quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A Devoradora de Corações e Outras Histórias de Amor Trágicas.


Prólogo: Marmelada Vermelha.

Soror Generosa mexeu de forma suave o doce e suspirou melancolicamente. Apontou mais umas notas, olhando atentamente para o resultado da sua nova experiência, e começou a colocá-lo nas tigelas de barro com uma velha colher de madeira de nogueira que trouxera no seu enxoval, há muitos e muitos anos atrás.
Isto passara-se há já 70 anos. Soror Generosa olhou as mãos. Contava agora 85 anos de idade. A pele estava um pouco manchada e enrugada, mas podia olhar sem qualquer outra diferença para as mãos esguias e elegantes, mãos de poeta e não de cozinheira, que trazia quando tinha 15 anos e entrara para sempre, ou assim ela o julgara até à manhã de hoje, deixando para trás o nome de Francisca que usara até essa idade, uma parte pequeníssima da sua vida, e um noivo com quatro vezes a sua idade que falecera menos de uma semana antes do casamento, pelo que, apesar da tenra idade, e de o pai a ter enviado para um convento, Francisca, depois Generosa, sempre teve noção de que a vida lhe escolhera melhor o destino e lhe tinha mais amor do que o seu pai.
Mesmo assim, ficou confusa, e um pouco decepcionada, quando a vida, pelas palavras da Madre Superiora, lhe anunciara nessa manhã que, por motivo de constantes cheias e de o seu singelo convento estar em risco de ruir, um senhor abastado e benévolo decidira construir-lhes um novo convento umas dezenas de metros acima, e que estaria pronto já no próximo Outono.
Quisera ela que viesse uma cheia tão grande e tão forte que levasse tudo: a ela e ao convento e às suas dúvidas e aos seus medos, sabia ela lá do quê.
Só sabia era que tinha tido uma vida de paz e tranquilidade durante os últimos 70 anos, e que as novas da Madre Superiora lhe tinham deixado um bichinho de incerteza e desconhecido a roer no peito.


Ambrósia

Desde que me lembro, sempre gostei de comer corações.
Biscoitos em forma de coração que a minha avó comprava na loja da minha aldeia, e que o Sr. António ia buscar de um saco de papel enorme, que trazia para o pé do balcão com a balança que já lá estava desde os tempos do Sr. Agostinho, seu avô, e do Sr. Artur, seu bisavô, numa família onde é tradição os primogénitos terem todos nomes começados por “A”.
Pão doce em forma de coração, que eu ia buscar de manhã bem cedo, a correr pela rua ainda mal o dia havia nascido, para poder comer ainda quente, com a manteiga meio derretida e ainda meio sólida, a alquimia que eu não compreendia a transformar o pão e a manteiga num só.
Ameixas pretas em forma de coração, apanhadas do quintal dos meus avós nos dias quentes de Julho, vermelhas e sumarentas por dentro, quando lhes rompia a casca com os dentes.
Seriam os corações também assim doces e sumarentos, com o sumo a escorrer-me pelo queixo em lágrimas rubras que me deixavam depois a pele peganhenta?
Essa questão perseguiu-me durante muito tempo.
Comecei, primeiro, de leve, só a provar, a mordiscar suavemente, depois com mais entusiasmo e, finalmente, mais confiante, a literalmente devorar os corações com que me cruzava, como o fazia, gulosamente, com as ameixas dos Verões da minha infância.
Alguns eram doces, uns em excesso, ao ponto de enjoarem, outros ácidos, outros ainda amargos. Um trouxe o sabor do desgosto, de uma tristeza imensa, outro o gosto frenético de um amor adolescente, outro o aconchego de um amor tranquilo e caseiro, outro ainda a ânsia de um amor platónico e não correspondido.
Todos, sem excepção, eu devorava avidamente; já não me era possível controlar a minha voracidade. Ou não o queria fazer.
“Mas porquê?” - perguntava-me.
Inevitavelmente, esta pequena semente de dúvida tornou-se algo muito pior; algo que, no início, eu não sabia descrever, mas que acabei por compreender mais tarde o que era realmente: a fome do meu coração.
Por muito que a tentasse saciar, ficava sempre esse vazio cá dentro.
Percebi isso alguns anos depois, ao conhecer o Samuel, não sei se foi o inevitável a meter-me à prova, se o facto de nos cruzarmos o precipitou.
Os sentimentos, aí, confundem-se e, desde o momento exacto em que aconteceu, percebi que algo nele me dava ânsias que eu não sabia que existiam, e muito mais profundas, mais selvagens, do que aquela sensação de fome que o coração sentia antes, como se apenas o coração que ele trazia no peito a pudesse saciar na sua totalidade.
No início, no primeiro instante de todos, fiquei confusa, atordoada, como se o chão me fugisse debaixo dos pés e o ar me abandonasse os pulmões.
Porque tinhas tu de vir balançar o meu mundo tão sólido?
Nesse dia, estava tranquilamente, na sombra do pátio sul do convento, demasiado quente nos Verões, a ler um romance daqueles que acabam muito mal, coisa proibida até aqui, entre estas paredes, sentada irregularmente em cima de uma saca de forragem esquecida, no único canto fresco e, pareceu-me, nesse momento, que um gato cinzento tinha saltado o muro pelo lado derrubado, imagino que vindo de uns pátios não muitos distantes, como acontecera já várias vezes, com passos elásticos e silenciosos, e que o tinha visto, pelo canto do olho, a esgueirar-se para dentro do arbusto de rosmaninho, fixando-me, por um segundo, com os seus olhos de gato curiosos e inquiridores, no preciso momento em que levantei os olhos do meu livro e os lancei na sua direcção.
Mas, depois, percebi que não: outros olhos, igualmente inquiridores, raiados de curiosidade e de algo misterioso, olhos de gato, afinal, me fixavam silenciosamente da outra ponta do pátio, na direcção do meu olhar, arrepiando-me os cabelos do pescoço, uma asfixiante sensação de frio e afogamento numa tarde de calor sufocante.
Tão semelhantes aos do gato que acabara de cruzar o claustro, que julguei tratar-se do mesmo olhar, ou, quem sabe, não tenha existido qualquer gato, naquela tarde.
Afinal, quem diz que os animais nos escolhem porque somos um pouco deles também, não deixa de ter a sua razão, e este gato cinzento já antes se gostava de passear por este lugar, habitualmente só meu, como se fosse o seu legítimo proprietário.
Como o fazem todos os gatos, na verdade, agora que penso nisso.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

THE PROMISE – CHAPTER 1 – FORSAKEN

SOME SCHIZOFRENIC NOTES FROM THIS AUTHOR:

Ok, so I got the “names’ thing” evil sickness. I collect, scan, search the web, look up for meanings of names.


Some may say I am a freak.

I agree.

Here are some explanations: 

Nevertheless, some notes on this topic might pop up once in a while.

For this chapter, though, just this one:

. Dewin means “wizard” in Gaelic. I chose this for Sevvie’s middle name because it sums what he is: wise, dark, focused, methodical, devoted to study, hard-working, going beyond the expectations, a little obsessed…

My English not very good – me not native of Great Britain – but me think me not be very very dunderhead! Working really hard on improving it, though. My new hobby is reading the dictionary. Thanks, Robin, for opening the door! Thanks, Mr Dani Filth for the kick on the vocabulary!



CHAPTER 1 – FORSAKEN


Severus Dewin Snape took the little burden on his arms, not knowing properly what to do with it, and not being exactly aware of how he decided to put himself in that specific position, against all things he thought before on that subject.

Well, there was nothing to complain about it, now: he deliberately got himself in that place – as a person – he thought bitterly as it was coming to his mind, with a slight hint of regret – who, happily, gives a step towards an unknown abyss.


The house was a wreck.

It had been pouring non-stop, the skies had been dark all day long and the murky clouds brought the night earlier than usual. Winter would be coming soon.

-“An adequate day for this event.” – Severus thought, feeling his heart still pressured with the gloom of what was ahead of him.

Dumbledore was already waiting for him, but he didn’t come near. He gave Severus some time to himself. His chest seemed as if it was sinking down in a frozen pool of despair and panic, and a cold chill from nowhere ran up his back since… he couldn’t really tell, now. Perhaps since he last talked to Lily and she left him with that gloomy feeling it would be the last time he would ever set his eyes on her breath-taking smile. Severus mentally thanked Dumbledore for that moment, because it suddenly looked as if that a knot kept his throat form working.

He had never been there before.

This had been the home of the Potter family, a family to which he could never have belonged: James Potter, the man he had always hated, the man that had always hated him, and Lily… The only person he ever loved, and he once naively thought was loved by.

But he wasn’t, after all. She chose James.

And he tried to hate her for that.

It was also his flaw, anyway. A sigh slipped into the night without he plan it, and a forlorn tear was stubbornly finding its way out, falling through his cheek mixed together with the cold rain.

If there was something particular about him, apart from the dim look and stern personality, it was his solid nature.

Severus Snape was a man one could count with. If he made a pact, he would follow it, if he believed in something, it would be forever, if he made a promise, he would keep it.

Men make mistakes. He had had few; heavy, but few, and he faced them without fear.

And he was there that wintry night to keep a promise he had made many years ago.

He stepped towards Dumbledore, with wet eyes and steadiness in his face.

The aged wizard nodded his head, understanding.

-“Are you up to this task?” – Dumbledore asked, knowing it was useless to make him change his mind.

-“I am.” – Severus answered with vehemence, though his voice could be barely heard. – “That is what I am here for.”


As the day rose and light came out, the deep clouds started to leave the sky, as if knowing their purpose now was to give hope to the desperate ones.

The future didn’t seem so dark and scary now, though the past was so.

Severus peeped in the pile of cloth on his arms, protected from the few drops of rain that was still falling over them, and finally looked at… it.

Damn! Just like James!! The same rebel expression on his face, that uncontrollable black hair!

The little thing looked back at him, quiet, curious, not making a sound, and giggled.

He couldn’t help it!

An almost imperceptible smirk twitched the corner of his mouth.

He was human, for Christ’s sake! He was not a child-eating monster!

And it had HER green eyes!

It could not be that difficult to bear.



-“Dad?”

Severus woke up from his daydream at the sound of the boy’s voice.

The same green eyes were piercingly looking at his own grim ones, the messy hair incapable of hiding the lighting bolt shaped scar that marked his forehead since he could remember.

-“Dad? Am I going to Hogwarts with you, or I’ll take the Hogwarts Express with the Weasleys?” – the boy asked, at last.

-“The train, of course, Harry! You shouldn’t miss that fun for anything!” – the wizard near the window sneered, as he turned back inside.


Harry James Potter knew instantly his adoptive father was up to something!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Odisseia do Tacho 2006 - Capítulo 5.


CAPÍTULO 5 – O INSTINTO É UMA COISA FATAL.

“Com quem estou a falar?”
A voz no outro lado da linha e o timbre levemente ácido não deixavam margem para dúvida. Apesar de nunca se identificar e de fazer perguntas como se fosse um interrogador/torturador da Pide, já toda a gente na Cadriceira conseguia saber que era a D. Adélia quando ela telefonava – até Natasha, a escultural partenaire/assistente ucraniana do Júlio Cangalheiro, que só falava meia dúzia de palavras em Português, ainda por cima consagradas à sua área de trabalho.
Odete Maria apontou calmamente a encomenda de um chicote novo, 2 pares de algemas com penugem rosa choque da marca Floribella Hardcore e uma lingerie especial modelo Pamela Anderson com almofadões no soutien – medida “seios extremamente flácidos”, que tinha chegado na remessa nova, enquanto deitava o olho ao António Luís, que viera saber do paradeiro do Bruno do talho, mas que ficara, um bocado contra a sua vontade, para um cházito e uma sessão de tortura amarrado a uma cadeira com uma corda daquelas grossas e dolorosas que se usam nas traineiras.
Há já alguns dias que a D. Adélia andava sossegada – ela, que quando não andava a gastar litros de água oxigenada na banheira para aloirar mais o cabelo e intoxicar o organismo, se entretinha a rondar tudo o que mexia e que conseguisse agarrar, enquanto se fingia distraída a regar o jardim ou a dar o comer aos pintos.
Coincidentemente, pensou Odete Maria, fazendo rapidamente as contas de cabeça, desde a mesma altura em que se dera pela falta do Bruno...
Ora aí estava um caso que poderia interessar a sua irmã, a mulher que tudo vê... menos o seu pseudo-namorado amarrado a uma cadeira num quarto estreito lá de casa pela sua própria irmã...
Deixando o António Luís a pensar na vida enquanto ia perdendo a sensibilidade das mãos e dos pés, Odete Maria acelerava o passo em direcção à Sociedade Recreativa.
Encontra a Maria Odete a braços com um pequeno problema de cariz profissional – Giséla Sóráia chorava inconsolavelmente o seu arrasador destino, depois da leitura dos búzios – o Índio George nunca será dela, apesar de ela o tentar convencer, por todos os meios, a voltar para o lado certo, mesmo depois de quase o ter convertido para aí umas 4... não... 5 vezes nessa noite – aquela empoleirada no lavatório também conta...
Nem foi preciso Maria Odete arranjar uma desculpa esfarrapada para meter a chorosa e ranhosa Giséla Sóráia a andar – logo ali passava um helicóptero das Forças Armadas, conduzido pela singela Joaninha das Autópsias, que andava a tirar o curso de piloto e que durante uma aula de treino passou – por acaso, é claro – ao quintal da D. Adélia, onde conseguiu avistar a figura trémula do Bruno completamente anestesiado e subjugado, e que conseguiu socorrê-lo, montando ela própria uma arriscada porém eficaz missão de resgate.
O caso estava resolvido!!
Apesar de pensar que tinha sido raptado por seres de outro planeta como julgava – principalmente naquela parte em que se sentiu subjugado pela sonda anal - o Bruno do talho, objecto dos afectos, da atenção e das psicoses da D. Adélia que, bem vistas as coisas, ainda chegava a ser prima do serial killer da Cadriceira famoso nos Anos 70 e que andava com vontade de petiscar carninha fresca, havia sido vítima de uma cabala montada pela própria D. Adélia e por um misterioso homem contratado por ela...
... Conhecido como o “Perigoso e Assustador Pensionista do Andarilho”...
...um homem que a D. Adélia conhecera muito bem no seu obscuro passado e que era um profissional nos anos 50, mas que agora não passa de um... assustador pensionista... num andarilho... mas ele também ainda não se convenceu disso...
Ficou toda a gente pasma com esta aventura do Bruno do Talho, ainda meio atordoado, enquanto iam degustando um churrasco ao ar livre no pinhal ao pé da sociedade Recreativa, e molhando o bico num tal de vinho frizante gaseificado, que começava a deixar as pessoas assim mais levezinhas, porque estava calor e aquilo até escorregava bem...
Entretanto, Maria Odete, já cheia de pedalada e de sangria, começa a cantar um fado do Alfredo Marceneiro numa versão composta e interpretada por ela quando pensou que ia ao Festival da Canção de 92, o que faz com que o R.J., o Fanhoso, emocionado, caía do banco e entale as partes nas cuecas fio dental adquiridas na loja da Odete Maria, facto que ele logo ali revelou, adjectivando as ditas cuecas com uma data de nomes menos próprios...
Lançando ao R.J. o Fanhoso um olhar furibundo, Odete Maria saca da chinela holandesa de madeira que tinha no pé e lança-se a ele, ofendida na sua virtude. A irmã não se fica atrás, e aproveita para meter o pé no nariz do Índio George, que tem quase 2 metros de altura, enquanto a Joaninha se descontrai e dá com pote da água na tromba do Bruno, roída de ciúmes de pensar que ele se andava a meter com a D. Adélia, e Xavi Fuentes preparava-se já para arremessar o cutelo que trazia para o que desse e viesse à Maria Odete, que já não a podia ouvir, quando o Pato Jeremias, ajeitando com a asa o seu risco branco no meio da cabeça, informa:
“A radiografia da cabeça do Santo do Painel do Infante não apresenta sinais de qualquer modificação na execução pictural da sua fisionomia. O modo como se revela uma modificação desse tipo, através da documentação radiográfica, é aliás bem evidente no caso do personagem que, no mesmo painel, se situa entre o Santo e a figurão do chapeirão.”
Na posição mortalmente estática e silenciosamente avassaladora em que ficaram os nossos personagens, apenas o Bruno consegue exclamar:
“Raios partam os patos!! Sabem tudo! O instinto é uma coisa fatal!”E voltou toda a gente à sua vida normal.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Francisca, a herdeira da bipolaridade.

O exemplo mais vibrante do efeito de bipolaridade causado por este trabalho.

Tem dias em que é a companheira mais enérgica e bem humorada do call center, chegando a raiar a fofinheza.

Noutros dias, como ela própria diz, tem o coração negro: dá tacadas e raspanetes a toda a gente, mesmo que só peças licença para passar, é sarcastica até aos fundilhos (como os calções da Pitazita) e ai de quem se meta à sua frente.

Tem fobia aos ratos, mas não foi por consideração a ela que fizeram a limpeza ao edifício (não, não foi desratização, foi mesmo passar vassoura e esfregona!) no dia em que encontraram um mini ratinho na copa do primeiro andar.

Foi porque depois fechavam a chafarrica toda!

sábado, 30 de maio de 2015

Ah... quase férias!

O Cromagnon ganhou 4 dias de folga seguidos, quando o normal é apenas de um ou, vá, dois dias.

Isto inclui um fim de semana, o que é bom, e a segunda-feira, o que é melhor ainda porque, ali, habitualmente, a segunda-feira é o dia do Demo, uma vez que toda a gente gosta de tratar das suas mariquices todas e de telefonar para os sítios na segunda-feira.

De manhã!

O Cromagnon acha, e apregoa aos sete ventos, mesmo lá para o fundo do espaço, que tal benesse se deve à sua excelente prestação como operador.

Ou a ir ser despachado em breve porque é um bocado baldas, por protestar de tudo e mais alguma coisa, por levantar a voz aos colegas e aos segurados, por vezes, até ser mal educado, por quase se ter ferrado à porradinha com uns quantos colegas, no local de trabalho, com os segurados da outra linha e em frente a supervisores e por, basicamente, ser chato como a potassa.

Uma delas.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Teoria dos Relacionamentos num call center perto de si.


Aqui há uma regra interessante: para não prejudicar o ambiente laboral, e é compreensível, não se pode ter relacionamentos com colegas de trabalho.

Quando isto, inevitavelmente, sucede (ó meu deus, parece que engoli um dicionário!), os respectivos colegas são colocados em postos ou horários distintos, e incentiva-se  a não comunicação entre as partes.

A outra hipótese, e também mais utilizada, é despedir um deles, e cortar o mal pela raiz.

Também há duas tábuas de medir. 

No caso óbvio do nosso departamento, os alguns elementos, além de trabalharem juntos no mesmo piso e a um máximo de 3 metros um do outro, utilizam o telefone da casa para passar recadinhos entre um e outro e combinar coisas pessoais, além de meter outros elementos na conversa, o que, às tantas, faz aquele escritório parecer mais a sala lá de casa ("então, vamos ali a taberna petiscar e beber umas cervejas e ver o jogo de futebol e o rescaldo, apesar de alguns de nós estarem em horário de trabalho?") e nós não sabemos o que é que estamos ali a fazer, porque nos sentimos, vá, um bocado a mais, e menos num escritório de Call Center onde, supostamente, se trabalha.

Já de outros tipos de relacionamento, em locais como este, é de bom tom não se falar de todo, especialmente se um ou mais dos elementos são casados com outra pessoa que não aquela, e mesmo que algum colega os veja um pouco mais íntimos no elevador ou na casa de banho do lado menos usado do open space...

E depois venham precisamente com ideias fofinhas para o dia dos namorados, tipo, t-shirt vermelha se estás comprometido, amarela se assim assim e vermelha se não disponível, exibindo orgulhosamente t-shirts vermelhas e um balãozinho atado no braço. 

Nesse dia, o grosso da equipa de Portugal mandou estas teorias às de vilas diogo e veio quase tudo de preto ou azul, menos a miúda fashion da Figueira, que veio fofa e fashion e super fixe, como vinha todos os dias, claro.

Terá sido mais um prego na jangada que nos afundou naquele local e fez o chefe querer abrir antes um escritório em Lisboa. 

A hipótese de ele querer estar mais perto das praias de Cascais é outra teoria, já que Madrid não fica assim tão perto das praias de Cascais.

De também referir que as regras da casa, no papel que temos de assinar, nos dizem que não se pode utilizar o telefone do trabalho por motivos pessoais, mas isso, provavelmente, depende do ponto de vista, e telefonar para os pais idosos que estão a mais de 300 kms de distância ou para os filhos pequenos que ficaram sem o pai ou a mãe no fim de semana e já não o ou a vão ver, porque sai tarde, e eles tem de se deitar cedo porque há escolinha no dia seguinte, é considerado delito grave e motivo para chamada de atenção da parte do superior mais próximo, mas telefonar para a mãe a sabe se o bóbi cagou, ou combinar saídas com colegas dentro do trabalho, amigos de fora do trabalho ou até mesmo o namorado supervisor, já é cordialmente aceite (olha, pimbas, dicionário, outra vez!), quando mais não seja porque o supervisor até é amigo do nosso superior mais próximo e o dito superior até poderá ser convidado para a tal patuscada!

É como o nosso sistema de integridade social: a corrupção até é tolerada,  mas ir para a net expor verdades do governo, ui, isso é que já não, é uma coisa perigosíssima, não podemos admitir numa sociedade actual como a nossa, vamos já enviar a PJ atrás para apanhar os meliantes e apagar todos os registos!


2.13

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Fisgas Baguete, o pseudo hippie, baldas ou qualquer coisa assim do género.


O Fisgas Baguete. aparentemente, era especialista licenciado em temperamento zen mas, em termos práticos, e pelo que a mim parecia, uma das pessoas que conheci que fervia em menos água, sendo as outras o Cromagnon e o Maligno, uma vez que já quase que se ferraram à pantufadita ali em frente dos colegas, supervisores e os clientes do outro lado da linha, mas não sei, se calhar vejo coisas a mais. 

Às vezes também oferecia bolo e era perfeitamente cordial, pelo que uma pessoa fica confusa. 

Volta e meia, fazia a sua borradita, e levantava o garimpo ao colega mais próximo que dissesse "piu", além de que tinha o aborrecido hábito de se meter à coca das calinadas dos colegas para ir fazer queixa à supervisão, o que não é uma das nossas funções no trabalho. nas costas dos ditos colegas, por mail com cópia também ao colega visado, que era um bocado apanhado de surpresa.

Apreciava folgas, férias e baldas, gozando as suas horas livres com um rigor britânico que não possuia para a hora de entrada.

Tinha o hábito de fazer partidas parvas aos colegas (mas mesmo muito parvas, daquelas que só têm piada para ele), do género dizer que não sei quem tinha feito reclamação, ou que tinha mandado o reboque de Lisboa para uma assistência mas na Odivelas do Alentejo e que o director ali do andar estava muito aborrecido à sua procura porque tinha gasto uma batelada de dinheiro à companhia, mas deixou de se esticar com esta que vos escreve, por mor de ter, uma ocasião, visto o Demo em forma de Baldomero.

(O Baldomero é uma das pessoas que vive na minha cabeça).

Não se livrou precisamente esta que vos escreve da bela conversa com a supervisora responsável, depois do devido mail a fazer queixinhas, endereçado quando a criatura se recompôs, no dia seguinte mas, pelo menos, sossegaram-lhe as parvoíces!

Já não se encontra no seio da equipa, mas também nunca escondeu o seu intenso desejo de ver aquilo pelas costas, uma vez que, assumidamente, não via qualquer futuro naquela profissão, e o seu objectivo era divertir-se um pouco, conhecer pessoas, e ganhar uns trocos para viajar, que foi o que ele fez assim que pôde. 

Mais esperto que todos nós, afinal, menos na escolha do país. 

Tivesse ele decidido fazer isto na Holanda ou na Bélgica, ainda chegava ao fim do mês com algo que poupar, agora aqui, só valia mesmo pela experiência de vida...


2.12


3.1 - Uma viagem até ao desconhecido.

Fala João. Acordei de madrugada com o uivar de um lobo. A tempestade parece ter acalmado durante a noite, mas o silêncio era ainda mais assu...