Friday, November 16, 2007

CAPÍTULO 7 – UM TAL DE SÊLO ULTRA-SECRETO e etc., que não cabe.

CAPÍTULO 7 – UM TAL DE SÊLO ULTRA-SECRETO, DE UM TEMPLO QUE NINGUÉM SABE QUAL É E QUE NÃO SE PODE DIZER ONDE FICA E ISSO, E NEM SEQUER SUSSURRAR O SEU NOME, LOCALIZAÇÃO, QUEM LÁ ANDA E QUEM LÁ VAI, JÁ NEM AQUI ESTOU, CARAÇAS!”

“Oh, suave donzela, que penteias docemente teus longos cabelos da cor do mel à luz venturosa do sol matinal, quão sonhadores são teus olhos, quão sumarentos eu devaneio teus lábios, quão luminosa e quente a tua pele. Por ti, o meu coração bate mais veloz, por ti, enfrento tumultuosos perigos com prazer, os saques que conquisto deixo a teus pés como uma dádiva da devoção que a tua presença me inspira.
Oh, formosa dama, vira os teus olhos de céu para este teu pobre servo, nada mais que um humilde sonhador!”
Seria esta a prédica de D. Epifânio, caso tivesse o dom da palavra.
Mas não tinha.
Para compensar, D. Alarico tinha de sobra, e era ele quem emitia esta expressiva declamação a D. Matilda, que apenas tinha vindo à varanda esticar os ossos, ainda nem se tinha penteado, e nem sequer tinha passado a fronha por água, enquanto D. Epifânio, de joelhos no chão e singelas flores silvestres na mão, ficara sem palavras a olhar embevecido a musa inspiradora da sua coragem.
E foi precisamente por estar cheio de calores e de ideias parvas que D.Matilda atirou com o conteúdo do pote de noite que ela e a sua amiga Aldonza usaram durante essa semana para cima da fogosidade e da imensa trunfa de D. Alarico!
Foi suficiente para o calar, graças aos céus, que nem todos temos os hábitos estupidamente madrugadores desta gente!

Eis senão quando, antes do almoço - mas a que outra hora poderia ser! – surge Custódio, o Parvo montado numa coisa inventada pelo Mago Teobaldo, mas que ele ainda não sabe propriamente para que serve, pelo que dá para ir desenrascando umas coisas aqui e ali, que o instruiu para “castigar os pedais como se não houvesse amanhã” (e para o Custódio não haverá, realmente, se não cumprir as ordens do Mago Teobaldo, que lá se vai o unguento para a sarna, o xarope para os sapinhos e o chá para a psicose!), de modo a entregar o mais rápido possível uma mensagem ao mais bravo cavaleiro d’ El Rei D. Gervásio, o Alarve – D. Epifânio.
Como o Custódio, o Parvo, parece não ter noção do desvairado poder do Mago Teobaldo, vinha em ritmo de passeio dominical, a trautear uma modinha intitulada “Vem devagar, emigrante”, motivo pelo qual foi abalroado pelo Baldomero na sua carroça de dois eixos, que vinha a trote de Canabis pelo cascalho, para dar uma imagem de garanhão e de pessoa que controla bem os seus movimentos à voluptuosa Ramira, a sua paixão mais ou menos secreta, que ia ao castelo visitar a sua prima direita Aldonza, odalisca a tempo inteiro de profissão, que viera passar uns dias com D. Matilda, sua amiga desde há largos anos.
Assim, surge realmente no castelo o Custódio, o Parvo, montado naquela coisa, mas meio de banda e completamente atordoado, em cima da carroça do Baldomero, amparado por dois fardos de palha e uma barrica de sangria, mantimentos de emergência que Baldomero leva sempre, para alguma ocasião em que sejam necessários – para ele e para a sua mui estimada mula Canabis!
Bem, a mensagem lá foi entregue secretamente ao bravo D. Epifânio, mas como ele a leu em voz alta, toda a gente ficou a saber que era para ele ir ter com muita urgência à tenda do Mago Teobaldo, que ele tinha uma tarefa da mais vital importância para ele realizar.
Assim, chegou lá ao mesmo tempo que o seu concorrente D. Alarico, bem como as Gémeas do Terror, que o tinham ido apoiar vigorosamente, bem como ao Pepino, o Lombardo, que tomara banho só há 2 semanas e ainda estava cheiroso, o cozinheiro Lelo, que vinha trazer em segredo ao Mago Teobaldo uma remessa de uma farinha que só se arranjava no reino da Colômbia, o Custódio, o Parvo, a quem tinha acabado a pomada para uma inflamação íntima que o afligia deveras, Argimiro, o de Cheirete a Azedo, e que vinha fazer não sei o quê, e também aqui este vosso amigo, Amâncio, o Menestrel, que vinha ver precisamente isso!
Depois desta gente toda, lá o Mago Teobaldo conseguiu arranjar um tempinho para atender D. Epifânio e D. Alarico, que ele achou que, como se odiavam, bem podiam fazer qualquer coisita em conjunto, a ver se melhoravam estas atitudes estúpidas.
E assim lá foram os dois levar um pacote secreto e selado, com uma mensagem oculta, ao tal lugar que ninguém pode dizer propriamente onde é.
Felizmente, não era muito longe, pelo que os dois agora companheiros de jornada tiveram apenas que partilhar uma refeição que, como era de coelhinho bravo na brasa e estavam os dois com alguma larica, porque já tinham saído do castelo antes do almoço, até correu de feição. Depois de sesta, lá continuaram a subir o monte, que até nem era muito íngreme, e aproveitaram para apanhar algumas flores silvestres para as damas da corte, até porque a sangria parecia ter-lhes batido forte.
Chegados ao templo, tocaram o badalo e a porta abriu-se instantaneamente.
Lá dentro, surge num corredor sinistro, envergando um traje assustadoramente negro e com a cabeça tapada, um monge com um tamanho avassalador, dono de uma voz de trovão maldito, que lhes diz apenas: “Sim?”
D. Alarico perdeu repentinamente o pio, mas D. Epifânio, como reparou que tinha espaço para largar a correr dali a alta velocidade, uma vez que não levara a armadura, atirou o pacote à cara do eremita, gritando, enquanto se punha a milhas: “É um recado do Teobaldo!”
D. Alarico não se fez rogado, e foi-lhe logo no encalço, correndo até mais depressa, porque tinha as pernas mais compridas e motivações mais fortes.
O sombrio monge baixou o capuz e agarrou lentamente o pacote misterioso caído no chão de pedra rude e fria.
Sorriu, dizendo: “Finalmente! A receita das charnicaias!”

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