sábado, 13 de junho de 2026

3.1 - Uma viagem até ao desconhecido.

Fala João.


Acordei de madrugada com o uivar de um lobo. A tempestade parece ter acalmado durante a noite, mas o silêncio era ainda mais assustador. Não tenho a certeza se o uivo não passou de um carro na rua, ou do sonho em que estava perdido: uma floresta densa numa encosta, que subia até ao topo, até quase ao céu, e tudo em meu redor era floresta e noite e lua. E um lobo a uivar.

Como calculava, a electricidade ainda não voltou.

Felizmente, já há alguma luz da rua, nada que não se resolva, consigo preparar-me para o dia.

Levanto-me e tomo um banho rápido. O café, hoje, terá de ser lá fora.

Dou uma vista de olhos à mala, só para confirmar se não me esqueci de alguma coisa. Não esqueci, mas podia ter mais roupa lavada.

Se não voltar o calor, vou andar quase sempre de calças de fato de treino e de t-shirts de bandas de música dos anos 90. Se voltar, de calções e de t-shirts de bandas de música dos anos 90.

Confortável, mas pouco profissional.

De qualquer das formas, é pouco provável cruzar-me com o presidente da república ou com o director da faculdade. No último caso, desconfio que seja o mesmo tipo de atavio que use nos seus momentos de lazer e de descontração.

Como ainda tenho tempo, decido começar a ler um dos livros, para perceber que é realmente um erro levá-lo. Volto a metê-lo no cimo da pilha de livros, rezando mentalmente - ou não tão mentalmente - para que não caia.

Espreito, pelo canto do olho, os meus fiéis amigos que falam de mosteiros medievais e procuro resistir à tentação. Quero estar completamente focado no que vou estar a fazer - esta viagem não é para me andar a meter pela serra a explorar ruínas, para grande pena minha. Outra ocasião virá. Talvez nas próximas férias da Primavera.

Opto por um velho amigo literário - já ontem tinha ficado com vontade de o reler.

No entanto, nas prateleiras da estante ao lado, algo me chama a atenção.

Como é que não pensei nisso antes? Talvez seja uma leitura de consulta útil para a ocasião. Pego nele e folheio-o. Fala sobre mitologia da Antiga Lusitânia. Porque não? Mais à frente, o de Mitologia Popular Portuguesa. Vieram ambos de uma visita a Sintra, numa bela tarde de nevoeiro que se tornou numa noite calorosa num bar perdido numa estrada menos frequentada, com hidromel, música celta e gatos a subirem para o colo. Agarro nesse também.

Vamos ver se a troca de gatos fofinhos no Japão por seres misteriosos em locais misteriosos, como aquele a que vou, e nesta ocasião, não me faz afinal maravilhas pela sanidade!

Arrumo estes na mala. O do João Aguiar vai comigo, para ler no caminho.

Quando me cansar da leitura, também tenho a música. A viagem irá passar num instante.

Visto o casaco enquanto dou uma última vista de olhos à casa, na esperança de que este espectáculo não assuste a pessoa que a virá limpar…

Pego nas malas e no chapéu, que nunca deixo para trás nestas ocasiões, e desço para a saída do prédio, onde o táxi não demorará muito tempo a chegar.

A tempestade parece ter abrandado. Ou, por outro lado, parece antes que as nuvens que se acumulam lá no alto estão a preparar algo ainda mais avassalador. O vento continua forte, consigo perceber pelo topo das árvores que abanam, que avisto no Jardim e ao lado do Palácio, lá ao fundo. Mas, na base, o estranho silêncio. Quase um calor.

Como se uma tempestade pior se estivesse a preparar, a ganhar balanço para dar um salto mais alto.

As cores do céu, agora que é dia, são verdadeiramente assustadoras: dourados e cinzas e rosas e chumbo - não se percebe se é dia ou se chegou o apocalipse em forma de temporal.

O táxi já está a chegar.

A viagem até Lisboa é feita sem incidentes, muita gente ficou a trabalhar em casa por causa dos alertas.

Chegados à Estação do Oriente, tudo parece normal, apenas mais tranquilo do que seria uma terça-feira de Outubro em Lisboa.

Pago ao taxista, saio do carro, apanho as minhas coisas e olho em volta. Ainda tenho vinte minutos para ir beber um café e comer um queque de noz na padaria que já costumo frequentar de outras ocasiões.

Quando regresso à plataforma, vejo que o autocarro já se aproxima da sua paragem. Aparentemente, está dentro do horário, apesar das notícias de árvores e de postes tombados por todo o país, alguns bloqueando estradas.

Algumas pessoas já se encontram aqui. Não muitas, calculo que hoje seja uma viagem tranquila.

A minha atenção vai-se prendendo com as pessoas que estão à espera para entrar: duas raparigas jovens, provavelmente universitárias, a falar com amigos no telemóvel por video-chamada, a contar as aventuras de uma semana em Lisboa, uma rapariga de uns trinta ou mais anos a conversar com o seu gato, que vai numa caixa de viagem, e que deve gostar pouco de viajar, como quase todos os gatos que conheço, um homem de fato, deve ter mais ou menos a mesma idade que eu, pouco mais de cinquenta anos, nitidamente desconfortável naquela indumentária, já alargou a gravata duas ou três vezes e tentou endireitar as costas dentro do casaco que lhe inibe os movimentos, também um padre jovem, alto e bonito, daqueles que as mães dizem que é uma pena ir para padre, que vai deixar as raparigas solteiras da paróquia com a cabeça a andar à roda, mas este ignora nitidamente as jovens que o rodeiam, e só tem olhos  para o livro que tem na mão, um policial italiano com dois gatos pretos. Não o censuro, também gostei bastante daquele livro.

Com calma, entramos e recolhemos aos lugares designados. Ainda estou fresco e, com a dose de cafeína e de açúcar acabadas de ingerir, tenho menos vontade de dormir e mais curiosidade em ver a paisagem. Serão cinco horas e meia de viagem, a minha natureza não é a de conversar com os outros passageiros, pelo que enterro o chapéu na cabeça, meto os fones nos ouvidos, mesmo sem música, e abro o meu livro, enquanto espreito distraidamente pela janela. São sinais mais do que suficientes para mostrar que não estou muito para conversas. Nem com aquela senhora bastante idosa, com um carrapito feito num cabelo em tons arroxeados e de óculos à estrela do cinema americano dos anos cinquenta, provavelmente com a mesma idade, que também entreteve os momentos de espera, como eu, a observar os outros passageiros, e que se dirigiu resoluta na minha direcção, olhando-me mais fixamente do que a minha personalidade habitualmente mais introspectiva desejava

Felizmente, o seu lugar era duas cadeiras à frente do meu, mas nunca se sabe, e assim garanto alguma tranquilidade na viagem.

Não passou muito tempo para começar novamente a chover. Uma chuva densa. O vento abanava o autocarro, que ia com mais precaução do que habitualmente. Era provável a viagem demorar mais tempo do que o que estava à espera.

Olhei o telemóvel. Tinha recebido a sinalização de uma mensagem. Tinha instruções do local onde ia ficar em Montalegre. Um solar antigo, desabitado há alguns anos, que ficava fora da vila. Que não me preocupasse, porque era cuidado. Tinha um caseiro e uma cozinheira, e estava confortavelmente habitável, não me iria faltar nada. Um solar desabitado. A história estava a compor-se. Iria lá ficar sozinho, apenas com estas duas pessoas, ou se calhar nem isso, se morassem na vila? Não seria preocupante. Ou seria? Com o que se andava a passar? Confiavam assim tanto nas minhas capacidades? Mais do que eu, quem sabe?

As horas passaram devagar. Começava já a sentir o corpo a ficar mais mole. Fechei o livro, liguei a música, tenha andado com uma playlist da Eivor, que foi o que escolhi para o resto da viagem. Meto o livro dentro da mala, enterro mais o chapéu, até tapar os olhos, e deixo-me levar pelos sons. Não demorei muito a adormecer, encostado ao vidro. Não dei pela passagem do tempo, nem pelo agravamento da tempestade lá fora.

Quando parámos, finalmente em Chaves, vejo que o dia se tornou noite.

Não, não chegámos tão tarde, mas o temporal piorou consideravelmente com a tarde. A noite seria aterradora.

Saio para procurar outro transporte que me leve a Montalegre. Há autocarros que viajam para lá, e também táxis, mas chega um funcionário que nos informa que não se consegue passar: caiu um poste de electricidade na estrada, e estará fechada até ser desobstruída. Se as condições permitirem, amanhã. Se não o permitirem, não se sabe quando poderemos passar. Indica uma pensão perto da estação. Não tenho outra hipótese, não pretendo voltar atrás. Irei ficar mesmo por aqui.

Os outros passageiros seguiram a sua vida. A sua linha final era aqui. A senhora do carrapito roxo ainda veio ter comigo ter comigo, não conseguiu resistir a vir falar. Percebeu que ia para Montalegre e deu-me o contacto da irmã dela lá, uma senhora Mariana Rosa, um papelinho com uns números rabiscados numa caligrafia bonita e direita. Se tivesse algum problema, podia confiar na irmã dela. Não faço ideia de como duas idosas me poderiam ajudar, mas não sou mal-educado, e achei graça à senhora. Se calhar tinha sentido de humor e achou que seria uma partida divertida, quem sabe. Vejo-a seguir pela estação, na direcção dos táxis. Entra num e vai embora. Nem sei se alguma vez a voltarei a encontrar.

Dirijo-me à pensão, é mais à frente na rua, e tem um café e restaurante no rés-do-chão. O jovem padre segue também na mesma direcção. Trocamos olhares, e pergunta-me se também me dirigia a Montalegre. Respondo que sim, seria o destino da minha viagem. Era o dele também, é onde está agora, tinha ido visitar a irmã, que reside em Sintra, e regressava hoje para o seu trabalho. Terá de ficar até a estrada estar transitável. 

Parece que irei ter a companhia do padre leitor durante mais algum tempo.

Não foi muito complicado instalar-me, estavam à espera da chegada do autocarro, prevendo que alguns dos passageiros não tivessem possibilidade de seguir viagem.

Agora só me apetece a infusão e os biscoitos que me deixaram no quarto e descansar da viagem, esticado na cama. Envio mensagem a avisar do atraso, e dos motivos. Recebo outra a confirmar. Irão aguardar que a tempestade acalme, não há mesmo forma de passar, para segurança de todos. Envio também uma mensagem à minha mãe, a avisar que cheguei bem a Chaves. Responde com uma foto de um cesto de bolinhos de canela caseiros e de duas chávenas de chá decoradas com Snoopys, acompanhada de um “Diverte-te!”. Não posso deixar de sorrir à sua descontracção.

A chuva, que acalmou nos breves momentos da chegada do autocarro a Chaves, começou agora a cair com mais intensidade, e o vento voltou a assobiar com força lá fora. Parece uma noite de trevas, e não sabemos como a vamos atravessar. Aconchego-me no edredom. O meu último pensamento, antes de cair no sono, é reparar, estupidamente, que este quarto está mais ordenado que o meu. E espero a tempestade passar.





Os livros referidos no post de hoje (vai o homem carregado na viagem, acho que leva mais peso de livros do que de roupa, é a vida…):

João Aguiar, “A encomendação das almas”, ASA, Porto, 1 de Novembro de 1995

Gilberto de Lascariz, “Deuses e rituais iniciáticos da Antiga Lusitânia”, Zéfiro, Sintra, 2015

Alexandre Perafita, “Mitologia Popular Portuguesa”, Zéfiro, Sintra, 2021

Piergiorgio Pulixi, “A livraria dos gatos pretos”, Clube do Autor, Lisboa, Outubro 2023

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

2.2 - O vento que sopra na floresta e a névoa que a abraça.


O por do sol, visto do cimo da serra, costumava ser sublime, independentemente do estado meteorológico do dia.

Ontem, as cores tornavam-no mágico.

Quase parecia impossível ter sido apenas ontem.

O vento levantara e as nuvens negras que vinham lá de longe, do mar, chegaram rápidas e densas, misturando os tons de cinza e chumbo com os alaranjados e os rosas.

Era melhor começar a descer, não fosse a chuva chegar, como se adivinhava.

Hoje já não se conseguia ver mais nada na floresta. As sombras e os ruídos que se tinham detectado nestes últimos dias não queriam dar sinal hoje.

Lá em baixo, o autocarro com a última paragem em Montalegre acabara de deixar alguns miúdos, que riam e se empurravam. As aulas ainda estavam leves, e os dias eram luminosos, chegavam com a luz da tarde e pareciam ter mais tempo para tudo.

Uma rajada um pouco mais forte quase lhe arrancou o casaco que levava apoiado nos ombros.

Seria melhor vesti-lo, o tempo estava a ficar mais agreste.

Os miúdos meteram-se pelo caminho da floresta, um atalho para chegar à povoação mais depressa. Hoje não seria um bom dia para isso, estava a escurecer demasiado depressa.

No meio das árvores, viu uma luz, mas depois não tinha a certeza, porque um raio se mostrou quase ao mesmo tempo.

Era a tempestade de que falavam nas notícias. A noite de hoje, e depois mais um dia e uma noite.

Aqui em cima iria cair forte.

Uma bátega atingiu uma das pedras grandes, na descida para a aldeia.

Não iria tardar muito.

Apressou o passo, talvez se conseguisse encontrar com os miúdos. Embrenhados pelo meio das árvores, provavelmente nem se aperceberam da aproximação do temporal.

Estava mesmo a ficar um estado adequado à celebração de sexta-feira 13 que se aproximava, a data que animava os dias habitualmente tranquilos da aldeia de vez em quando e que atraia alguns turistas e excêntricos e curiosos ou apenas alguém que se tinha perdido pelos caminhos da serra.

Mais uns metros e estava lá em baixo. Acelerou o passo, o tempo estava a escurecer, o vento a levantar, e já sentia gotas de água.

Mesmo assim, aqui em baixo, junto às árvores, a visibilidade era muito baixa. Uma névoa começava também a envolver o arvoredo, a descer pelas copas até ao tronco, mais rapidamente do que desejava.

Conseguiu finalmente alcançar a floresta.

Ouvia os miúdos, ainda riam, mas pareciam-lhe longe. 

As vozes vinham de vários pontos da floresta. Seria a névoa a dissipar o som, ou estariam perdidos na escuridão?

Um novo raio, e pareceu-lhe ver um vulto à sua direita.

Algo não estava bem.

Ligou a lanterna do telemóvel. Como é que não se tinha lembrado disso?

Chamou para a floresta. Conhecia os miúdos todos. Tinham saído sete do autocarro.

Deviam estar a chegar a este lado.

Não, já deviam ter chegado.

Chamou novamente, mais alto.

De resposta, uma gargalhada, que ecoava pelas árvores.

Ouvem-se passos, alguém se aproximava, mas pelo caminho de fora, o alcatroado.

“Vi os miúdos sair do autocarro e vir pela floresta, mas eles ainda não chegaram.”, disse a mulher de cabelo preso, com algumas madeixas já soltas a esvoaçar em volta do seu rosto.

“O vento está mais forte, não se vê nada, e já está a começar a chover!”, acrescenta, aflita, a outra que vinha com ela, com o avental de gatos.

Mais dois homens se aproximam.

Reconheceu um deles, o velho caseiro do solar. Já não tem idade para andar aqui, mas devia estar no café quando se deu o alvoroço, e não é capaz de ficar quieto, se puder ajudar em alguma coisa.

Novo relâmpago e algo se move entre as árvores.

O ruído do vento é ensurdecedor, há já ramos a estalar, temos de sair daqui depressa.

Onde é que estão os miúdos?

Porque é que não saem deste lado?

Ouve-se um uivo.

Não é um cão, de certeza.

É demasiado forte para ser o de um cão, e está demasiado perto.

Mais telemóveis se levantam com as lanternas acesas.

Alguém tem a coragem de entrar no arvoredo.

É a filha dela que lá está, esta mulher não tem medo de nada. Vejo-a a agarrar num ramo caído com a outra mão. Temo por quem se atrever frente a ela.

Grita pela filha, chama o seu nome, a sua voz ecoa pela névoa.

Outra voz se levanta.

Já não são só os pais, já se juntam vizinhos.

Um trouxe uma lanterna grande e potente, que usa na oficina para ver os motores dos carros.

A escuridão já baixou totalmente, o vento mal nos deixa ouvir uns aos outros e a chuva começou a cair com intensidade.

Não há por onde fugir.

Já nos embrenhámos pela floresta, tentando não nos perder também.

Finalmente, as vozes respondem-nos.

As lanternas apontam para aquele lado, não o do trilho onde estavam.

Algures no meio do arvoredo e da escuridão, perderam o caminho.

Um a um, guiados pelas vozes, começam a surgir os seus vultos.

Um, depois outro, duas raparigas juntas, que choram aflitas e nunca se largaram, e mais outro.

Chegam seis. Falta um.

Gritam por ele.

Não há resposta.

Apontam as lanternas, os ramos parecem sombras a correr no meio das árvores, a esconderem-se atrás dos troncos.

Silêncio, só o vento e a chuva e os trovões cada vez mais frequentes.

Um não aparece.

Chegou a noite, e um não apareceu.



sexta-feira, 31 de outubro de 2025

2.1 - Noite escura de tempestade e uma pilha de livros difícil.

A noite era de tempestade, e ia ser longa.

João fizera um desvio pelo supermercado do bairro para ir buscar uma sopa para o jantar, e apressara-se a meter mãos à obra.

Nada como ter um prazo final para dar aquela dose de motivação que falta à nossa vida!

Deixou o saco com as compras na cozinha e dirigiu-se à sala com a caixa que trouxera da garagem.

A vizinha que morava no r/c direito e que tinha sido a porteira do prédio antes de se reformar, mas que também estava perfeitamente capacitada para ser uma alta patente no FBI, combinara logo por WhatsApp com uma empresa de limpezas de confiança a barrela a fundo do seu apartamento.

O que queria dizer que teria de dar alguma ordem à papelada que tinha em cima da mesa da sala.

Cadernos de apontamentos, fotocópias e impressões de documentos da Torre do Tombo que precisara de consultar, notas soltas de consultas a livros na biblioteca, blocos notas cheios de post-its e sublinhados de marcadores fluorescentes com os esquemas e os resumos, tudo em diversos montes em cima da mesa.

Seria para arquivar em local próprio, mais tarde, quando tivesse mais disponibilidade.

Era-lhe impensável deitar fora papéis que continham informação útil.

Tinha um problema com isso: acabava por se interessar sobre todos os temas a que se referiam os trabalhos para os quais era chamado, e desta vez não tinha sido diferente.

Assim, fez os possíveis para não se distrair enquanto enfiava na caixa, por ordem de trabalho, os papéis que falavam de Endovélico e romanos e lusitanos e templos pagãos e ainda mais deuses ancestrais para aprofundar um dia destes, e papéis que falavam sobre fortalezas de defesa de fronteiras medievais e de rios que faziam essas fronteiras e os motivos pelos quais tinham sido mudadas essas fronteiras e castelos no cimo de montanhas e o silêncio das pedras e um bom licor para aquecer a noite, e depois papéis sobre pinturas rupestres e cálculos de passagens de cometas há milhares de anos atrás e sobre tipos de cometas, e também diversas genealogias e cronologias e biografias e, sabia lá bem porquê, informação turística sobre estações de combóio desactivadas transformadas em alojamento local no interior do país.

Estava feito, e não demorara assim tanto tempo.

Voltou à cozinha, aqueceu a sua sopa e serviu numa tigela. Creme de tomate. Trouxera uma embalagem com mini queijos mozzarella, que atirou lá para dentro, assim como um punhado de croutons de alho e orégãos.

Aqueceu água na chaleira para fazer uma infusão de hortelã e alcaçuz. Isto tinha de ser bem digerido.

A mesa da cozinha não estava muito mal, apenas um pano fora do sítio e umas migalhas de pão, de um dia destes.

Passou um pano húmido, já que estava em modo civilizado, que era o seu estado normal depois de deixar uma tarefa importante terminada, meteu um individual, os talheres, o guardanapo de pano a combinar com o individual, ambos feitos pela mãe, que adorava oferecer os seus trabalhos de costura, a sopa e a chávena para a infusão.

A tempestade lá fora piorara, o vento estava muito forte, a chuva que começara a cair aumentara de intensidade.

João apagou a luz da cozinha e deixou apenas a do exaustor ligada. Acendeu uma vela perfumada, a mãe oferecia sempre disto nas celebrações, achava hygge e também achava que toda a gente precisava de velas perfumadas e de bolachas de aveia do Ikea em casa, e quem era ele para contrariar esta teoria.

Da cozinha via a tempestade pela janela da sala, a emoção em grande plano.

No telejornal tinham noticiado o temporal, que se sentiria mais forte nas zonas litorais, e até meio do país.

Uma noite de tempestade, depois um dia inteiro e mais uma noite. Na madrugada seguinte, estaria a caminho das ilhas britânicas.

A sua viagem estava marcada para o dia seguinte.

Resolvera aceitar a proposta de se deslocar a Montalegre, mas ia de autocarro.

Ia de taxi até Lisboa, depois de expresso até Chaves, e depois mais um autocarro até Montalegre.

Ia ficar com as costas quadradas, e as pernas entorpecidas com as horas de distância que a viagem prometia, mas não tinha vontade de conduzir para tão longe, e podia ler, dormir e colocar as ideias em dia durante esse tempo.

A árvore lá fora, na rua, em frente à janela da sua sala, dobrava-se com a força das rajadas de vento.

A chuva estava impiedosa, batia com força nas vidraças, ao ritmo das rajadas.

A sopa aconchegou-o. Pegou na tigela e meteu-a junto à restante loiça suja. Não tinha de se preocupar com isto agora.

Agarrou na chávena e dirigiu-se mais perto da janela. Talvez fosse boa ideia fechar os estores, mas a paisagem era bela demais.

Sempre tivera uma atracção por observar tempestades na natureza.

Não era tão divertido quando estava ensopado dentro de uma tenda de campismo de uma pessoa, menos impermeável do que pensara, afinal, mas não temos 20 anos para sempre, e era por isso que já não se aventurava em acampamentos. Agora, nada menos que um quarto de hotel ou de uma pensão, com uma cama confortável e água quente canalizada.

Um relâmpago mais forte, logo seguido pelo ruído do trovão fê-lo dar um salto para trás, com a surpresa, e a escuridão que se fez sentir na casa despertou-o para o momento presente.

A luz fora abaixo.

Podia ter sido só uma avaria do exaustor.

Não, a rua ficara mais escura.

Tentou o interruptor.

Não, não funcionava. A luz fora-se. Era provável que não voltasse tão cedo. Teria sido um cabo partido e não estavam condições de andar gente na rua pendurada em postes.

Era mesmo questão de aguardar que a tempestade amainasse.

Sentou-se no sofá.

Não estava assim tão desarrumado, felizmente, apesar de ter dormido aí mais vezes do que na cama nas últimas semanas.

Estava algo atrás das suas costas, a incomodá-lo. Qualquer coisa de tecido. Puxou e viu que era uma camisola de mulher. Uma camisola de Inverno. Fez as contas de cabeça e pensou que sim, era provável.

O facto de não ter sido contactado por causa da camisola podia ter menos a ver com a estima pela dita ou pela sua necessidade, e mais pelo seu temperamento. Enfim, não se pode agradar a toda a gente e, certamente, a dedicação de João aos seus interesses era maior que que a sua dedicação a pessoas novas, que depressa perdiam a sua novidade e se diluíam no vácuo do dia a dia.

Meteu a camisola de parte, pelo menos podia metê-la a lavar e devolvê-la. Não era um ogre, era apenas distraído com as coisas normais da vida.

A camisola fê-lo lembrar-se que tinha a sua própria mala para preparar.

Combinara com o táxi para as 8 e meia da manhã. Tinha tempo de chegar ao Oriente e beber um café, mesmo que apanhasse trânsito. O seu autocarro era às 10 horas.

Não fazia ideia de quanto tempo ia ficar, mas calculava que umas quatro t-shirts e outras tantas calças de ganga serviam. Mais uma ou duas camisolas, para o caso de ficar fresco. E os calções de banho para o caso de ficar calor. Nunca se consegue adivinhar, nesta altura. Roupa interior, escova e pasta de dentes, um pente, a máquina de barbear, alguma medicação para emergências.

Precisava de cadernos. Levantou-se e abriu um armário da sala, onde coleccionava cadernos vazios. Era sempre prático tê-los em casa.

Olhou para a pilha de livros que coleccionara desde o início do Verão, tentando resistir à tentação de ir buscar um velho e gasto volume do João Aguiar sobre nuvens e crenças pagãs e pessoas que se refugiam em aldeias no Minho.

Aproximou-se com a vela na mão. Sentia-se dentro de uma novela gótica victoriana, uma personagem que olha as estantes à luz da vela enquanto a tempestade desaba atrás dele.

Talvez um policial nórdico fosse uma boa sugestão. Ou talvez não. Quem é que no seu juízo perfeito vai para o meio do nada ler uma história assustadora que tem como cenário o meio do nada? Dadas as circunstâncias, talvez fosse mais prudente levar um livro sobre gatos e ruas cheias de livrarias em Tóquio, escrito por uma autora japonesa. E também este, com um café de gatos.

A pilha moveu-se um pouco. Talvez não caísse.

Colocou os cadernos e os livros em cima da mesa, para levar para o quarto quando fosse fazer a mala.

Teria de ser à luz da vela.

Não tinha de se preocupar com despertador, usava habitualmente o telemóvel para isso, e a essa hora já estava a pé.

Não se podia esquecer do carregador, isso sim.

No silêncio, só se ouviam os ramos e a chuva a fustigar a janela.

Nada de televisões com o volume alto.

Até conseguia ouvir os vizinhos a rir com o filho. Provavelmente, também a jantar à luz das velas. A mãe também lhes oferecera velas no Natal passado…

Já tinha avisado os pais que ia estar uns dias fora.

A mãe tinha ido visitar uns amigos no Sabugal, estava a ajudá-los com a pequena quinta que tinham, estava na altura de apanharem as abóboras e as maçãs, mas ele sabia perfeitamente que era só uma desculpa para se atarefarem na cozinha a fazer doces e biscoitos e a conversar sobre tudo e mais alguma coisa, e depois passarem a conversa para o alpendre com os biscoitos de canela que tinham feito nessa tarde e uma infusão de lúcia lima com as folhas acabadas de apanhar do arbusto.

O que o lembrou das bolachas Ikea, que se apressou a ir buscar ao pote, servindo-se também de mais um pouco da sua infusão, sempre com a vela atrás.

Se calhar podia reler a Abadia de Northanger pelo caminho. Ou A Ilustre Casa de Ramires.

Um novo relâmpago iluminou a rua. Estava tão perto.

Pousou a chávena e o pote das bolachas na mesinha de apoio que tinha ao lado da janela, junto a um confortável cadeirão de leitura.

À primeira vista, a sua sala parecia uma cópia mais actualizada da sala do tio, e a manta de crochet com quadrados coloridos típica da menina Cecília também fazia parte do kit de conforto do seu cadeirão, tal como a mesa e a proximidade da fonte de luz natural e da paisagem.

Abriu a janela, sabia lá ele para quê. Sentiu a força do vento na cara. Nesta ponta da janela não era atingido pela chuva.

Na distância, via o contorno da Serra de Sintra. Adorava a sua vista. Inspirava-o e, muitas vezes, dava-lhe motivação.

Um novo raio cortou os céus.

Magnífico!

A tempestade estava assustadora, porém. Iria deixar muitos estragos.

E a chuva não parecia abrandar, pelo contrário.

Com pouca vontade, achou mais cauteloso fechar os estores.

Iria fazê-lo assim que terminasse a sua bebida quente.

Levou a chávena e as bolachas para a cozinha, fechou os estores de toda a casa, com a vela na mão, pegou nos livros e nos cadernos que deixara em cima da mesa e foi até ao quarto.

Confirmou que a janela estava fechada e baixou estes estores também.

Acendeu mais duas velas - sim, eram imensas -, tirou a mala do armário e abriu-a em cima da cama, começando a colocar a pouca roupa que ainda tinha lavada e arrumada.

Afinal, tinha de levar só dois pares de calças de ganga, e as velhas de fato de treino.

Em cima, colocou um dos livros e um dos cadernos.

Os outros levaria na sua mala a tiracolo, com os documentos e o dinheiro.

Meteu o telemóvel na mesa de cabeceira, e atirou para dentro da mala com o carregador, inútil esta noite, e uma powerbank. 

Quase se esquecia do pijama. Meteu um na mala. Havia de encontrar algum sítio onde lavar a roupa.

Fechou a mala, confirmou se tinha tudo na outra mala e deixou junto à porta.

Não havia mais nada a fazer hoje.

A vizinha tinha a chave de reserva, para deixar entrar os pessoas da empresa de limpeza, os papéis estavam arrumados, a loiça estava em modo caos, e parecia que o seu armário tinha explodido em roupa usada para dentro do quarto.

Tinha um dia longo pela frente, amanhã, e uma noite inquieta para hoje.

Iria tentar dormir o que conseguisse, embalado pela tempestade.




3.1 - Uma viagem até ao desconhecido.

Fala João. Acordei de madrugada com o uivar de um lobo. A tempestade parece ter acalmado durante a noite, mas o silêncio era ainda mais assu...