odisseia do Tacho 2006 - Capítulo 4.

CAPÍTULO 4 – À MEIA-NOITE, O SINO DA IGREJA TOCA SEMPRE DUAS VEZES

O calor abrasador prendia as pessoas dentro de casa – com as suas ventoinhas ligadas ou, em certos casos, os seus potentes e eficazes ar condicionados, a vegetar em frente à televisão com um copo contendo mais gelo que Tang, em estado comatoso dentro das suas banheiras cheias até acima com água fria. 
Ao fim do dia, na Sociedade Recreativa, jogava-se ao strip poker e comia-se salada de polvo, que era fresca e escorregava bem com a imperial geladinha.
Meia-noite em ponto, e o sino toca.
“Que curioso!”, comenta a D. Adélia, já só de combinação, “Nunca tinha reparado que, à meia-noite, o sino da Igreja toca sempre duas vezes!”
Repentinamente, esbugalha os olhos de forma absurdamente anormal, solta um esgar de sufoco e PUMBA! Cai para o lado, novamente de perna aberta! Assim, sem mais!
Os outros jogadores, estupefactos e estáticos com as cartas na mão – o espanhol a tirar discretamente um ás de espadas do bolso das calças – nem sabem como reagir. Maria Odete, surgindo na porta da cozinha a cada 10 minutos para espreitar as novidades, é a única que consegue ter a noção da realidade: “É melhor chamar o cangalheiro.”
O Índio George concorda logo e dirige-se aos pulinhos para a casa de banho, para retocar os seus longos cabelos negros.
Com um telefonema apenas, surge Júlio, o cangalheiro. Também conhecido por ganhar sempre os prémios de rapaz mais giraço do liceu e o de crânio a Matemática, Português, História, Filosofia, Literatura e Geografia. Hoje em dia, divide a profissão de cangalheiro com um part-time como angariador de bailarinas exóticas no estrangeiro. Que é como quem diz no Brasil, onde vai em trabalho/férias 4 a 5 vezes por ano. 
Por vezes, em vez de sair Júlio, sai Xúlio, e foi assim que os Pedaços de Noz conseguiram o seu primeiro grande êxito.
Em menos de 20 minutos, Júlio e as suas bem torneadas e de vestimentas reduzidas assistentes Edneide, Máribéu, Gélzi, Candelária e a ucraniana Natasha preparam um velório à maneira.
Colocam a D. Adélia – mais composta, é claro – no seu caixão rosa bebé, que estava guardado em casa para uma ocasião especial, enfeitam a sala com gardénias e velas de cheiro a framboesa e, cumprindo um dos seus desejos finais, trajam-na com a camisa de dormir modelo Princesa Diana, que a D. Adélia tinha comprado em suaves prestações na loja da Odete Maria, também para uma “ocasião especial, que não era propriamente esta, mas que também servia.”
Pontualmente, chega também o Padre Frederico, ou não tivesse vindo de boleia com o Bruno do talho, na sua lambreta ultra-rápida, apesar de ter sido disputado por António Luís no seu potente mini vermelho de 79. Ganhou o Bruno porque era maior e conseguiu enfiar o António Luís no contentor do lixo, e o Padre teve de se render às evidências. Contra factos não há argumentos, é o que se diz, parece!
Madrugada dentro, estavam já os habitantes da Cadriceira presentes no velório meio adormecidos com o calor e completamente dormentes com o enjoativo aroma que se propagava das velinhas quando a Giséla Sóráia, entretida com o último livro da Margarida Rebelo Pinto, para passar o tempo, exclama: “Foi homicídio!”
Logo um calafrio percorre todo o salão da Sociedade Recreativa – onde se optou por realizar o velório – e os olhares ansiosos cruzam-se por várias vezes.
Odete Maria é rápida. “Foste tu!” – apontando para a sua sósia, a irmã Maria Odete – “Tu e aquele chá de acónito que tens ali na cozinha!”
“Não! Foste tu!” – exclama o Índio George, virando-se para o R.J. – “que eu bem te vi a trocar a garrafa de água por uma outra com aguardente!”
“Isso é impossível!” – diz o Bruno do talho. “A garrafa dela dizia Luso, mas o que tinha lá dentro era a aguardente vínica com 90% de alcóol que o meu tio Maximiano faz. Mas eu vi o Espanhol a dar-lhe um gato! E pensavas que ela era alérgica!”
“Pués eso no és berdad! Lo gatito Rebolho no hace mal alguno, solo caga.” – responde, ofendido, Xavi Fuentes. “Pero la noche pasada, cuando estube en la casa de Odete Maria – com Odete Maria, una grande maluca – la he bisto a enviar una munheca vudu a la víctima! Eso lo he bisto con estes dos olhitos mui guapos!”
“E aquela armadilha para ursos no quintal? Hum?? Quem poderia ser? Caiu lá o meu primo Marco, que agora está no hospital, coitadinho, nem se consegue sentar.” Lamuria-se R.J., o Fanhoso.
“Só pode ser... o Júlio! Era o único que as sabia construir, quando andávamos no liceu... e um funeral traz sempre lucro...”
“Pois, só que eu estava no estrangeiro. Mas houve quem visse o Índio George a pôr um balde com cogumelos à porta da vítima. Cogumelos esses, já o averiguei, da espécie Amanita muscaria – os cogumelos psicoactivos... e mortais!”
A Maria Odete defende-o – a D. Adélia nem tocou nos cogumelos. Mas ela viu a Débora, a transexual, a colocar o piano de 400 kg numa posição instável, e num lugar onde a vítima passava várias vezes, no caminho para o Centro de Saúde.
E viu o Bruno, no outro dia, a acelerar e a fazer pontaria, quando a D. Adélia ia a atravessar fora da passadeira.
E viu também, ela que “vê mais do que os comuns mortais, é claro, o António Luís, uma noite destas, em que ela estava cheia de insónias e foi para a janela arejar, com as luzes apagadas, por causa do calor, é claro, a dirigir-se sorrateiro ao Cemitério e a voltar com um esqueleto, que ela conseguiu saber depois, e isso já não se pode contar, que são assuntos da sua vida particular, que ele meteu o esqueleto no armário dos cobertores para ver se o raio da velha o abria e morria com o susto, mas isso não cabe na cabeça de ninguém, com este tempo ninguém vai ao armário dos cobertores, mais valia ter posto na despensa, onde a D. Adélia guarda os garrafões de água oxigenada, que, se calhar, foi disso que ela morreu, coitadinha, de intoxicação, com aquilo tudo, e não vi mais nada que, entretanto, já estava distraída com outra coisa, mas isso não interessa para aqui, que são assuntos particulares.”
E, enquanto Maria Odete explicava o seu ponto de vista, já voavam velas, coroas, castiçais, cadeiras, travessas de salada de polvo por aquela sala fora, já o R. J. agarrava o Bruno pelos cabelos, enquanto era açoitado pela Débora, que conseguia também dar com a coroa do “Amor de Mãe” no António Luís, que estava a despejar o jarro de sangria pela tromba da Odete Maria abaixo, que tinha trazido a ponta e mola e já estava a querer saltar para furar alguém a sério, não fosse o Índio George a morder-lhe a canela e a meter a mão no traseiro do Júlio.
O Espanhol já se tinha posto a milhas há muito, quando percebera que as coisas iam começar a aquecer. Ao fundo, com a sua batina preta e os seus óculos de sol, um homem de passado obscuro e desconhecido que veio do Brasil, o Padre Frederico está completamente absorvido pelo Super Mário na sua Nintendo DS Lite.
No momento seguinte, o Guarda Arnaldo, a dormir numa cadeira, acorda e levanta-se num repente. O barulho ensurdecedor que ecoava pela sala pára em uníssono enquanto todos olham para o homem que representa a lei, e ouve-se o sussurro do vento no calor da noite.
A um movimento do Guarda Arnaldo, que leva a mão ao bolso, a multidão grita e foge mais depressa que o Titanic do icebergue.
O guarda Arnaldo tira o telemóvel, lê a mensagem semanal do horóscopo TMN, espreguiça-se e vai à vida dele que se faz tarde.
Sozinha no seu próprio velório, com o Padre Frederico a um canto, imerso nas suas cogitações, a D. Adélia acorda estremunhada, larga duas opíparas bufas, exclama:
“Ai que mal me caíram aquelas ameijoas!”, 

sai do caixão e vai para casa.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Odisseia do Tacho 2006 - Capítulo 3.

CAPÍTULO 3 – O REGRESSO DO MORCEGO



Xavi Fuentes, passeando com o seu companheiro de jornadas Piruças, o cão abandonado, pelo jardim da Cadriceira, comendo um delicioso chupa-chupa de remoinho e dando pedacinhos de croissant do Lidl ao pato Jeremias, trauteava uma cançãozita da sua preferência, agradavelmente bem disposto.
O dia correra-lhe de feição. Os negócios na feira iam de vento em popa, os dvd’s ilegais vendiam-se que nem ginjas, e o guarda Arnaldo, a quem conseguia distrair com uns chocolates vindos directamente de Badajoz, tinha levado os companheiros para uma rusga a um bairro nas redondezas, falsamente alertado (por ele próprio, é claro...) para um negócio ilícito que metia meninas da vida e figuras públicas ligadas ao futebol.
Fora a uma consulta a Maria Odete que, além de ter mão para a caldeirada e de trabalhar como cozinheira profissional para a Sociedade Recreativa, tinha ainda um biscate de vidente, e ela dissera-lhe exactamente aquilo que ele queria ouvir: sorte nos negócios, sorte no amor para muito breve, e uma saúde de ferro. Falou também qualquer coisa sobre “ser tocado”, mas Xavi não percebeu muito bem essa parte, e nem Maria Odete lhe soube explicar porque, de repente, lembrou-se que queria descongelar uma galinha para o jantar e que tinha de ir que se fazia tarde, adeusinho e até um dia destes... Devia ter a ver com qualquer coisa mística...
“Pato! Pato! Pato!”, diz Xavi em fim de conversa. E fez-se à vida descansado.
Encaminhava-se com vagar na direcção do Centro de Saúde, onde o Índio George, que era o enfermeiro de serviço, o esperava para um tal de “exame à próstata”, na certeza de que nada de preocupante daí viria.
Aproximando-se com rapidez na colorida lambreta com o logótipo do talho Luís e Egas, Bruno apitou para o cumprimentar. O espanhol acenou descontraído e avistou na curva da rua o autocarro, pensando que seria uma boa distracção observar as pessoas que regressavam à Cadriceira àquela hora.
Sim, as pessoas do costume, os miúdos que tinham ido passear até à cidade,... nada fora do normal, excepto...
Logo a seguir a um homem musculado, com uma máscara de morcego e uma capa negra, descendo da carreira com suavidade, uma sublime imagem que deixou Xavi Fuentes estupefacto, mas o mais intenso de tudo foi o fugaz aroma a alfazema dos campos da Provença que ficou espalhado em volta, e que se agarrou à sua pele como uma alforreca venenosa sedenta de vítimas desprevenidas.
Era ela – a Joaninha, filha da Arlete Cabeleireira, uma donzela doce, sorridente e prestável, que se mudara para a grande cidade, há uns anos, para trabalhar como Técnica de Autópsias no Instituto de Medicina Legal. E regressava agora, mais encantadora ainda, se tal era possível, a “Joaninha das Autópsias”, como era carinhosamente chamada, e a quem os idosos, aflitos, recorriam em desespero...
Mas não foi só o espanhol que sofreu os efeitos hipnóticos da beleza e candura da Joaninha.
O Bruno, a descer a ladeira a alta velocidade, como habitual, ao sentir o aroma da alfazema, fica completamente desgovernado, e arremessa brutalmente a D. Adélia, que ia a passar, uma senhora dos seus 72 anos, vestida com uma t-shirt rosa choque e uma saia da Floribela, em direcção ao recém-aparado relvado do jardim, de pernas abertas, como nunca se vira! Bem,... como já não era vista há algum tempo... Pronto, há bastante tempo, e não se fala mais nisso!!
Era este o grandioso poder do aroma a alfazema dos campos da Provença que emanava da aura da Joaninha das Autópsias, poder esse que fulminara de súbito as suas mais recentes vítimas: o espanhol e o Bruno do talho que, a muito custo, conseguiram afastar-se em direcção às suas vidas.
Meia hora depois, em frente ao Centro de Saúde da Cadriceira, o Índio George, radioso na sua bata de um branco imaculado, esperava Xavi Fuentes com um sorriso de orelha a orelha. Deu-lhe uma bata para a mão e disse-lhe que aguardaria por ele, com um tom de voz algo meloso, que deixou o espanhol de pé atrás...
Sim, o inevitável encaminhava-se a passos largos contra ele!! Não havia forma de escapar!! Era o Destino!! Maldito!!
Mas, entrando repentinamente no consultório, e encontrando um oprimido espanhol com uma bata aberta atrás, de gatas, com o traseiro espetado, em cima de uma marquesa, com o Índio George já com o indicador e o médio em riste dentro de uma higiénica luva de borracha, o Homem-Morcego contém a desgraça a tempo, dizendo com a sua voz grave: “Arrecada lá isso, que é para não termos chatices!”
E, saindo detrás da sua fluida e na última moda capa preta, a Joaninha, com os seus doces olhos azuis, enfia ela própria um par de luvas e, afastando gentilmente mas de forma inequívoca a mão do Índio George, cumpre rápida e eficazmente a sua missão!
Xavi Fuentes engole em seco e nem pia e, antes de dar conta dela, pronto, o exame à próstata está feito... Mas não é só isso que ele sente! O fascínio que Joaninha exercera sobre ele quando descera por aquele autocarro abaixo tornava-se agora... poesia. Apesar da sua complicada situação. No sentido literal.
Entretanto, passando pela janela a uma velocidade pouco recomendada, com o vergonhoso intuito de espreitar a sua musa, o Bruno do talho testemunha esta cena inspirada e reveladora de tão grande intimidade entre a formosa Joaninha e o safardana do espanhol e, possesso de raiva e de bílis, logo ali o desafia para um duelo de honra.
Infelizmente, nos dias de hoje, é complicado proceder-se a um duelo de honra em condições com a rapidez que se deseja, e foi isso que aconteceu desta vez também.
Assim, agarrando num par de pás de coveiro que havia por ali à mão – pois o Centro de Saúde da Cadriceira fica mesmo ao lado do cemitério da Cadriceira – o Bruno do talho e Xavi Fuentes iniciam o seu combate, tendo como cenário o tétrico cemitério da Cadriceira, e como testemunhas a Joaninha, um ansioso Índio George, o Homem-Morcego e duas viúvas de uma idade bastante avançada, que há 50 anos andam a carpir a sua solidão.
Bem, ao fim de algumas espadeiradas no lombo e de um vasto número de nódoas negras no corpo, lá se aperceberam que aquilo é coisa para aleijar como o caraças e que, se calhar, “o melhor é irmos para a Sociedade Recreativa meter umas imperiais e uns cálices de Brandymel para dentro, a ver se isto passa. Ouvi até dizer que o António Luís está a fazer uma tachada de caracóis e tudo!”
“Ai é?”
“Pois é, foi o que me disseram.”
“Então vamos lá!”
Pois... só que o António Luís, inspirado pelo nostálgico especial dos Spandau Ballet que estavam a passar na VH1, abusou um pouco mais na quantidade habitual de gindungo...
Para o resto dos adeptos dos caracóis dessa noite, esperava um ligeiro peso no estômago fora do habitual.
No entanto, Xavi Fuentes, além de ter levado com os dois dedos da “Joaninha das Autópsias” pelas partes íntimas acima por ocasião do exame à próstata referido anteriormente neste capítulo, fica ainda com as hemorróidas inflamadas... e a noite não foi de rosas para ele...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Odisseia do Tacho 2006 - Capítulo 2.


CAPÍTULO 2 – “O BAILE DA SOCIEDADE RECREATIVA”

“Mais um dia resplandecente na nossa cidade, aqui ao som dos Alphaville, na RádiOeste, a rádio da sua escolha. Eu sou o Sérgio Lopes e vou estar consigo nas próximas horas.”
7 horas da manhã num soalheiro dia de Agosto na aldeia da Cadriceira. Um dia perfeito para o que se adivinhava, e que havia sido planeado com meses de antecedência... ou talvez não...
Maria Odete desperta ao som da música, põe o rádio um pouco mais alto e abre a torneira da banheira, enquanto espreita se a irmã gémea, Odete Maria, já acordou.
Não. Odete Maria dorme descansada o sono dos justos depois de labutar até à 9 da noite na sua modesta sexshop, marcando o preço nas cuecas que se comem (com sabor a framboesa, menta, banana, laranja-papaia e frutos tropicais) que chegaram ao fim da tarde e aviando uma remessa de dildos cubanos para a casa da Lanterna Vermelha, em Pontével.
Depois de semanas a trocar as voltas ao sangue do seu sangue, à carne da sua carne, e de andar a frequentar os ensaios para a procissão, hoje sim, finalmente, era o seu dia de glória, a sua ascensão!
... desde que conseguisse eliminar a sua própria irmã de forma desleal, para só uma delas – ela própria, quem mais? – estar presente no desfile de andores, representando a pureza e a solenidade da Nossa Senhora!
Era só esperar que ela não acordasse enquanto lhe esvaziava a gaveta da roupa interior absurdamente ousada (onde se encontrava a que Odete Maria planeava usar...), a levasse para o quintal e a desfizesse com o cortador de relva...
Má sorte ou, como diria o espanhol naquele seu timbre particular e característico, “Puta Madre!”
Odete Maria não dorme. Vigia. Espia a que foi sua companheira de placenta durante 9 meses. E espera. Ela começou a desconfiar: a desmarcação de tantos ensaios, e sempre a mesma pessoa, com aquela voz nasalada, porém estranhamente familiar. E ir a ensaios marcados, para descobrir que, afinal, não existiam.
Era uma dolorosa facada na carne tenra das suas costas esta traição de Maria Odete! Mas a traição não seria completa! Odete Maria estava preparada! Sabia como agir! Era a hora!
Óscar, o padeiro, passava ali àquela hora precisa. Só necessitava de um engodo – ela própria, com aquela vaporosa camisa de noite modelo Grace Kelly, para o atrair à capoeira...
Rápido e infalível! Com o padeiro enclausurado num cárcere trancado por fora com o cadeado da bicicleta, Odete Maria pôs mãos à obra.
Apanhando Maria Odete a jeito no quintal, agarrada como nunca ao cortador de relva, Odete Maria deu-lhe primeiro na cara com a água dos pintos e depois com o tacho de barro. Arrastou a sua irmã desmaiada para o meio das merendeiras e acelerou direita ao descampado ao lado do terreno do serial killer da Cadriceira, famoso nos anos 70.
Agora só lhe restava voltar. Não havia de ser difícil, com uma vaporosa camisa de noite modelo Grace Kelly...

Às 4 horas da tarde, sai da Igreja a procissão da Cadriceira, para dar a volta à aldeia com os andores enfeitados com carinho e devoção, os anjinhos de asas dependuradas e alguns ainda lambuzados de gelado, e a maravilhosa imagem da Nossa Senhora na...
Mas será possível? Duas imagens? Será um milagre? Será um sinal? Mas então, porque é que uma tem a testa inchada e um olho negro? Porque é que a outra tem cinto de ligas, meias de rede, sapato de salto agulha e cueca fio dental? E por todos os santos e anjos das nuvens celestiais, porque é que elas andam à estalada como dois galos num ringue de apostas ilegais?

Algumas horas depois, com as irmãs mais calmas e com os ardores sossegados (e finda a procissão, inevitavelmente mais cedo do que o previsto...), encontram-se já na Sociedade Recreativa os habitantes da Cadriceira, os seus amigos e convidados, para desfrutarem do baile abrilhantado pela banda local Da Rat, pelo Rancho Folclórico da própria Sociedade e pelo Bruno do talho, que além de cantar no rancho, ainda toca órgão em casamentos, baptizados e arraiais em geral.
Convém também à autora desta epopeia informar o leitor mais incauto que nunca esta festa teve um desfecho assim... pacífico...
E esta era outra que tal.
Percebeu-se logo, à sua segunda mini, que a noite ia ser de estalo para R.J., o Fanhoso, que cochicha alguma coisa com o Bruno e logo ali arrecada do bolso um papel, enquanto o companheiro se dirige ao órgão.
Então, ao som do “My heart will go on”, de Céline Dion, interpretado livremente pelo Bruno do talho, R.J., o Fanhoso coloca-se vacilantemente em cima da cadeira e entoa a sua obra: a “Ode à Maria Odete”.

“Anda cá dá-me uma beijoca”
Diz a Maria Odete em brasa
Esta mulher parece uma foca
Mas é só por causa da barba

O Sandokan trouxe os amigos,
Maria Odete ajeita o suspensório
Confia o bigode e olha para o ar
“Acho que vamos ter um casório!”

Vai direita para a cozinha
Com a cabeça na panqueca
“Se calhar ainda há tempo
Para jogar uma partida de sueca.”

Ai Maria Odete, minha granda maluca!
Mas que bela mão para a caldeirada!
Nesta terra não há mulher como tu!
É uma raça bem disfarçada...

Maria Odete, na cozinha, ainda com a testa inchada e o olho esquerdo na tonalidade Belenenses, concentrada na sua caldeirada, apanha uns laivos da dedicatória, o suficiente para o saco de 5 kg de pó laxante que tinha nas mãos cair em peso no tacho da caldeirada.
Uma distracção que não foi sentida por Maria Odete, mas que o foi, indubitavelmente, pelos infelizes que comeram daquele repasto, e que começaram, primeiro de modo discreto, depois de forma mais óbvia, a ocupar os lavabos do edifício.
Entre eles António Luís que, ao recolher-se ao wc de serviço provoca, sem dar por isso, a derrocada das grades empilhadas à balda e barrica-se a ele próprio.
Foi a pior altura, deve ter pensado, para descobrir que sofria de claustrofobia, mas estas coisas são como a diarreia, que nunca aparece nas melhores alturas, não se sabendo, é claro, qual é a melhor altura, mas como agora até há aquele medicamento, não é nada de muito preocupante.
Para sorte de António Luís, andava a rondá-lo a Débora, a transexual, mas como não podia alombar com as grades, que tinha arranjado as unhas nessa tarde, fez-lhe companhia a cantar o “My heart will go on”, que o Bruno continuava a tocar em transe, como se isto fosse o Titanic, e não o Baile da Sociedade Recreativa, onde havia o caos, as pessoas a correr para as casa de banho, os Bombeiros a chegar, o guarda Arnaldo semi-nu enrolado com a Giséla Sóráia debaixo da mesa, os Da Rat a um canto muito sorridentes debaixo de uma nuvem de fumo.
... ou não fosse este um Baile como os outros todos, na Sociedade Recreativa da Cadriceira...


Uma parte deste capítulo é dedicada ao Sérgio Lopes, o sacana que me caloirou quando fui para o liceu.

2.2 - O vento que sopra na floresta e a névoa que a abraça.

O por do sol, visto do cimo da serra, costumava ser sublime, independentemente do estado meteorológico do dia. Ontem, as cores tornavam-no m...