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quarta-feira, 25 de março de 2015

A Demanda de Dom Epifânio e de Baldomero - Capítulo 2.

CAPÍTULO 2 – A GESTA DA ALFARROBA

Eis-me de novo aqui, Amâncio, Menestrel de sua gosmenta alarvidade El Rei D. Gervásio, o Alarve, e de sua leda herdeira, a Princesa D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto, narrador das façanhas e dos actos bravos e alguns menos airosos do Cavaleiro que mais dá nas vistas aqui na Corte de sua  alambazidade El Rei D. Gervásio, o Cavaleiro D. Epifânio.
Além de dotado contador de lendas e outras coisas do género, este vosso amigo exerce também as funções de Menestrel para todo o Serviço, cargo existente apenas nos registos contabilísticos deste Reino, e que se reflectem em funções como contar histórias, cantar, tocar vários instrumentos musicais, desentupir as pias da retrete real, que até entopem com relativa frequência, eu sempre disse que não deviam ter sido feitas nos lados do pântano, que é uma chatice quando a maré sobe, e também fazer de Bobo quando o Custódio, o Parvo está aflito dos bicos de papagaio ou das outras doenças que ele tem, visto que é hipocondríaco.
Pois… acho que gostaria de explicar que a função deste vosso amigo é muito importante, quiçá imprescindível, e que, sem ele, este Reino, se calhar, até nem andava para a frente!
Se ao menos tivesse conseguido a assinatura do Director da Universidade no papel da Licenciatura em Engenharia, talvez me tivessem dado ouvidos, e a casa de banho não fosse nos lados do pântano…Mas um Bacharel, aqui… não vale nada…
Ora voltando à gesta que dá o nome a esta crónica, temos de ir até ao lugar dos heróicos acontecimentos que a originaram, a primeira paragem nesta Demanda do Jarro Sagrado.
Precisamente. A taberna do Pepe.

O ambiente escuro e com uma mistela de cheiros fortes atordoava agora os sentidos de Baldomero, o homem com uma poderosa (para a altura…) carroça de dois eixos e dono de um vergonhoso vício do hidromel que, no auge do seu estado pré-auto-lobotómico, na noite anterior, lá deu uma valente ensaboadela sobre as virtudes do néctar do jarro a El Rei D. Gervásio, o Alarve, razão pela qual se encontrava agora debruçado no balcão da taberna do Pepe, o Galego, com o seu companheiro de aventuras e patrão em geral, D. Epifânio e, lá mais ao fundo no balcão, o arqui-inimigo deste, D. Alarico. 
-“É maijum jarro d’hidromel práqui, ó fachafôr!”, atira o já conformado Baldomero para Pepe, o homem de um só braço à frente da taberna local.
Como Pepe estava lá para o fundo a tentar levantar o atordoado D. Choramingas (sempre foram dois cálices de ginjinha…), que passou a noite toda a lamentar-se de não ter sido convidado para a Demanda do Jarro Sagrado, Baldomero foi atendido pela filha deste, a mui formosa Ramira.
Se Baldomero estava já inebriado, agora ficava completamente ofuscado!
Ramira era a dona dos seus sonhos, a inspiração da sua coragem, e o motivo que o fazia tomar banho, pelo menos, uma vez por mês!
Ao pé dela, como é natural, Baldomero tentava sempre comportar-se, o que, por vezes, se poderia tornar algo difícil, dada a quantidade de álcool que habitualmente tinha dentro de si, e com o cheiro de quem andava a correr por todo o lado sempre com a mesma roupa, e com parca quantidade de água e sabão em cima… que isso água de fosso havia muita no corpinho bem desenvolvido de Baldomero…
Ao olhar para a sua musa com uma expressão de repolho fora de prazo, Baldomero só conseguiu balbuciar embevecidamente “Rameira…”, pelo que, obviamente, foi recompensado com um valente tabefe ministrado pela voluptuosa dama, com uma resposta à altura, por assim dizer: “Ramira, não é Rameira!! Eu sou alternadeira! Só me sento ao colo dos clientes, e mais nada!! Bruto!!
Foi nesse preciso momento que entraram pela taberna dentro dois desconhecidos, dizendo-se almocreves mouros, o que desde logo pareceu suspeito a D. Epifânio, porque entraram aos gritinhos , muito agarrados um ao outro e a fazer olhinhos a D. Alarico, e porque para Árabes eram um bocado deslavados.
Foi quando Urdilde quase desfaleceu com a emoção de estar tão perto de D.Alarico, e Fagilde lhe mostrou o púdico tornozelo até aos fundilhos das ceroulas que D. Epifânio percebeu a artimanha combinada por D. Alarico com as gémeas Fagilde e Urdilde, que lhe vinham lixar a vida mais uma vez.
Preparava-se já D. Epifânio para defrontar corajosamente D. Alarico, desembainhando a sua espada, quando passam a correr desesperadas à sua frente as também conhecidas por Gémeas do Terror, a alta velocidade à frente da Canabis, a mula do Baldomero.
Ora acontece que as nossas duas amigas trafulhas arranjaram para se disfarçar de almocreves mouros uns sacos de sarapilheira que tinham servido de invólucro a uns quantos quilos de alfarroba, que era um petisco deveras apreciado pela dócil mula, pelo que, derivado de terem ficado com o fedor agarrado, a bichinha não as queria largar na mira de poder dar uma dentadita ou outra…
Vendo o caso arrumado, Baldomero volta a concentrar-se no jarro à sua frente, e D. Epifânio continua a tentar dar conselhos sentimentais ao inconsolável Custódio, o Parvo, que está na taberna a curtir a depressão de ter levado com os pés de ambas as gémeas – nesta altura a correr animadas à frente da mula Canabis, motivo pelo qual está neste momento este vosso amigo Amâncio, o Menestrel a amandar bolinhas ao ar com um fatinho idiota com guizos e meias douradas de licra, que ainda não existem na Idade Média, mas de certeza que foi algum arranjinho com o Lelo, o cozinheiro!

E depois voltaram todos para o Castelo, que já se estava a tornar tarde para o jantar, e nesse dia era espetada de boi com batatinhas (que ainda não havia na Idade Média, mas o cozinheiro, Lelo, arranjava de uma maneira que só ele sabia), que é uma chatice ter de comer frio, que fica duro.


FIM!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A Demanda de Dom Epifânio e de Baldomero.


CAPÍTULO 1 – A DEMANDA DO JARRO SAGRADO

A 12 de Outubro do ano da graça do nosso senhor Rei D. Gervásio, o Alarve, rei de toda esta terra aqui à volta e a mais à frente que não se vê daqui de 1237, eu, Amâncio, o Menestrel, registo estas crónicas do mais bravo cavaleiro de sua realdade,  porém não o mais lavado nem o com maneiras mais cuidadas à mesa de sua alteza El Rei D. Gervásio, o Alarve, e da sua doce filha, a Princesa D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto.
A Demanda do cavaleiro D. Epifânio começa numa manhã fresca e soalheira de Primavera, à sombra do carvalho mais antigo da floresta, quando D. Epifânio e o seu leal cavalo Rouxinol se encontravam a passar pelas brasas, enquanto esperavam que Baldomero, o da carroça, braço-direito do cavaleiro, acordasse da bebedeira de hidromel da noite anterior, provavelmente com uma monumental ressaca, dada a larga quantidade de néctar assimilada.
O relógio de sol do jardim de sua majestosa alarvidade marcava já as 3 horas da tarde quando D. Epifânio ouve um estalido e pressente uma presença, enquanto Rouxinol levanta uma orelha e Baldomero larga intensa quantidade de baba para o tufo de erva em que se recostara.
Os sempre fiéis e apurados instintos do garboso D. Epifânio haviam-no alertado bem: ao longe, surge um cortejo com o símbolo real.
Ajeitando a cota de malha e penteando com as mãos os seus desordenados cabelos que insistiam em espetar nos lados como pôde, D. Epifânio preparou-se para saudar quem ia a passar.
Ainda teve de esperar mais de uma hora, que a caravana vinha longe, e as estradas ainda não estavam alcatroadas na Idade Média, por isso, a essa altura, teve já o prazer da presença do seu companheiro Baldomero, que se conseguia manter direito à custa de estar agarrado, num dos lados, ao seu cajado predilecto (herança de seu pai Olegário, que já o tinha herdado do seu pai, e assim por diante) e, no outro, à sua mula Canabis, sempre a postos para todas as ocasiões.
“Viva El Rei D. Gervário, o Alarve! E sua filha D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto!!” – saudou energicamente D. Epifânio, ao que Baldomero secundou levantando ligeiramente a cabeça e titubeando “mm…mm…mm… coiso!”
Para mal dos pecados de D. Epifânio, o elegante cavaleiro da armadura dourada que liderava o cortejo tirou o seu elmo e revelou-se com um olhar mordaz e superior inequivocamente dirigido a D. Epifânio.
Era D. Alarico, o mais figadal inimigo de D. Epifânio desde os tempos em que ambos eram pajens, numa altura em que tinham lições juntos, e em que lutavam para chegar ao lugar de escudeiro e, no futuro, de cavaleiro.
D. Alarico era um safardana, troca-tintas, que apunhalava as pessoas pelas costas, era estrábico, cheirava muito mal dos pés e ai de quem se chegasse ao pé dele quando levantava os braços!
Estas são as palavras de D. Epifânio. 
As damas da Corte dizem-no corajoso, intrépido, charmoso, de finas palavras, mas não tão finas maneiras à mesa, com uns belos olhos azul céu, pestanudo, de generosa trunfa (aqui não consegui averiguar se seria qualidade ou defeito), com aquele narizinho arrebitado e o rabinho no lugar.
Como menestrel de qualidade, limitei-me a transcrever o que tem sido dito por aí. Até porque nem vou aos balneários dos cavaleiros comprovar a veracidade das palavras das aias da Princesa!
Pronto, voltando à nossa crónica, parece-me sensato dizer que não era só por este motivo que D. Epifânio e D. Alarico não sentiam muita simpatia um pelo outro. Para ser o mais verdadeiro possível, devo confessar que eles, basicamente, se odiavam vigorosamente!
Outro dos motivos que levara a esse sentimento tratava-se precisamente da pessoa que ia dentro da carruagem com os símbolos reais, a dormir que nem uma lontra, mas não sou eu que devo pôr as coisas desta maneira, porque se trata da mais predilecta das aias da espirituosa e doce Princesa D. Elvira, a do Remoinho Espetado no Cocuruto, a mais elegante, a mais dedicada, a mais prendada para fazer as fatias paridas cheias de  mel que Sua Excelsa Remoinhidade tanto gosta – a senhora D. Matilda.
Ora estes dois cavaleiros de sua Alarvidade lembraram-se os dois de cair de amores por esta suave donzela ao mesmo tempo, que foi no Verão passado, quando ela veio para estes lados. D. Alarico dá-se ao extremo de insinuar que “a moça é dele por motivo de ter sido ele a vê-la primeiro!”, o que não foi ainda provado, pelo que é só a palavra dele contra a de tantos outros que alegam precisamente o mesmo fundamento…
D. Epifânio é uma pessoa mais discreta, o que quer dizer que, cada vez que se encontra frente à  Senhora D.Matilda, perde o pio.
E foi o que aconteceu desta vez também.
Acompanhando a caravana até ao castelo, bem lá ao fundo, calado, de braços cruzados, com o elmo baixo sobre a cara e a fazer uma birra, foi o bravo D. Epifânio, com o seu braço direito Baldomero, o da potente carroça de dois eixos, agora estacionada ao pé da taberna do Pepe, o Galego, onde começara a noite anterior, caminho que ainda durou mais de uma hora, porque na Idade Média ainda não havia estradas alcatroadas, acho que já tinha mencionado esta circunstância.
Ora ao chegar às portas do castelo, já o trunfoso D. Alarico tinha uma comissão a recebê-lo. Precisamente o seu clube de fãs, com uma chungaria digna dos Beatles, empunhando um elucidativo cartaz “Alarico és o meu anti-depressivo!”. É que além de ser aquelas coisas todas que ele já é, D. Alarico ainda canta, sendo muitas vezes chamado a fazê-lo nas festas do castelo!
Para dizer a verdade, o Clube de Fãs de D. Alarico é composto por apenas dois membros… D. Urdilde e D. Fagilde, também conhecidas como “as gémeas do terror”, ajudantes infalíveis de D. Alarico nos seus planos maléficos para fazer D. Epifânio passar por totó em frente à senhora D. Matilda.
Enfim, isto começou tudo afinal porque, quando chegaram ao castelo, D. Gervásio, o Alarve, achou por bem revelar que estava um bocado agastado e, depois de uma longa conversa, sem qualquer nexo porém, com Baldomero sobre o tópico “o jarro é sagrado”, resolve-se a mandar todos os seus cavaleiros a dar uma volta e procurar o tal do jarro.
Menos o Cavaleiro D. Choramingas, é claro. Por razões óbvias!

2.2 - O vento que sopra na floresta e a névoa que a abraça.

O por do sol, visto do cimo da serra, costumava ser sublime, independentemente do estado meteorológico do dia. Ontem, as cores tornavam-no m...