Fala João.
Acordei de madrugada com o uivar de um lobo. A tempestade parece ter acalmado durante a noite, mas o silêncio era ainda mais assustador. Não tenho a certeza se o uivo não passou de um carro na rua, ou do sonho em que estava perdido: uma floresta densa numa encosta, que subia até ao topo, até quase ao céu, e tudo em meu redor era floresta e noite e lua. E um lobo a uivar.
Como calculava, a electricidade ainda não voltou.
Felizmente, já há alguma luz da rua, nada que não se resolva, consigo preparar-me para o dia.
Levanto-me e tomo um banho rápido. O café, hoje, terá de ser lá fora.
Dou uma vista de olhos à mala, só para confirmar se não me esqueci de alguma coisa. Não esqueci, mas podia ter mais roupa lavada.
Se não voltar o calor, vou andar quase sempre de calças de fato de treino e de t-shirts de bandas de música dos anos 90. Se voltar, de calções e de t-shirts de bandas de música dos anos 90.
Confortável, mas pouco profissional.
De qualquer das formas, é pouco provável cruzar-me com o presidente da república ou com o director da faculdade. No último caso, desconfio que seja o mesmo tipo de atavio que use nos seus momentos de lazer e de descontração.
Como ainda tenho tempo, decido começar a ler um dos livros, para perceber que é realmente um erro levá-lo. Volto a metê-lo no cimo da pilha de livros, rezando mentalmente - ou não tão mentalmente - para que não caia.
Espreito, pelo canto do olho, os meus fiéis amigos que falam de mosteiros medievais e procuro resistir à tentação. Quero estar completamente focado no que vou estar a fazer - esta viagem não é para me andar a meter pela serra a explorar ruínas, para grande pena minha. Outra ocasião virá. Talvez nas próximas férias da Primavera.
Opto por um velho amigo literário - já ontem tinha ficado com vontade de o reler.
No entanto, nas prateleiras da estante ao lado, algo me chama a atenção.
Como é que não pensei nisso antes? Talvez seja uma leitura de consulta útil para a ocasião. Pego nele e folheio-o. Fala sobre mitologia da Antiga Lusitânia. Porque não? Mais à frente, o de Mitologia Popular Portuguesa. Vieram ambos de uma visita a Sintra, numa bela tarde de nevoeiro que se tornou numa noite calorosa num bar perdido numa estrada menos frequentada, com hidromel, música celta e gatos a subirem para o colo. Agarro nesse também.
Vamos ver se a troca de gatos fofinhos no Japão por seres misteriosos em locais misteriosos, como aquele a que vou, e nesta ocasião, não me faz afinal maravilhas pela sanidade!
Arrumo estes na mala. O do João Aguiar vai comigo, para ler no caminho.
Quando me cansar da leitura, também tenho a música. A viagem irá passar num instante.
Visto o casaco enquanto dou uma última vista de olhos à casa, na esperança de que este espectáculo não assuste a pessoa que a virá limpar…
Pego nas malas e no chapéu, que nunca deixo para trás nestas ocasiões, e desço para a saída do prédio, onde o táxi não demorará muito tempo a chegar.
A tempestade parece ter abrandado. Ou, por outro lado, parece antes que as nuvens que se acumulam lá no alto estão a preparar algo ainda mais avassalador. O vento continua forte, consigo perceber pelo topo das árvores que abanam, que avisto no Jardim e ao lado do Palácio, lá ao fundo. Mas, na base, o estranho silêncio. Quase um calor.
Como se uma tempestade pior se estivesse a preparar, a ganhar balanço para dar um salto mais alto.
As cores do céu, agora que é dia, são verdadeiramente assustadoras: dourados e cinzas e rosas e chumbo - não se percebe se é dia ou se chegou o apocalipse em forma de temporal.
O táxi já está a chegar.
A viagem até Lisboa é feita sem incidentes, muita gente ficou a trabalhar em casa por causa dos alertas.
Chegados à Estação do Oriente, tudo parece normal, apenas mais tranquilo do que seria uma terça-feira de Outubro em Lisboa.
Pago ao taxista, saio do carro, apanho as minhas coisas e olho em volta. Ainda tenho vinte minutos para ir beber um café e comer um queque de noz na padaria que já costumo frequentar de outras ocasiões.
Quando regresso à plataforma, vejo que o autocarro já se aproxima da sua paragem. Aparentemente, está dentro do horário, apesar das notícias de árvores e de postes tombados por todo o país, alguns bloqueando estradas.
Algumas pessoas já se encontram aqui. Não muitas, calculo que hoje seja uma viagem tranquila.
A minha atenção vai-se prendendo com as pessoas que estão à espera para entrar: duas raparigas jovens, provavelmente universitárias, a falar com amigos no telemóvel por video-chamada, a contar as aventuras de uma semana em Lisboa, uma rapariga de uns trinta ou mais anos a conversar com o seu gato, que vai numa caixa de viagem, e que deve gostar pouco de viajar, como quase todos os gatos que conheço, um homem de fato, deve ter mais ou menos a mesma idade que eu, pouco mais de cinquenta anos, nitidamente desconfortável naquela indumentária, já alargou a gravata duas ou três vezes e tentou endireitar as costas dentro do casaco que lhe inibe os movimentos, também um padre jovem, alto e bonito, daqueles que as mães dizem que é uma pena ir para padre, que vai deixar as raparigas solteiras da paróquia com a cabeça a andar à roda, mas este ignora nitidamente as jovens que o rodeiam, e só tem olhos para o livro que tem na mão, um policial italiano com dois gatos pretos. Não o censuro, também gostei bastante daquele livro.
Com calma, entramos e recolhemos aos lugares designados. Ainda estou fresco e, com a dose de cafeína e de açúcar acabadas de ingerir, tenho menos vontade de dormir e mais curiosidade em ver a paisagem. Serão cinco horas e meia de viagem, a minha natureza não é a de conversar com os outros passageiros, pelo que enterro o chapéu na cabeça, meto os fones nos ouvidos, mesmo sem música, e abro o meu livro, enquanto espreito distraidamente pela janela. São sinais mais do que suficientes para mostrar que não estou muito para conversas. Nem com aquela senhora bastante idosa, com um carrapito feito num cabelo em tons arroxeados e de óculos à estrela do cinema americano dos anos cinquenta, provavelmente com a mesma idade, que também entreteve os momentos de espera, como eu, a observar os outros passageiros, e que se dirigiu resoluta na minha direcção, olhando-me mais fixamente do que a minha personalidade habitualmente mais introspectiva desejava
Felizmente, o seu lugar era duas cadeiras à frente do meu, mas nunca se sabe, e assim garanto alguma tranquilidade na viagem.
Não passou muito tempo para começar novamente a chover. Uma chuva densa. O vento abanava o autocarro, que ia com mais precaução do que habitualmente. Era provável a viagem demorar mais tempo do que o que estava à espera.
Olhei o telemóvel. Tinha recebido a sinalização de uma mensagem. Tinha instruções do local onde ia ficar em Montalegre. Um solar antigo, desabitado há alguns anos, que ficava fora da vila. Que não me preocupasse, porque era cuidado. Tinha um caseiro e uma cozinheira, e estava confortavelmente habitável, não me iria faltar nada. Um solar desabitado. A história estava a compor-se. Iria lá ficar sozinho, apenas com estas duas pessoas, ou se calhar nem isso, se morassem na vila? Não seria preocupante. Ou seria? Com o que se andava a passar? Confiavam assim tanto nas minhas capacidades? Mais do que eu, quem sabe?
As horas passaram devagar. Começava já a sentir o corpo a ficar mais mole. Fechei o livro, liguei a música, tenha andado com uma playlist da Eivor, que foi o que escolhi para o resto da viagem. Meto o livro dentro da mala, enterro mais o chapéu, até tapar os olhos, e deixo-me levar pelos sons. Não demorei muito a adormecer, encostado ao vidro. Não dei pela passagem do tempo, nem pelo agravamento da tempestade lá fora.
Quando parámos, finalmente em Chaves, vejo que o dia se tornou noite.
Não, não chegámos tão tarde, mas o temporal piorou consideravelmente com a tarde. A noite seria aterradora.
Saio para procurar outro transporte que me leve a Montalegre. Há autocarros que viajam para lá, e também táxis, mas chega um funcionário que nos informa que não se consegue passar: caiu um poste de electricidade na estrada, e estará fechada até ser desobstruída. Se as condições permitirem, amanhã. Se não o permitirem, não se sabe quando poderemos passar. Indica uma pensão perto da estação. Não tenho outra hipótese, não pretendo voltar atrás. Irei ficar mesmo por aqui.
Os outros passageiros seguiram a sua vida. A sua linha final era aqui. A senhora do carrapito roxo ainda veio ter comigo ter comigo, não conseguiu resistir a vir falar. Percebeu que ia para Montalegre e deu-me o contacto da irmã dela lá, uma senhora Mariana Rosa, um papelinho com uns números rabiscados numa caligrafia bonita e direita. Se tivesse algum problema, podia confiar na irmã dela. Não faço ideia de como duas idosas me poderiam ajudar, mas não sou mal-educado, e achei graça à senhora. Se calhar tinha sentido de humor e achou que seria uma partida divertida, quem sabe. Vejo-a seguir pela estação, na direcção dos táxis. Entra num e vai embora. Nem sei se alguma vez a voltarei a encontrar.
Dirijo-me à pensão, é mais à frente na rua, e tem um café e restaurante no rés-do-chão. O jovem padre segue também na mesma direcção. Trocamos olhares, e pergunta-me se também me dirigia a Montalegre. Respondo que sim, seria o destino da minha viagem. Era o dele também, é onde está agora, tinha ido visitar a irmã, que reside em Sintra, e regressava hoje para o seu trabalho. Terá de ficar até a estrada estar transitável.
Parece que irei ter a companhia do padre leitor durante mais algum tempo.
Não foi muito complicado instalar-me, estavam à espera da chegada do autocarro, prevendo que alguns dos passageiros não tivessem possibilidade de seguir viagem.
Agora só me apetece a infusão e os biscoitos que me deixaram no quarto e descansar da viagem, esticado na cama. Envio mensagem a avisar do atraso, e dos motivos. Recebo outra a confirmar. Irão aguardar que a tempestade acalme, não há mesmo forma de passar, para segurança de todos. Envio também uma mensagem à minha mãe, a avisar que cheguei bem a Chaves. Responde com uma foto de um cesto de bolinhos de canela caseiros e de duas chávenas de chá decoradas com Snoopys, acompanhada de um “Diverte-te!”. Não posso deixar de sorrir à sua descontracção.
A chuva, que acalmou nos breves momentos da chegada do autocarro a Chaves, começou agora a cair com mais intensidade, e o vento voltou a assobiar com força lá fora. Parece uma noite de trevas, e não sabemos como a vamos atravessar. Aconchego-me no edredom. O meu último pensamento, antes de cair no sono, é reparar, estupidamente, que este quarto está mais ordenado que o meu. E espero a tempestade passar.
Os livros referidos no post de hoje (vai o homem carregado na viagem, acho que leva mais peso de livros do que de roupa, é a vida…):
João Aguiar, “A encomendação das almas”, ASA, Porto, 1 de Novembro de 1995
Gilberto de Lascariz, “Deuses e rituais iniciáticos da Antiga Lusitânia”, Zéfiro, Sintra, 2015
Alexandre Perafita, “Mitologia Popular Portuguesa”, Zéfiro, Sintra, 2021
Piergiorgio Pulixi, “A livraria dos gatos pretos”, Clube do Autor, Lisboa, Outubro 2023


